20 outubro 2020

 

O discurso do Presidente

(demonstrativo da coragem que um líder invulgar ostenta ao mundo inteiro em tempo de pandemia)


Eis, eis! Aqui estou acenando-vos com a mão e retirando da cara, com energia, este trapo que parece uma mordaça com que saí do hospital, disposto a retomar o lugar de great president do nosso país very great. Antes de mais, thank you very much pelo amor que tendes demonstrado para com a minha pessoa. Uma mensagem patriótica vos quero transmitir nesta hora do recomeço. Não tenham medo da Covid 19. Afinal, não presta para nada, asseguro-vo-lo. É muito fácil debelar a doença. Acabo de ter a experiência disso. Sou o vosso presidente e, por isso mesmo, quis desafiar o vírus e enfrentá-lo sem medo, como um valente que não teme arrostar a adversidade, seja que adversidade for. Vocês sabem muito bem que sou um homem teso, no verdadeiro sentido da palavra, e que não sou como os maricas desses democratas que andam mascarados. Comigo não há máscaras. Apanhei o vírus com a coragem e a frontalidade que vocês conhecem. Posso mesmo dizer: cacei o vírus e vi a realidade de que é feito. Não é nada do que dizem para aí. Ele é mesmo chinês, um fracalhão. Agora posso dizer com mais fundamento ao presidente Xi que o império dele não vale nada e que nós não vamos deixar que esse falso império nos ultrapasse.

Encarei o vírus e eis-me aqui à vossa frente, são como um pêro, como estais a ver; sinto-me melhor do que nunca, depois de o ter derrotado em tempo recorde (comigo, não há cá forma de engonhar: it’s make or breake. Vocês conhecem-me). Eu andei pelas ruas e pelo meio das multidões sem medo desse vírus, sempre de cara destapada, como deve andar um homem que se preza, e a verdade é que o apanhei e dei com ele em pantanas. Fi-lo para vos demonstrar, como vosso presidente, que é preciso não ter medo.

É certo que já sucumbiram ao vírus mais de duzentos mil dos nossos compatriotas, mas não receiem pelas vossas vidas. Esses compatriotas eram, na sua maioria, democratas timoratos (as informações em contrário são fake news) e não tinham o segredo da resistência ao vírus. Foi preciso que eu me expusesse insistentemente ao risco de o apanhar para que esse segredo fosse descoberto. Estou rodeado dos melhores médicos, porque, sendo o vosso presidente, tenho naturalmente o direito de tê-los e é preciso que a minha saúde seja bem cuidada para que possa continuar a ser o vosso presidente, embora correndo riscos com toda a generosidade e valentia. Foi graças à minha equipa de brilhantes médicos e à minha serenidade face ao vírus, que estoicamente recebi no meu corpo quando ele resolveu atacar-me, que se descobriu a arma para o fulminar. Claro que eu tive que voluntariar-me (fi-lo pela nossa grande Nação e pelos meus queridos compatriotas) para experimentar a mezinha apta a liquidá-lo. E agora estou aqui rijo como sempre (porventura até mais fortalecido pela crise que atravessei), estou aqui a dizer-vos que aprendi com a minha experiência como se comporta o vírus que Xi nos mandou para cá e a maneira de o liquidar. É muito fácil anulá-lo. Não se acreditem nesses gajos da Ciência que andam para aí a dizer que ele é muito perigoso. Olhem para mim. Estou sem máscara e imunizado de vez. A primeira dama também lá está na Mansão Presidencial, bem de saúde, mofando do vírus. Eu vou revelar-vos o segredo de o derrotar. É muito fácil. Coisa de um coktail e mais umas beberagens. Já sei que os democratas preferem andar mascarados, porque eles são maricas com medo do vírus, mas os meus apoiantes são homens e mulheres que vão em frente como eu, de cara destapada. Aprecio esses homens e sobretudo essas mulheres, que são grandes entusiastas e fãs da minha pessoa.

Thank God o vírus atacou-me perto das eleições, dando-me a oportunidade de mostrar ao nosso povo a coragem que me caracteriza e de descobrir a fórmula para o debelar. Ele vai desaparecer, vai… Vamos ter doravante um período dourado. E o candidato democrata que venha enfrentar-me sem máscara. Mando-lhe um bafo, que o deito por terra.


(Transcrito com a fidelidade que sempre tem demonstrado este vosso criado)


Jonathan Swift (1665-1745)


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