10 julho 2020

 

China VII




De manhã cedo atravessámos, de autocarro, um comprido túnel que, por baixo do mar, liga a cidade de Hong Kong ao cais onde se apanham os ferries para Macau. Fomos acompanhados pelo guia chinês, que, no seu fluente castelhano, nos foi ministrando conhecimentos sobre as construções subaquáticas na região da península do Caulum, onde se encontra Hong Kong. Actualmente existe uma ponte que liga os dois territórios e que tem uma extensão total de 55 kms. (a maior ponte do mundo?), inaugurada em Outubro de 2018.
Munidos dos respectivos bilhetes, pré-comprados, embarcámos num agradável turbo-jet, que fez a travessia do grande delta do rio das Pérolas em apenas 1 hora (num ferry tradicional levar-nos-ia pelo menos três horas). Estava um belo dia de sol, como tem estado sempre nesta viagem, pelo que pudemos desfrutar plenamente o prazer de navegar a uma velocidade considerável, contemplando a vastidão do delta, através dos vidros das janelas, que a água, arremessada com a força da deslocação, vinha borrifar de gotículas, deparando-se-nos, de quando em quando, as arribas cobertas de verdura de alguma ilhota. Antigamente, estas águas estariam enxameadas de arrojadíssimos piratas, que assaltavam com perícia e ferocidade as embarcações que passavam. Segundo uma versão que se conta, os portugueses que andavam pelos mares desta parte da Ásia, ajudaram os chineses a combater os piratas e a vencê-los, ao cabo de três anos de porfiados esforços, o que fez com que as autoridades chinesas tivessem premiado Portugal com a doação de Macau.
Aqui, uma vez desembarcados, esperava-nos a guia que nos iria acompanhar durante o tempo da nossa permanência. Chamava-se Maria Eugénia, uma senhora de origem portuguesa, com uns ligeiros traços achinesados. A língua em que se exprime é o português, com uma ou outra palavra em castelhano. Diz que não percebe os chineses, porque não fala o mandarim, mas o cantonês. É uma mulher desembaraçada e cheia de bom humor, alegre, muito expressiva e satisfeita da vida. Aparenta mais de sessenta anos, mas diz que não chegou aos cinquenta com uma tal graça, que põe toda a gente a rir. É esta mulher que, de microfone em punho no interior do autocarro, nos vai dando indicações sobre Macau, as pontes que fazem a ligação às ilhas da Taipa e de Coloane, a Hong Kong e à China continental. Fala com entusiasmo dos progressos do território, da religião cristã que é a sua e do seu conforto em viver neste canto do mundo, onde não a parece incomodar a integração na vasta China dita comunista. Ah!… e também fala de Sun Ya Tsen. Como poderia não falar desse homem, fundador da República da China em 1911 e seu primeiro presidente, que varreu do mapa o regime dos imperadores, esse médico natural de Cantão, que viveu e exerceu em Macau? “Sabem que foi ele que acabou com o enfaixamento dos pés, esse bárbaro costume que vitimava as mulheres? Uma coisa horrível que obrigava as mulheres a andarem com os pés amarrados, encolhendo os dedos e fazendo feridas. E sabem que o Dr. Sun Ya Tsen trouxe a medicina ocidental para Macau?”
Eis que, levados pela loquacidade e a boa disposição da D. Eugénia, chegamos à Porta do Cerco. Uma porta que não tem nada de imponente, é até relativamente modesta, ao menos em comparação com aquilo que nos pintava o nosso imaginário, que nos inculcava uma porta muito mais avantajada para servir de fronteira entre Macau e o vasto território da China continental. A verdadeira fronteira, aliás, seria mais acima. D. Eugénia narra um pouco da história desta porta e fala de um governador português – Ferreira do Amaral, que teve um final trágico: os chineses assassinaram-no e decapitaram-no. D. Eugénia fala da abertura de uma estrada ordenada pelo governador, que ia de Macau até às designadas portas do cerco (isto é, até à fronteira com a China) e que, para o efeito, foram escavados cemitérios chineses que para ali existiam, dando origem a que os camponeses se revoltassem e o matassem. Insatisfeito com a explicação, procurei mais informações, designadamente na internet. Sumariando o que investiguei, aqui vai algo mais:
Ferreira do Amaral foi governador de Macau no tempo de D. Maria II. Distinguiu-se por reforçar a soberania da colónia, aliás, em consonância com os desígnios políticos manifestados pela rainha, acabando com certas dependências chinesas em termos alfandegários e direitos correlacionados, pagamento de rendas anuais, etc..., declarando Macau como um porto franco e ordenando a expulsão dos mandarins.
Por outro lado, teve a pretensão de estender o seu domínio sobre toda a comunidade macaense, estabelecendo impostos que oneravam também a comunidade chinesa e acabando com o seu estatuto especial, isto para compensar a perda de receitas provocada pelo facto de Macau passar a ser um porto franco. A comunidade chinesa reagiu revoltando-se e a revolta foi sufocada pelas forças militares portuguesas. Dias depois, em 22 de Agosto de 1849, Ferreira do Amaral foi assassinado, tendo sido decapitado e tendo-lhe sido decepado o braço direito. Quanto à abertura da estrada, encontrei efectivamente alusão a esse facto, mas não vi nada que se relacionasse com a escavação de cemitérios.
Esta cena deu origem a um confronto entre os militares portugueses e as tropas imperiais chinesas, refugiadas num forte que se situava do lado chinês. Um oficial macaense, chamado Vicente Nicolau de Mesquita, reuniu umas dezenas de soldados, os quais atacaram o forte, acertando-lhe com um único tiro disparado por uma peça de artilharia e espalhando a confusão no forte, que depois assaltaram, expulsando os cerca de 500 chineses que lá se encontravam. Como represália, trouxeram a cabeça e a mão de um mandarim.
Os dois acontecimentos – a morte do governador e o assalto ao forte, conhecido como Passaleão -, ficaram registados a um lado e outro da porta do cerco, cujo arco foi mandado erigir em 1871 para comemorar esses feitos. A porta não data dessa altura, mas anteriormente seria em madeira. Do lado esquerdo está gravada a data da morte de Ferreira do Amaral – 22 de Agosto de 1849 – e do lado direito, a da btalha de Passaleão – 25 de Agosto de 1849. Na barra por cima do arco, a inscrição: A Pária Honrai Que A Pátria Vos Contempla.
De autocarro, seguimos para outra paragem. Desta feita, vamos visitar alguns monumentos do centro histórico, fazendo parte do património mundial classificado pela UNESCO em 2005. Há um conjunto de igrejas situadas próximo umas das outras, as quais vamos percorrendo, entrando nesta ou naquela: igrejas de Santo António, Santo Agostinho, S. Lourenço, S. Domingos, esta com uma fachada mais imponente, de estilo barroco, mas nenhuma delas com uma riqueza digna de uma menção especial, quer pelo que toca ao exterior, quer no respeitante ao interior. A igreja efectivamente mais relevante é uma ruína, de que apenas se conserva a grandiosa fachada, barroca, mas com outros estilos à mistura, ostentando uma profusão de imagens. É a igreja de S. Paulo, aliás, da Madre de Deus, que é praticamente um ex libris de Macau.
Construída pelos jesuítas no século XVI (1565), sofreu um incêndio no final do século. Sujeita a reparação, esta veio a ficar concluída em 1602, mas um novo incêndio, em 1735, veio a destruir a igreja por completo, assim como o colégio anexo, esse, sim, denominado Colégio de S. Paulo, uma espécie de instituto universitário, onde faziam estudos superiores os aspirantes a missionários, que depois iam evangelizar para diversas paragens da Ásia. Elevada no cimo de vasta escadaria, a fachada é o testemunho sobrevivente de uma das maiores, senão a maior igreja católica do Oriente. Está construída em vários níveis, terminando num frontão triangular; cada nível e o frontão encerram uma determinada simbologia.
A célebre Gruta de Camões não podia deixar de estar inscrita no cardápio de visitas obrigatórias. É talvez daqueles lugares míticos que o viajante português almeja com mais ardor. Talvez por isso o confronto com a realidade deixe um certo sabor de decepção. Já se sabe que realidade alguma preenche as dimensões de um mito, seja ele de que natureza for. Porém, esta gruta resume-se a três calhaus, dois ao alto e um de través, em cima daqueles. O viajante pergunta, incrédulo: «Foi aqui que o nosso épico se refugiou a urdir a gesta dos descobrimentos?» A lembrá-lo lá está a inscrição numa lápide da primeira estrofe d’Os Lusíadas.
Os pedregulhos sugerirão a possível rudeza, mas não certamente a beleza primitiva do lugar, hoje inserido num belo e cuidado parque urbano com vegetação tropical, que ascende pelo outeiro, dispondo de uma ampla escadaria de pedra; o local que se diz ter sido a gruta fica sensivelmente a meio do escadório, num recanto pavimentado, como aliás todo o recinto. Ajustadas serão as palavras que Ferreira de Castro escreveu sobre o local:
«É um admirável parque, cheio de amáveis recantos, de árvores seculares, de flores, de chineses que meditam sobre os bancos, de pares que buscam as sombras e de crianças que brincam nas clareiras. Situado junto ao porto interior, o outeiro oferece belas perspectivas sobre os juncos ancorados, a Ilha Verde no flanco da península, e as distantes montanhas de Chung Shan. A única coisa feia é, justamente, a gruta onde o épico teria escrito parte d´”Os Lusíadas”. Dois penedos verticais, sobre eles um penedo horizontal, eis o sítio que se julga eleito por Camões para nele trabalhar.» (A Volta Ao Mundo, edição monumental, Empresa Nacional de Publicidade, 1942, p. 480).
A propósito da gruta de Camões, um pensamento que me ocorre é como foi ele um profundo renovador da língua portuguesa e um exímio estilista, que abriu caminho ao português moderno, e ao mesmo tempo um vastíssimo conhecedor da mitologia e da cultura da Antiguidade Clássica, da literatura, da cosmografia, da história e de várias outras ciências do seu tempo, de que deu provas sobejas de erudição n’Os Lusíadas e também na sua obra lírica, tendo levado a vida que levou. Como foi ele um tal portento, tendo sido um boémio brigão, um viajante de largo espectro e um aventureiro como Fernão Mendes Pinto, em suma, um homem de vida instável e acidentada, sobretudo no Oriente, escrevendo em lugares silvestres como terá sido este e noutros locais precários e não podendo transportar consigo grande bagagem, principalmente em apoio bibliográfico. É certo que terá adquirido vasta soma de conhecimentos em Coimbra, pelo menos através de um tio que era prior do Mosteiro de Santa Cruz e chanceler da Universidade, que a frequência da Corte lhe alargou os horizontes culturais e que a enorme experiência do mundo e da vida que acumulou nas suas andanças lhe proporcionou uma visão das coisas assente no real vivido, como lembram certos dos seus biógrafos, como Hernâni Cidade na sua obra Camões, mas tudo isso não explica a sua capacidade para suprir a falta dos referidos apoios no acto da criação. Era, certamente um homem dotado de uma craveira excepcional.
