18 março 2009

 

Ser juiz, hoje

A crónica de Mário Santos, na Revista “Actual” do Expresso de sexta-feira passada, intitula-se “Dr. Juiz” e fala de um restaurante lisboeta de boa comida e ambiente acolhedor, em que o dono se preza não só de servir bem os clientes, como de perscrutar a sua psicologia e adivinhar o que fazem na vida. Como assim, começou a chamar “Sr. Dr. Juiz” a um cliente novo que lá tinha sido levado pelo cronista, deduzindo-lhe a profissão do ar circunspecto, da cabeleira branca e dos óculos de aros grossos. Esses são (ou eram) traços icónicos de uma imagem estereotipada de juiz. Nem sempre, porém, correspondem à realidade. E, no caso, não correspondiam. O novo cliente, que era professor, quis corrigir esse tratamento, dizendo que não era juiz. Porém, o excelente gastrónomo não acreditou e ficou-se sempre na sua: «Eu sei que os senhores doutores juízes, agora, com o que para aí vai, não gostam de ser reconhecidos fora do tribunal.» E passou a tratá-lo sempre por “Sr. Dr. Juiz” com toda a convicção, porém, daí para a frente, «num tom de voz mais baixo, mais confidencial e mais cúmplice (…)»
O que isto revela é interessante: que há a convicção de que os juízes não gostam de ser reconhecidos publicamente como tal. Isso deve-se fundamentalmente ao facto de terem sido causticados e vilipendiados, de uma forma muitas vezes gratuita e indiscriminada, a partir da tomada de posse deste governo. Seria possível fazer reformas sem esse ataque descabelado e sem ferir desnecessariamente a honorabilidade desses profissionais, mas foi o que não se fez, como se para implementar reformas, muitas vezes demagógicas – e talvez por isso mesmo – fosse preciso deslustrar toda uma classe profissional. Essa foi, aliás, invariavelmente a estratégia seguida com outras “corporações”. Mas os frutos envenenados de tal estratégia começam a aparecer com toda a nitidez.





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