Aproveito para perguntar à D. Eugénia por outro grande poeta português, embora de escassa produção: Camilo Pessanha, que viveu e morreu em Macau. Não há nada que o lembre? D. Eugénia encolhe os ombros em sinal de vago conhecimento de tal personalidade. Por fim, diz que lhe parece que há em local que não identifica uma estátua. E com isso me fico, resignado a essas magríssimas referências, aliás, conformado também com o limitado tempo que nos é dado para conhecimentos mais pormenorizados e mais fora do habitual. Entretanto, seguindo em frente, perto da hora do almoço, dou-me conta de que outras coisas se vão perdendo mesmo entre monumentos normalmente enquadrados no rol turístico: a Sé Catedral, a Fortaleza do Monte e a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia, todas incluídas no centro de Macau classificado pela Unesco em 2005. Apenas uma referência em andamento ao cemitério protestante, que fica ao lado do parque que acabámos de visitar e onde estão sepultadas algumas proeminentes personalidades britânicas que passaram por aqui.
A pé, vamos andando pelas ruas antigas, de sabor muito português e familiar, enfiamos por uma rua pedonal (qual o seu nome, em que não atentei?), animada à hora a que passamos, com lojas comerciais, restaurantes, cafés e pastelarias. À porta de duas delas, uns simpáticos jovens, com tabuleiros nos braços, vão oferecendo aos passantes biscoitos e pequenos bolos.
E já estamos no Largo do Senado. É uma bonita praça com o chão em calçada portuguesa formando desenhos ondulantes, um fontanário ao centro, ao fundo o icónico edifício que albergou o Leal Senado, que foi o centro do governo e administração colegial do território e depois e actualmente, de actividades ligadas com funções municipais. Bordejando a praça, edifícios seculares de boa arquitectura, entre os quais o da Santa Casa da Misericórdia.
O edifício que foi sede do Leal Senado é uma digna construção neoclássica, dividida em três corpos, com janelas de sacada em ferro forjado sobrepujadas por áticas, no piso nobre, e um frontão triangular na parte central a rematar o frontispício, e na parte de baixo, de um lado e outro da entrada principal aberta ao centro, janelas de peito, com resguardos de ferro forjado. Não visitámos o interior, onde se destaca o jardim, a sua, pelos vistos, bela biblioteca, a sala de reuniões do antigo Senado e seus tectos apainelados, os seus corredores dignos de nota. Tudo isso fica para outra encarnação.
Após o almoço, o autocarro deixou-nos junto da emblemática Torre de Macau, uma das maiores torres do mundo, com 338 metros de altura, construída em 2001. Não subimos ao cimo, onde há um restaurante giratório que deve ter vistas magníficas e onde se vêem alguns jovens a praticar desportos radicais (500 euros para saltar, diz a D. Eugénia).
Dali seguimos para o templo de A-Ma’, muito perto da Torre, também conhecido por Pagode da Barra, assim designado por se encontrar em frente à baía que forma o porto interior de Macau. A-Ma’Gao significa exactamente, em cantonês, “baía de A’Ma, de onde teria derivado o nome de Macau, como lhe chamaram os portugueses ali desembarcados pela primeira vez em 1554 ou 1557 (datas estas que colhi na Wikipédia).
A-Ma seria a Deusa do Céu, venerada no Sul da China e considerada protectora dos marinheiros e pescadores, que teriam erguido o templo que lhe é dedicado e que datará do século XIV ou XV (nenhum dos guias fornece uma data exacta). A-Ma é uma deusa taoísta, que, segundo a lenda, teria salvo pescadores no mar, a quem aparecera em espírito.
O templo é composto por vários pavilhões de várias épocas, que se estendem pela Colina da Barra acima, sendo o último um templo budista. Está incluído no património histórico de Macau classificado pela Unesco. O mais rico deles todos é, justamente, aquele que ostenta a imagem da deusa A-Ma. Todo o conjunto está impregnado do penetrante cheiro a incenso queimado pelos crentes que aqui acorrem. Pelos vistos, trata-se do maior monumento religioso de Macau e aquele que faz o cruzamento de várias culturas que estão na orgem da civilização chinesa: confucionismo, taoísmo, budismo.
Com isto, passa-se uma boa parte da tarde e é altura de irmos ao hotel para atribuição do quarto (a bagagem é reduzida, visto que as malas ficaram em Hong Kong, como já referi). Antes de lá chegarmos, percorremos a pé algumas ruas do centro, onde a D. Eugénia nos vai apontando este ou aquele edifício emblemático e dando outras indicações sobre a cidade e o seu ambiente: os seus casinos, que são numerosos (36), fazendo da cidade um dos principais centros de jogo na Ásia, conhecida por isso mesmo como a Las Vegas do Oriente, o seu circuito automobilístico da categoria Fórmula 3, sendo também conhecida por isso como a cidade Monte Carlo da Ásia, e D. Eugénia acentua essa característica com evidente orgulho.
O nosso hotel é um dos mais, se não mesmo o mais sonante de Macau, com uma arquitectura moderníssima e uma torre de arrojadas formas, que é uma das referências da cidade – o Hotel Lisboa, tendo ao lado o casino do mesmo nome, sedeado no mesmo edifício, da autoria de dois arquitectos de Hong Kong.
Depois de feita a instalação, ainda sobrou tempo para umas voltas pela cidade. Saindo sozinho do hotel, acabei por acamaradar com um médico e a sua mulher, que já me tinham acompanhado na excursão à muralha da China, exactamente a seguir ao incidente, que eles lamentaram comigo, de uma lufada de vento me ter levado o boné e me ter exposto a cabeça ao gélido frio da Mongólia.
Fomos até junto do porto interior, onde nos fotografámos mùtuamente; percorremos depois várias ruas e avenidas do centro, cheias de movimento, como se numa grande e buliçosa cidade, contemplando o colorido das numerosas luzes dos estabelecimentos, onde sobressaíam as das bizarras torres do Casino Lisboa e de outros casinos e hotéis, cada qual parecendo disputar a primazia do efeito cénico, mas não suplantando a daquele na sua singularidade.
Andámos pela Avenida Almeida Ribeiro para a qual dá parte da fachada do Leal Senado, agora com as janelas todas iluminadas, e voltámos a admirar o bonito largo em frente, com o fontanário também a resplender de luz (uma luz líquida); percorremos assim várias ruas e avenidas com sonoros nomes portugueses. Numa dessas avenidas, a Avenida do Infante D. Henrique, entrámos em vários estabelecimentos (eu comprei um boné para substituir o que o vento desabrido de Pequim me tinha levado) e encontrámos por mero acaso o edifício-sede da Escola Portuguesa, onde se leccionam em português as matérias do 1.º ao 12.º ano de escolaridade (inaugurado em 1998). Neste passeio descontraído, chegámos ao hotel a horas de jantar. Foi um bom e animado jantar, que a todos agradou.
No final, saí sozinho para a noite. Havia ainda grande movimento pelas ruas. Ao lado do hotel, uma vistosa fiada de riquexós, com os condutores aguardando qualquer cliente. A cidade resplandecia na sua féerie de luzes. É, sem dúvida, uma bonita cidade. Pena era que ali não permanecêssemos mais do que uma noite e pouco mais do que um dia e meio. Infelizmente, não dispúnhamos da faculdade soberana de Ferreira de Castro, quando andou a dar a sua volta ao mundo; era para lá ficar dois dias e acabou por decidir ficar duas semanas. Não será fácil voltar aqui com outra disponibilidade. Já estive para vir a Macau em 1998, convidado para um colóquio sobre liberdade de imprensa, mas acabei por desistir, por achar que fazer uma tão longa viagem de avião para cá permanecer apenas três ou quatro dias não valia o sacrifício.
Volteando por aqui e por ali, acabei por entrar no casino Lisboa, ao lado do hotel. A sala de jogo estava repleta e, entre os jogadores, encontravam-se muitos jovens. Não sei em que tipo de jogo se envolveriam, porque não percebo patavina do assunto. Andei em torno das mesas, observando sem nada entender: a roleta, o bacará e também o tradicional jogo chinês – o fantan? Estive assim que tempos. Por fim, saí e fui para o hotel. O quarto era magnífico, com uma casa-de-banho ultramoderna, mas não era muito amplo.
Levantámo-nos cedo para prosseguir na visita. Fomos então visitar as ilhas de Coloane e da Taipa, atravessando de autocarro as pontes que ligam o território àquelas ilhas. Dia magnífico, de sol. A D. Eugénia quis presentear-nos com uma oferta em Coloane (primeira paragem); levou-nos a um café simpático, com os donos do qual ela tinha familiaridade. Aí pudemos tomar um café expresso e comer um pastel de nata. Este último era a sua oferta. O pastel de nata associado ao café, uma imagem gastronómica de Portugal, muito recente, já chegou à China.
Passeámos a pé por bairros típicos de casas chinesas, com arruamentos estreitos, livres de trânsito e muito sossegados, com nomes portugueses. Numa praça, em frente da baía, a capela de S. Francisco Xavier, um humilde templo evocativo da passagem do missionário por Macau, a caminho da China e do Japão, sem grande interesse artístico. Em frente, um obelisco com canhões em ferro fixados no pavimento comemora o rechaçamento do último ataque de piratas, em 1910. Era nas grutas e falésias desta ilha, habitada por indígenas, que os piratas se acoitavam. Os portugueses chegaram aqui no século XIX e depois integraram a ilha no território de Macau.
A ilha de Coloane, conforme a fomos vendo de autocarro, está repleta de prédios altos, mansões, parques e resorts, sugerindo ambiente de lazer, a que a existência de praias dará o cenário adequado, embora com águas impróprias, segundo parece. Nesta ilha está a ser construída a que será a maior universidade de Macau, segundo informa a D. Eugénia, apontando para o lugar onde está a decorrer a construção. Através do istmo de Cotai, actualmente urbanizado graças ao alargamento do aterro, chegámos à ilha de Taipa.
Aqui parece existir uma maior abundância de arranha-céus e residências de luxo e é o sítio onde se localizam numerosos casinos. O complexo urbanístico dominante é o denominado Veneza de Macau, imitando o Veneza de Las Vegas; inclui hotel e casino com 40 andares, um edifíco que será um dos maiores do mundo, sendo o casino mesmo o maior a nível mundial, com 800 mesas de jogo, 3.400 máquinas também de jogo, uma vasta área para espectáculos, feiras e congressos, resorts na sua cintura, milhares de suites. Tudo lá dentro tem um ar de requinte, sobretudo a decoração da denominada Praça de S. Marcos, imitando essa praça veneziana com céu e tudo; este parece mesmo natural. A sensação que dá é que, naquele espaço interior, o tecto é mesmo o céu. Em toda a parte, patamares, corredores, salas, os tectos são um luxo, decorados com pinturas, e os lustres são peças de arte. A decoração ficou a cargo de artistas, arquitectos e decoradores italianos. Tenho nos meus apontamentos de viagem que esta construção durou apenas dois anos (condição imposta pelo governo chinês), tendo ocupado 30.000 trabalhadores 24 horas por dia. Trata-se, evidentemente, de uma maravilha ofuscante, de uma catedral moderna de comércio e consumo, diante da qual o turista não podia deixar de ficar embasbacado e nenhuma agência de viagens poderia deixar de incluir no seu cardápio de visitas. Por isso, foi aqui que se gastou o tempo praticamente todo dedicado a Coloane. É certo que esse tempo era escasso e que passámos pela pitoresca rua do Cunha, mas foi mesmo uma passagem fugaz que ficou obnubilada pela visita à “catedral”. Outras catedrais, como a de Macau, como já referi, ficaram no olvido.
A seguir ao almoço, à vontade de cada um no centro comercial do edifício Veneza, seguimos para Macau. Despedimo-nos da D. Eugénia e apanhámos o turbo jet para Hong Kong. Sulcando o vasto estuário do rio das Pérolas sob um sol magnífico, de que temos sido sempre bem servidos, eu transportava comigo uma sombra, que me coava os raios solares, por ser tão fugaz o encontro com a bela cidade que conserva tantos vestígios da nossa estadia de vários séculos nesta parte do Oriente.

02 junho 2020

 

Os grandes estadistas do nosso tempo










Nestes tempos conturbados de pandemia não podemos deixar de medir o pulso aos grandes estadistas contemporâneos. Com efeito, é em circunstâncias peculiares como estas que sobressaem os grandes chefes, os grandes condutores de povos, os verdadeiros líderes. Pois é de dois desses valorosos estadistas que me proponho falar hoje. São eles o Senhor Fake News e o Senhor Resfriadinho. Penso que toda a gente os tem em mente, quando se fala nos dois mais eminentes vultos destes dias. Por isso, acho que é inútil referi-los com outros sinais de identificação, bastando que diga o Senhor Fake News e o Senhor Resfriadinho para que logo toda a gente os reverencie no seu íntimo como duas figuras verdadeiramente exemplares que a história há-de perpetuar como marcos indeléveis.
Na verdade, eles são como as duas faces de uma mesma moeda (a face A e a face B); como que foram moldados na mesma liga, a ponto de se poder afirmar que pertencem à mesma progénie. Ambos estadistas de grandes países, de grandes uniões de Estados (United States A e United States B), eles têm-se distinguido pela firmeza e pela audácia das suas decisões. Aparentemente não são decisões de grande espectro, mas, passada a surpresa do primeiro impacto, logo começa a ganhar relevo a sua verdadeira dimensão, a sua grandiosa simplicidade, ou talvez mesmo simplismo, a sua expedita rudimentaridade, como já há tantas décadas, ou talvez mesmo centúrias, não se via.
Decisões dotadas de firmeza e audácia, repita-se. Firmeza pela força de pulso (de músculo) de que vêm animadas; audácia pelo destemor com que arrepiam caminho contra a opinião dos aparentemente mais circunspectos espíritos. Veja-se o caso por que temos vindo a passar desta pandemia originada por um vírus destruidor e avassalador. Ambos estes notáveis presidentes se têm disitnguido pela forma absolutamente soberana com que têm mandado às urtigas (permita-se aqui o plebeísmo) conselhos de peritos, médicos, epidemologistas, tanto nacionais, como estrangeiros, que têm recomendado, maioritariamente, contenção e prudência, recolhimento em casa e afastamento social.
Quando toda a gente, por esse mundo fora, se refugiava em casa, desertando das ruas e dos locais de trabalho, estes denodados chefes-de-estado riram-se das imprudentes recomendações dos “sábios” com a superioridade que os caracteriza e não se vergaram à ditadura do vírus. Era agora o que faltava que um insignificante inimigo, que nem se consegue enxergar à vista desarmada, um miserável vírus, virasse a sociedade do avesso! Homens verdadeiros, com a devida testosterona nos seus sítios, jámais o deveriam permitir, seguindo o exemplo destes líderes. Ambos eles mostraram a sua fibra de políticos enérgicos e independentes não só desprezando os melados conselhos da gente de ciência, como despedindo na hora certa os conselheiros e ministros da saúde que teimavam em contrariar ou franzir o nariz às suas decisões. Rua com eles! A política está acima da ciência, da arte, da moral e provavelmente da divindade.
O presidente Fake News veio a público mostrar que o remédio para o vírus era uma decisão política e não da medicina e que as pessoas podiam perfeitamente obter a imunidade se infiltrassem em si próprias desinfectante, ou se bebessem um xarope feito em casa com detergente para limparem as entranhas. O presidente Resfriadinho, por seu turno, não lhe ficando atrás,veio para a rua desafiar o vírus, num acto de impavidez digno de um antigo capitão de armas, e disse ao povo que podia vir para a rua e dansar o samba. São actos tão destemidos estes e tão demonstrativos de uma invulgar entrega à causa pública, que ambos os presidentes já provavelmente conquistaram a sua figuração icónica para a eternidade: o presidente Fake News numa estátua, no lugar mais central da capital do seu país, com uma seringa gigantesca a combater o vírus e o presidente Resfriadinho, em lugar destacado da sua moderníssima capital, a enfrentar o mesmo vírus com um passo de samba.
Apesar destas atitudes premonitórias, muita gente tem sucumbido aos ataques do vírus nos países dos dois estadistas aqui focados. Contudo, os mesmos não se deixam arrastar por essa onda de mortandade, nem mover pelas fragilidades da compaixão, agindo sempre com coragem e alto sentido de Estado. O presidente Resfriadinho, aliás, definiu como ninguém, numa frase sábia, a essência do que tem vindo a acontecer no seu país: “É a vida!” E rematou com esta modesta auto-apreciação, tão característica dos grandes homens, que medem sempre por baixo o seu valor: Eu não faço milagres.
A profissão de fé de ambos eles, quer face a esta pandemia, quer a outras lérias inventadas por falsos cientistas, como a das alterações climáticas, é esta: “Salve-se a economia e morra quem tem de morrer”. Ora aqui está o princípio salutar da vida humana.
Estes dois estadistas são aves rarae na história dos povos e será preciso recuar vários séculos para se encontrar alguma personalidade que se lhes equipare, pois os estadistas de envergadura são mesmo muito raros. O presidente Fake News com o seu gesto magnânimo de enviar, em nome pessoal, envelopes aos seus concidadãos com quantias de mil dólares para mitigarem os efeitos da pandemia faz, talvez, lembrar o imperador Calígula, o qual, segundo o biógrafo dos Doze Césares, o imortal Suetónio, distribuiu por duas vezes ao povo trezentos sestércios por cabeça, para além de ter mandado chover sobre o mesmo povo dinheiro em moedas, durante vários dias, ao passo que o presidente Resfriadinho talvez pudesse arremedar o imperador Nero a contemplar o incêndio sobre Roma que ele próprio mandara atear tocando cítara e cantando, figurando-se desta feita o presidente Resfriadinho a tocar violão, contemplando um incêndio na Amazónia.
É possível encontrar mais semelhanças nobilitantes entre os dois estadistas. Por exemplo: na forma como ambos reagem tão destemidamente aos jornalistas que não são capazes de perceber a excelência dos seus actos, não obstante a evidência do seu valor: o presidente Fake News vociferando: go out!; o presidente Resfriadinho: Cala a boca!
Acima de tudo o que vai exposto, há uma virtude raríssima que é preciso assinalar-se-lhes: a incrível leveza com que exercem os seus cargos, provando que a aparente complexidade da arte ou da ciência de governar está, afinal, ao alcance de qualquer um, e que não é preciso ter conhecimentos por aí além para governar países de grande dimensão e exigência. Formidável pedagogia que o cidadão comum universal daí pode colher!
Enfim, quase se poderia afirmar que os presidentes Fake News e Resfriadinho, se vivessem no mesmo país, poderiam formar um consórcio e serem o presidente e o vice-presidente um do outro, alternadamente, revezando-se nos respectivos cargos e perpetuando-se no poder, a bem do povo que tivesse a sorte de os merecer. Há exemplos, porventura mais toscos, por esse mundo fora, que lhes poderiam servir de modelo.
Estou certo de que há-de aparecer um novo Cervantes para fixar literariamente as aventuras épicas desta dupla de estadistas: o presidente Fake News no seu Rocinante a brandir uma grande seringa de desinfectantes, arremetendo contra o vírus e, a seu lado, o impagável Resfriadinho, cavalgando a sua alimária e ajudando-o com os alforges carregados de detergentes injectáveis.

Jonathan Swift (1665-1745)


21 maio 2020

 

China VI



Guilin
Hoje foi cedo o acordar: 06H30 locais.
Após o pequeno-almoço no hotel, eis que vamos a caminho do cais do rio Li para uma excursão de barco. O guia foi aproveitando a viagem de autocarro para nos continuar a fornecer indicações sobre a cidade de Guilin e a região. A cidade tem 800.000 habitantes (quatro milhões se se contarem as zonas contíguas) e é puro o ar que aqui se respira, límpidas as águas, que se podem beber directamente das fontes e correntes, dispondo de invejáveis condições de salubridade, graças à sua situação geográfica e condições naturais. O governo protege, por meio de medidas adequadas, o ecossistema deste espaço urbano e zonas envolventes. Por exemplo: retirou daqui as indústrias poluentes e deslocou-as para outros locais, nomeadamente a área de Cantão; preserva as tradições e impôs limites à construção imobiliária, não podendo os edifícios exceder determinada altura. Por isso, não se vêem por aqui arranha-céus.
É vulgar as pessoas atingirem idades provectas: mais de 100 anos. Há uma mulher com 110 anos e outra faleceu com 118 anos. A reforma, em toda a China, é aos 60 anos para os homens e 55 para as mulheres e muitos chineses, depois de reformados, querem fixar-se aqui para viverem outro tanto. Esta é a legenda da cidade, segundo o guia, o simpático José. Só mais uma nota: Na China há cinco regiões autónomas: Macau, Hong-Kong, Guanshi, Mongólia Interior e Tibete. Nas regiões autónomas pode ter-se mais do que um filho. Guilin pertence à região autónoma de Guanshi.
E com isto, depois de 1 hora de viagem, já estamos a apear-nos, cada qual com a caixinha do farnel que o hotel nos preparou, já atravessamos as guardas que dão acesso ao cais, munidos do bilhete que nos foi fornecido e por entre a vasta multidão de turistas, encaminhamo-nos para o nosso barco (há vários), transpondo a prancha de madeira que conduz ao portaló.
A viagem ao longo do rio é um deslumbarmanto, que se prolonga durante 4 horas. Uma sucessão interminável de colinas de formas arrojadas, mesmo inverosímeis, de vertentes muito abruptas e picos a furarem o céu, oferecendo perspectivas inesperadas a cada volta do rio, umas isoladas, outras agrupadas, em duetos como se fossem irmãs, ou em magotes, com os pináculos formando serrania, esta estrangulando a corrente, a outra mais além obstruindo ilusoriamente a passagem, aquelas duas estando dispostas de tal maneira nas curvas do rio que simulam uma garganta entre gigantes, como Sila e Caríbedes, as mais longínquas envoltas em neblina, esfumadas e como se estivessem grudadas ao céu. Muitas têm nomes que evocam as figuras que as formas sugerem, como a célebre colina da Tromba de Elefante. Este é o cenário de muitas pinturas clássicas evocativas das paisagens chinesas.
O almoço foi a bordo, cada qual extraindo o conteúdo da caixinha que, desde o hotel, o acompanhava, o que contribuiu para dar uma agradável sugestão de viagem campestre.
O regresso foi no autocarro que nos levou de manhã cedo. Já chegámos para lá do meio da tarde. O tempo até ao jantar foi ocupado como cada um quis. E havia onde passar esse bocado da tarde, nomeadamente nas margens rústicas do lago que se encontra mesmo perto do hotel do outro lado da rua. Já falei dos seus arruamentos em terra, por entre árvores, arbustos e plantas da mais variada espécie, conferindo ao local um resguardo protector para os dias de grande calor.

Após o jantar, fomos fazer uma excursão de barco pelos lagos do centro, denominados o lago Cedro (Shanhu) e o lago Figueira (Ronghu), ligados um ao outro e navegáveis como se fossem um rio. A embarcação tinha um aspecto de bar nocturno, com mesas e bancos, onde nos fomos sentando. Como a noite estava boa, muitos subiam à amurada para melhor desfrutarem da viagem. Ao longo da passeata, a cidade ia-se-nos revelando, iluminada e multicolorida (os chineses parecem apreciar muito as iluminações nocturnas das cidades e pôr nisso um brio especial). Zonas ribeirinhas, jardins, parques, pontes, casebres das margens iam desfilando a um lado e outro.
A pesca ncturna foi uma das atracções mais inéditas e bizarras que se nos deparou. Os pescadores postavam-se no meio do rio, de pé, em barquitos pequenos, quase pranchas de surf, cada qual em seu barquito, um aqui, outro lá adiante, trajados com fatos fosforescentes e iluminados por uma lanterna ou coisa parecida. Tinham como companheiros corvos marinhos e eram estes que, devidamente amestrados, mergulhavam nas águas a um sinal gutural dos pescadores. Quando regressavam ao barquito, depois de uns momentos em mergulho, não aparentavam trazer nada com eles. Porém, os pescadores apertavam-lhes o pescoço, num gesto sacudido que parecia de estrangulamento, e eles largavam, inteirinho, o peixe que tinham engolido. Disse-nos o guia (o tal José) que os corvos são recompensados e procuram os maiores peixes.
Outra das surpresas que a viagem nos porporcionou foi um bailado executado num terraço sobre o rio por um conjunto de jovens beldades pertencentes a uma minoria étnica. Não seria nada de especial, se não tivesse surgido como uma espécie de espectáculo onírico, deusas marinhas ou ninfas que tivessem surgido do fundo das águas para deslumbrarem o viajante.
Uma última curiosidade foram as torres octogonais dos dois pagodes conhecidos como o Sol e a Lua, erguendo-se no lago Shanhu (Cedro), cada qual delas trepando nas alturas em vários andares com os seus telhados típicos. A mais alta, a do Sol, está iluminada em tons dourados e a da Lua, um pouco inferior, em tons prateados. Ambas produzem um belíssimo efeito na noite de Guilin, que as toma como ex libris.
No regresso, o barco foi mesmo transformado em bar nocturno com uma jovem chinesa tocando piano chinês e difundindo aquelas sonoridades orientais tão delicadas e sonhadoras.
Como se intui do descrito, a viagem tem o seu quê de menu turístico, o que mais uma vez prova a actual capacidade demonstrada pela China para atrair o forasteiro, dando- lhe a comer as iguarias que são as preferidas de quase todo o turista, mas não deixa de ser interessante e reconfortante. Valeu a pena sobretudo para ver a cidade à noite no multicolorido das suas luzes e as torres dos pagodes, que têm outra beleza iluminadas.

Estamos num outro dia, mas ainda em Guilin. O acordar foi às 07h00. Saída de autocarro em direcção ao museu das pérolas, que de museu tem pouco. Uma visita dirigida ao turista consumidor e à promoção da produção e comércio locais.
A coisa começou num auditório, onde houve desfile de beldades exibindo as jóias com que adornavam o colo e os braços, movimentando-se no tablado para trás e para a frente, ao som de música, pondo em evidência os seus enfeites. De seguida, passou-se à sala da exposição das jóias, onde uma senhora fez uma parlenda sobre a cultura das pérolas. Estas são provenientes de ostras, as quais produzem nácar como forma de defesa contra objectos estranhos que entram nas suas conchas – processo esse que, demorando anos, dá origem às pérolas. Há-as de água salgada e de água doce, sendo as de água salgada de melhor qualidade. Exemplificou com a abertura de um ou outro molusco, que retirou de aquários onde se cultivavam. Também deu explicações sobre os tamanhos e os feitios (as de forma redonda é que são aproveitáveis para colares e pulseiras de qualidade) e sobre a maneira de distinguir as pérolas verdadeiras das falsas (aquelas, sendo friccionadas, largam umas particulazinhas quase imperceptíveis de pó, as outras, não).
Passou-se de seguida à venda, no fundo o acto mais importante para que tendiam todos os passos anteriores. E foi um corrupio à volta dos mostradores e balcões, um fervilhar de desejos e de pequenas explosões de entusiasmo, com os da casa incentivando à compra com acenos de aprovação e palavras de encarecimento (normalmente em inglês) dos objectos sobre que se detinham mais demoradamente os olhares ou sobre os quais incidiam as inclinações dos potenciais compradores. Foi assim que gastei os últimos yenes, confortando-me com a necessidade de gastar aquela moeda, dado que, daí para a frente, a mesma já não tinha cotação. Haveria de ser o dólar de Hong-Kong.
Em Guilin ainda fomos visitar a Gruta da Flauta de Cana. É uma das grutas maiores e mais célebres desta zona de rios, lagos, colinas e grutas. Trata-se de uma enorme galeria, na qual se desce em profundidade, com estalactites e estalagmites formando as mais fantásticas figuras: leão, homem da neve, queda de água e muitas outras figuras imaginárias. Um microcosmo com elementos naturais e artificiais, estes consistentes sobretudo nos arranjos de luzes e sonoridades, onde se percebiam chilreios de pássaros, que na realidade não existiam. Em tempos ancestrais, fluiria por aqui um rio. No final, junto de um dos lagos da gruta, houve espectáculo com alusão cosmogónica e bailado. Na verdade, não se pode dizer que os chineses não sabem explorar convenientemente os seus recursos também do ponto de vista da indústria turística.
Terminada a visita, metemo-nos no autocarro com destino à estação dos caminhos-de-ferro. Despedimo-nos do José (afinal, Dong, o seu nome chinês, soube-o nesta altura). Dirigimo-nos para o comboio, que acabara de parar na plataforma, à procura da carruagem que o bilhete designava. Num rápido, num rápido, que o tempo urgia. Com toda a bagagem (mala grande, uma mochila, o volume do edredon e ainda uma caixinha com o lanche ou almoço, que tinha sido preparada no hotel). Toda a gente se precipita para as portas, as pessoas demoram a subir, demoram a entrar, por causa dos engarrafamentos, uma aflição. Por fim, consegui subir com toda a tralha e arrastá-la lá para dentro. Na coxia, as pessoas permandeciam de pé, atarefadas a colocar a bagagem nas prateleiras, completamente repletas. Quando consegui mover-me lá para dentro, vi um espaço livre numa prateleira, por cima do lugar onde iam duas jovens. Atirei a mala grande para esse sítio e, por felicidade, ela coube lá, embora com um dos rodados ligeiramente de fora, o que não pareceu agradar às referidas jovens. Verifiquei as condições de segurança e mostrei-lhes que a mala estava segura. Entalei o volume do edredon, mais espalmado, num espaço que havia entre as costas do último banco da carruagem e a parede do compartimento, confiando em que ninguém me pegaria nele. Fui depois à procura do meu lugar. Acomodei a mochila aos pés e respirei fundo, já o comboio, tipo Alfa, rodava a boa velocidade. Embalado entre estações, atingia 300 kms. por hora.
Fui lendo uns contos maravilhosos de Gao Xinjiang, prémio Nobel da Literatura no ano 2000 (Uma Cana De Pesca Para O Meu Avô, publicações Dom Quixote) e espreitando a paisagem. Planícies a perder de vista, áreas cultivadas, relevos boleados, povoações aqui e acolá, centros urbanos, tudo incaracterístico, assim me pareceu. Sobretudo no que diz respeito aos edifícios, que a paisagem era agradável à vista, inundada de sol. O comboio parou em várias estações e, já perto de Hong Kong, parou em Cantão, uma grande mole urbana com prédios trepando para o céu, mas onde também não divisei nada que chamasse a atenção.
Ao cabo de três horas e meia de viagem estávamos em Hong Kong. Já estava o autocarro à nossa espera com o respectivo guia, que falava castelhano. Enquanto a viagem durou, foi-nos dando explicações sobre a cidade. No hotel – o Harbour Plaza Metropolis, de 4 estrelas – coube-me o quarto n.º 69 no 17.º andar. O hotel ficava num alto e dele se divisavam estradas rápidas, cruzadas, sobrepostas, passagens aéreas, carros circulando a alta velocidade. O centro ficava a uns 20 ou 30 minutos de distância. Pequenos autocarros do hotel transportavam quem quisesse para lá, de meia em meia hora, se não estou em erro. Nesse dia, porém, com o cansaço da viagem e a freima da instalação, mais o tempo gasto no câmbio (troca de euros pelos tais dólares de Hong Kong – os funcionários examinavam cada uma das notas minuciosamente, virando-as de um lado e outro), acho que ninguém saiu. Entretanto já eram horas de jantar, que não houve (o único dia em que tal aconteceu). Andando perdido pelo foyer do hotel, depois de arrumadas as malas, acabei por encontrar duas pessoas que também vagueavam pelo mesmo local (duas senhoras, que eram companheiras de viagem e partilhavam o mesmo quarto). Desprezamos o restaurante e o bar do hotel e fomos para o centro comercial contíguo (Metropolis), que comunicava com aquele. Circulámos por corredores vazios, com lojas praticamente desertas àquela hora, num cenário universalmente estereotipado. Acabámos por ir dar a um pequeno restaurante que não tinha ninguém – uma dessas manjedouras de centro comercial. Mandámos vir lasagna à bolonhesa para todos (não havia muito mais) e uma sopinha de tomate picante. Acompanhámos com chá. Foi um pouco desolador em termos gastronómicos, mas divertimo-nos com piadas ao que nos rodeava. No quarto, o mais acanhado em toda a viagem, telefonei para casa, mas o WatsApp não deu (finalmente experimentava a interdição que impendia sobre essa rede social). Tive que fazer chamada pelo Rooming só para dizer olá, porque o preço escalda. Dormi com as malas por desmanchar, porque no dia seguinte partiríamos para Macau, de onde regressaríamos dois dias depois a Hong Kong. O grosso da bagagem, contudo, ficaria nos arrumos do hotel.

25 abril 2020

 

Pensamentos de um político singular


(Para que o leitor se ocupe, em tempos de pandemia, a procurar a quem podem caber estes pensamentos)
Estamos confinados nas nossas casas, por via de um ser ínfimo e invisível, que é o coronavírus (do latim corona - “coroa”), ou seja, o vírus coroado em rei do nosso tempo. É ele quem manda no nosso destino por estes dias.
Este vírus faz jus ao seu nome: vira tudo ao contrário. Um rei que nos manda andar às avessas. Nunca se viu um ser tão minúsculo pôr toda a gente de quarentena, refugiada com medo dele. Na verdade, ele despacha muita gente para o cemitério e, para além disso, paralisa toda a economia.
Mas será que nós vamos ter que obedecer a um serzinho destes? Ter a indústria parada?, os transportes imobilizados?, as casas de comércio fechadas?, os restaurantes sem vivalma?, os cafés e botequins vazios?, as casas de espectáculos às moscas?, as escolas sem mestres e sem discípulos?,os céus livres de ruído e de fumarada?, as estradas libertas dos engarrafamentos e do rebuliço do quotidiano?, enfim, será que vamos abdicar de tudo aquilo que é sinal de vida e sangue e luta? Não. Não vamos ter essa atitude, senhores. Vamos enfrentar esse vírus e dar-lhe uma ensinadela. Enfrentá-lo como homens de barba rija e de peito feito. Dar cabo desse reizinho, desse bicharoquinho. Veja-se aquele presidente do país do samba. Ele tem muita razão, até porque ele é destemido e foi capitão da tropa. Ele não tem medo do vírus e veio cá para fora sem máscara nem viseira, pronto a pegar no vírus pelos cornos, como um touro no redondel (eh, vírus! eh...eh!), exortando o povo a seguir o seu exemplo.

Ora aí está! Temos de nos deixar de “mariquices” e voltar a encarar a vida com firmeza e fortaleza. A vida não é dos fracos, nem dos impotentes; a vida é sangue e luta; a vida é dos fortes e dos que arriscam, não dos timoratos, nem dos que ficam pelo caminho. Alguns cairão doentes, mas isso é próprio de quem vai à luta. Há perdedores e ganhadores; sempre assim foi e há-de ser.
Dizem que são os velhinhos os alvos preferenciais do vírus. Pois, se assim é, deixá-los ir, dando a vez aos jovens e saudáveis. Nestes reside a força, a coragem, o denodo. E talvez se possa dizer que o último tributo válido dos velhinhos à continuação da vida seja o de poderem contribuir para a imunidade geral, de que tanto se tem falado. Aliás, como disse um governador de um Estado, nos United States, “os velhos deviam voluntariar-se para morrer”. Isso, por paradoxal que pareça, é que seria um grande hino à vida, principalmente da vida daqueles de nós que ainda têm a esperança de muito tempo pela frente, como provavelmente será o caso do referido governador.
Por estes dias temos assistido a um espectáculo deplorável: perdão de penas e liberdade condicional para os reclusos, a pretexto do vírus. Isto é inqualificável e bem pode ficar com um nome para a história vergonhosa das nossas instituições: virulência. Veja-se o paradoxo: cidadãos honestos sem poderem sair, confinados em casa, e os criminosos fora das prisões. Bem certo que se diz deverem els ficar com igual obrigação de retenção em casa, mas mesmo isso é inadmissível, pois tal equivale a torná-los iguais a nós, ou seja, a equiparar-se a banditagem ao comportamento ordeiro dos restantes cidadãos. É este o perigoso igualitarismo que está em vigor no nosso país. Os nossos governantes aduzem que é por causa do vírus. Mas então o vírus é o tal reizinho que manda no país e os nossos governantes são os títeres manobrados pelo bicharoco, como num teatro de marionetes? Vergonhoso!

Querem estes cavalheiros celebrar o dia da liberdade! Mas que liberdade, quando está toda a gente metida de portas adentro? Só se for a liberdade que pôs os criminosos fora das prisões. A liberdade indiscriminada dos vendilhões do templo. Temos de nos livrar desta liberdade que mistura o crime com a vida honesta.
Soltem mas é a economia, abram o comércio e as indústrias, ponham cá fora a mão-de-obra, glorifiquem o trabalho. Arbeit macht frei.
Jonathan Swift (1667-1745)


22 abril 2020

 

China V

Manhã em Shangai. O autocarro já está à nossa espera, à porta do Center Hotel, onde me coube o quarto 2004, no 20.º andar. O infalível Júlio, de pé, ao lado do autocarro, aponta-nos a porta da frente. Aí vamos nós por esta manhã de sol (que sorte temos tido, ao longo destes dias!) marchando por entre prédios altíssimos que fazem as ruas parecerem estreitas, com destino precisamente a um dos edifícios emblemáticos desta cidade, que disputa a Nova Iorque o cenário urbano. E aí está o Jin Mao, um dos arranha-céus mais alto da cidade, com 88 andares. Subimos ao topo, em elevadores ultra-rápidos. Lá de cima perscrutámos demoradamente, em toda a roda, a cidade, com o sol a entrar de jorro pelas vidraças e a sensação de estarmos nas núvens. Uma miríade de pináculos, em que se avantajavam o edifício Pérola (torre da televisão) e a Torre de Shangai, com 120 andares; ao longe, o grande rio Yang Tse e o seu afluente Huangpu , irradiando num poço de luz. Até por estes dois rios Shangai parece emular Nova Iorque.
De caminho para o templo do Buda de Jade, passámos pelo centro financeiro, com as respectivas catedrais da finança erguendo para o alto as suas torres. O Templo Buda de Jade é um templo grandioso construído nos finais do século XIX por iniciativa de um monge budista, que coligiu os necessários fundos para albergar duas estátuas de Buda que trouxe de Burma, por ocasião de uma peregrinação que fez ao Tibete. O templo foi destruído no tempo da revolução nacionalista de Sun Yat-sen de 1911 e reconstruído entre 1918 e 1928. Dos vários halls e câmaras que o compõem, destacam-se o dos Reis do Céu, onde se exibem as estátuas dos Quatro Reis do Céu e as estátuas douradas de Maitreya e de Weituo; o grande hall, onde se seguem câmaras contendo várias estátuas douradas de Buda e várias divindades, a estátua dourada de Guanyin (deusa da misericórdia) e da discípula Sudhana ao seu lado, representando a última fase da aprendizagem budista, mas o que me feriu mais a atenção foram as câmaras onde se encontram as tais duas estátuas trazidas pelo monge fundador, estátuas estas em jade branco, uma representando Buda sentado, em tamanho gigante, e outra representando Buda deitado com um riso beatífico e ameninado ou bonacheirão, provavelmente imerso no Nirvana.  
Este templo foi também vandalizado pelos activistas da revolução cultural, que nele implantaram, em vez do Buda, o retrato de Mao Zedong, assim elevado ao plano da divindade e do culto dos fiéis. Agora totalmente reposto, recebe as visitas dos devotos, não do grande timoneiro, mas dos crentes budistas. Aparecem com pauzinhos de incenso a arder, espalhando em redor um odor forte, e fazem vénias enormes ao Buda, antes de se ajoelharem, e quando terminam as orações, voltam a fazer três vénias profundas, de joelhos, levando a cabeça ao solo.
Vamos agora em direcção ao restaurante, mas como a visita ao jardim Yuyuan, o jardim do Mandarim, foi suprimida, assim como o passeio pelo Bund, por causa dos preparativos para a Expo, paramos numa oficina da seda, um dos locais sempre recomendáveis para o  turista fazer os seus dispêndios. E aqui foi realmente a minha perdição. Caí na asneira de comprar um edredão e respectivas almofadas, tudo em seda, claro. Para além da soma que tive de pagar em euros (uma das moedas com cotação internacional mais desejadas), tive de passar a carregar, durante o resto da viagem, o embrulho, que, não sendo muito pesado e estando bem ajeitado e comprimido, em saco de nylon com asas, veio juntar-se  incomodativamente ao resto da bagagem e originar penosidades de transporte e arrelias nas estações ferroviárias, nos autocarros e nos aeroportos, contribuindo para complicar as já de si ensarilhadas formalidades de controle. Ninguém me mandou ser parvo turista e, por isso, tive a sanção merecida.
Depois do agradável almoço em restaurante, fomos para a cidade velha. É um dédalo de ruas estreitas, a engurgitar de gente, com prédios de construção chinesa tradicional, telhados em forma de quilha de barco, contrastando com a cidade moderna dos arranha-céus e movimento frenético. Aqui não há carros, há pessoas a pé, deambulando descontraídamente, entrando e saindo dos estabelecimentos, que são aos milhares, juntando-se nas pequenas praças, em amena convivência. Tudo tem um aspecto íntimo e aconchegado, pese embora o amontoado de pessoas, para o que contribui a estreiteza das ruas, a disposição das casas, estas aqui encavalitadas  sobre o lago serpenteante,  conferindo ao  ambiente um ar de cascata, o ar familiar que perpassa por todo o conjunto humano. Passeia-se por estas ruelas gostosamente, por entre o formigueiro de pessoas, metendo o nariz em cada entrada de loja, e são de todo o estilo as lojas – mercearias, casas de chã, estabelecimentos de roupas, de electrónica, lojecas de bugigangas, quiosques, restaurantes e stands de comida de rua – admirando o belo cenário que se nos depara a cada esquina. Mas não podemos ficar aqui a morar, que o tempo de que dispomos está medido ao minuto.
E assim vamos para um passeio de barco pelo rio Huangtsu. Com o cair da noite, os grandes edifícios da cidade moderna iluminam-se, e isso é um espectáculo digno de se ver. Os barcos carregam-se de turistas, como em Nova Iorque. Um a um, os arranha-céus vão acendendo as suas luzes, caprichando em exibicionismos luminotécnicos. Luzes de todas as cores, espiralando pelos edifícios, subindo até aos pináculos e descendo por eles abaixo, tremelicando, piscando,  mudando de cor e de feitio, formando um arco-íris ao longo de todo o percurso. É a grande cidade a anunciar a noite. No barco vai um corrupio, uma algaraviada de vozes, um tal disparar de máquinas fotográficas, de telemóveis e de tablets, turistas onde há vozes estrídulas de asiáticos sobrepondo-se uns aos outros, acotovelando-se, “roubando” as vistas ao parceiro do lado ou de trás, no afã de filmarem a cena em vídeo.
No trajecto para o jantar, o patusco Júlio voltou a arranjar ensejo para falar do seu catolicismo, mas parte da malta protestou vivamente e houve quem lhe dissesse que guardasse  a sua religiosidade para outras ocasiões e que se limitasse a falar de temas ligados à viagem. Ele, porém, não pareceu molestar-se, mas deixou efectivamente de falar na religião.  O jantar num restaurante fora do hotel é que veio animar toda a gente e conferir unanimidade relativamente à qualidade dos pratos, que eram servidos em regime de self service. Até as sobremesas, de ordinário sofríveis nos sítios por onde tínhamos andado, eram acima da mediania, com vários tipos de gelado e bolos e, a coroar tudo, chã ou café (grande maravilha).
A noite terminou com uma passeata livre pela célebre Rua Nanquim, uma rua interminável mesmo ao lado do hotel, pejada de pessoas e de lojas de todo o tipo, grandes armazéns, mercearias, restaurantes, comida de rua, casas de chã, tendas de roupa e de fruta, enfim uma gigantesca área comercial, animada de luzes e de movimento, nesta noite de sábado para domingo. Uma boa estafadela, depois de uma jornada intensa, parando aqui, parando acolá, embasbacando diante de certos estabelecimentos, pois alguns companheiros de viagem o que querem é farejar coisas para comprar. É a praga do turista.
Às tantas, apanho a boleia de um casal que vai já retrocedendo rumo ao hotel. No alto do 20.º andar, ainda me chegam ecos do bulício na rua,  sobretudo ecos musicais. Espreito pela janela, antes de me deitar, e ainda há pessoas a formigar lá em baixo, as quais parecem mesmo formigas.
Domingo. A rua Nanquim, vista de cá de cima, está sem movimento a estas horas da manhã. Após o pequeno-almoço no hotel, aí vamos nós no autocarro, levando na frente o infalível Júlio, não sei se depois de ter assistido à missa dominical. Foi coisa que não lhe perguntei, por um lado porque a fé é do foro íntimo de cada um; segundo, porque poderia despertar uma daquelas suas divagações místicas e provocar uma tempestade no autocarro. Assim, vamos tranquilos a caminho do Museu Nacional de Shangai, com ele a elucidar o que se vai deparando a um lado e outro da cidade.
Shangai é uma metrópole com 20.000.000 de habitantes, parecida com as grandes cidades europeias, exceptuando a parte velha (aliás, foi submetida a grande influência e até administração de potências europeias, após o Tratado de Nanquim de 1842, no seguimento da Guerra do Ópio) e parece emular a cidade de Nova Yorque. Tenho dificuldade, nesta correria pelas grandes avenidas atravessando florestas de arranha-céus em autocarro de turismo, em imaginar o cenário onde decorreu a acção do grande romance de André Malraux – A Condição Humana – que eu li pela terceira vez, pensando nesta viagem. Leitura perfeitamente inútil desse ponto de vista. O cenário do romance permanece-me tão abstracto como antes. Estas viagens de agora são viagens-relâmpago; não dão para tomar o gosto às coisas, para nos envolvermos na atmosfera de um local, para pesquisarmos algo ou, ao menos, darmos substracto a um capricho de imaginação, que é muitas vezes de onde vem o impulso para irmos ao encontro do desconhecido. Fica então sem um referente material esse território imaginário onde decorreram os trágicos acontecimentos que se desenrolaram num espaço de tempo concentrado e densíssimo, entre 27 de Março e  12 de Abril de 1927, de enfrentamento entre revolucionários do Partido Comunista Chinês (PCC), tentando liderar o movimento de trabalhadores em insurreição, e as tropas de Chiang-Kay-Chek, de cujo partido – o Kuomitang – o PCC era aliado, obedecendo a orientações estratégicas de Stalin e do Komintern. O enfrentamento desembocou no massacre dos comunistas em 12 de Abril e na prisão e tortura até à morte de muitos dos seus revolucionários. Os acontecimentos descritos por André Malraux adquirem, para além da expressão de uma tragédia colectiva, uma dimensão trágico-individual com ressonâncias existenciais fundíssimas, que justificam o título da obra – A Condição Humana. Kyo e a sua namorada May, Gisors (pai de Kio), Katow, o revolucionário que cedera a sua dose de cianeto a dois outros prisioneiros, expondo-se, assim, ele próprio à tortura, Tchen, o revolucionário que se transformou em terrorista-suicida, todas essas personagens têm uma espécie de desmesura que as aproxima do sobre-humano, ou seja, da vontade “de escapar à condição humana”, como Gisors sentencia a dado passo.
E com isto chegamos ao museu de Shangai. Muito à vol d’oiseau, aqui vai uma referência ao  que se nos depara nas várias galerias, a começar no rés-do-chão e subindo pelos seus três andares:
Rés-dochão: bronzes, alguns muito antigos, do 13.º ao 11.º séculos a. C. Objectos e instrumentos já bastante notáveis, quer do ponto de vista da execução, quer da forma artística: talhas e vasos de vinho, potes para comida, instrumentos de trabalho (pás, facas, espadas, etc.), instrumentos musicais (os mais perfeitos datam dos séculos VII e VI a.C.); um espelho em bronze transparente da dinastia Han (206 a.C. - 220 d. C.) Escultura chinesa antiga. 
Nos pisos superiores:
Galeria das cerâmicas. Peças muito interessantes, sobretudo das dinastias Ming e Kim.
Galeria das pinturas e caligrafias. Pouco vi de pintura,  que me pareceu consistente, na maior parte, em painéis compridos, de forma rectangular, com paisagens típicamente chinesas. Caligrafias efectuadas de cima para baixo em grandes tiras de papel dispostas verticalmente.
Galeria dos objectos de jade. Esta galeria abrange várias épocas, desde a Antiguidade até tempos mais recentes, contendo peças de adorno, estatuetas, etc., muitas delas admiráveis, sem dúvida, sendo a galeria do museu de longe mais concorrida, não só por turistas internos, mas também externos à China, formando grupos diante das vitrinas e obrigando a tempos de espera.
 Galeria de selos e numismática. Passei de largo pelos selos, retendo-me diante de alguma espécie mais fora do vulgar, nomeadamente os primitivos selos do império. Quanto à numismática, dei uma espreitadela ao conjunto, por não me interessar particularmente e, ante a limitação de tempo, ter que escolher.
Galeria do mobiliário chinês das dinastias Ming e Kim. Aqui, sim, detive-me diante de peças esplêndidas, nomeadamente uma mobília de quarto imperial, mas também de outros mobiliários de uso doméstico.
Á saída do museu, enganei-me na porta que devia usar para me reunir com os companheiros de viagem; uma vez lá fora e dando pelo erro, pensei em retroceder pela mesma porta pela qual tinha saído uns dez minutos antes, mas não era permitida a entrada por ali. Usando o meu escasso inglês e gestos, falei com um dos funcionários que estava à porta e disse-lhe, mostrando-lhe o bilhete de entrada no museu que ainda conservava comigo, que me tinha enganado e que tinha os companheiros de viagem do outro lado. Ele permitiu-me a entrada, mas obrigou-me a passar novamente pelo controle, e tive que colocar na máquina o saco de viagem, a máquina fotográfica e o casaco para serem radiografados e sujeitar-me àquela fiscalização pessoal que é de uso, com aparelho electrónico de mão. Estava a passar a porta giratória e o infalível Júlio a entrar por ela, com intuito de me procurar.
Almoçámos em restaurante já previamente contratado, como tem sucedido sempre.
Enquanto seguíamos de autocarro, travou-se inesperadamente um diálogo com o Júlio a propósito da situação que se tem vivido em Hong-Kong (manifestações de protesto que duram há meses em prol da plenitude dos direitos, liberdades e garantias democráticos, conforme o compromisso das autoridades chinesas com os antigos colonos ingleses, no acto da restituição do território à China em 1997. Curiosamente, o Júlio pôs-se a expender o mesmo ponto de vista das autoridades de Pequim, ou seja, do Comité Central do Partido Comunista da China, ele que confessou não ser filiado nesse partido e ter demonstrado durante a viagem uma visão e hábitos culturais pouco conformes com a ortodoxia chinesa. E afirmava acaloradamente que os distúrbios que estavam a ocorrer naquele território eram inspirados pelos Estados Unidos da América e por outras potências ocidentais, interessadas em fomentar a desordem. Eu disse “curiosamente” e daí talvez não, porquanto a atitude de Júlio era, ao fim e ao cabo, demonstrativa de uma rigidez em matéria política, que tem na generalidade dos cidadãos chineses uma câmara de eco da propaganda governamental, ao passo que o seu catolicismo, conquanto bacoco e reaccionário, é sinal da abertura que os actuais líderes do Partido Comunista  instauraram em matéria económica, religiosa e a nível de certa vivência comunitária, como decorrência da abertura da economia ao mercado.
Após o almoço, embarcámos no célebre comboio magnético, a caminho do aeroporto, onde iríamos tomar o avião para Guilin. O percurso, de cerca de 30 kms., fez-se em cerca de 8 minutos, com uma ou duas paragens pelo meio. O comboio não teve tempo para atingir os 400 kms. horários que pode atingir, mas passou dos 300 kms. por hora, marcados no visor por cima da porta da carruagem. O comboio circula dentro de uma plataforma, mas não tem carris; é impelido pela força magnética.
No aeroporto de Shangai, despedimo-nos do Júlio, após as formalidades, que foram muito demoradas – um tormento que já vem sendo habitual e que desafia a proverbial paciência chinesa, mas lá consegui passar com toda a bagagem, incluindo o volume do edredão e travesseiras, um empecilho que passei a ter de suportar e que me obriga a andar com ele na mão até à entrada do avião, para além da bagagem que vai comigo no assento, pois o mesmo não me cabe na mala que vai no porão.
O voo até Guilin durou 02h30m. Chegámos mesmo ao fim da tarde. À nossa espera já lá estava o guia local, que disse chamar-se José, na tradução do seu nome chinês. É um jovem muito simpático; fala excelentemente bem o castelhano e é dotado de um formidável sentido de humor. Acompanhava-o um outro amigo, que também arranhava uma palavras na mesma língua. Enquanto viajávamos de autocarro até ao hotel, elucidou-nos sobre as características da terra.
O hotel onde ficámos, de 4 estrelas, como sempre tem sucedido, chama-se Lijian Waterfull Hotel; fiquei no 8.º andar, quarto n.º 68. Consegui telefonar para casa pelo WatsApp. Tenho tido sorte nos meus telefonemas diários, apesar de me terem advertido que na China essa rede social é proibida. Jantámos num restaurante fora do hotel. Após, quem quis passeou pelo centro comercial ao ar livre, estendendo-se por várias ruas, mesmo perto do hotel. Chuviscava. O clima, aqui, parece ser um pouco mais húmido, por força das montanhas que rodeiam a cidade, conferindo ao local um ar bucólico, que o rio, com suas margens arborizadas e ajardinadas e rústicos caminhos de terra, acentua. 

18 março 2020

 

China IV




Manhã cedo, quando a circulação de trânsito é ainda escassa, já estamos a rodar no autocarro em direcção à estação dos caminhos-de-ferro. É uma cidade ainda estremunhada esta, com raros trauseuntes, um ou outro autocarro, carros de limpeza. A Praça Tiananmen aparece de relance, ainda deserta, apenas povoada por meia dúzia de pessoas, talvez operários nas limpezas matinais, preparando o recinto para a multidão de turistas que a hão-de encher e animar de movimento.
Caminhamos por grandes avenidas; esta por onde circulamos chama-se Avenida da Paz Eterna (estes nomes chineses são uma delícia, transportando-nos para um mundo que não é deste mundo). É uma avenida inerminável, que praticamente vai dar à estação e ao longo da qual se pode dormir um bom bocado ao ritmo monótono do rodado do autocarro, uma soneca tão repousante e compensatória da forçada madrugada, que parece ter o sabor de uma paz, se não eterna, pelo menos abençoada. A grande chatice são as malas no termo da viagem, pois trazemos connosco toda a bagagem, enfileirando em bichas, passando com esforço portas automáticas e controles complicados, como nos aeroportos, a voz de Zhao Naipu chamando-nos à ordem e procurando juntar-nos com os braços abertos: Olá! Olá!…, correndo para aqui e para acolá: Olá! Olá!…, num curioso vocativo que me fez lembrar o barqueiro de Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno: “À barca, à barca, hou lá!”
Entrámos para a plataforma quando, no painel electrónico surgiu a hora do embarque e passada mais uma porta que se accionava com a introdução do bilhete. Despedimo-nos de Zhai Naipu e tomámos os nossos lugares numa carruagem confortável. A distância que iríamos percorrer até Chian cifrava-se em 1200 quilometros. Vencêmo-los em seis horas exactas. Isto, porque o comboio parou em, para aí, uma dezena de estações ou mais, que serviam outros tantos centros urbanos. O certo é que perdia tempo a reduzir a velocidade antes da paragem, na estação e novamente no arranque. De resto, a velocidade a que normalmente circulava era de 300 quilómetros por hora. O serviço de bar é que não achei famoso, pelo menos em termos de refeições. Nem sequer serviam chá, que tão bem me teria sabido, em vez do café a que estou habituado.
Durante a viagem, houve sempre sol e podiam observar-se com nitidez as paisagens que se iam desenrolando diante dos nossos olhos. Poucas zonas montanhosas e planícies a perder de vista. Os povoados que surgiam pareceram-me desolados, com os seus prédios tipo caixote, uniformizados, sucedendo-se em filas, com espaços entre eles pouco desafogados. Áreas cultivadas, sim, mas onde não se divisavam nem pessoas, nem animais, assim como não se viam casas rurais, que emprestam sempre às paisagens campesinas um carácter especial.
Enfim, chegámos a Xian e já tínhamos à nossa espera a guia chinesa que iria conduzir-nos durante o tempo que lá estivéssemos. Falava castelhano muito bem e disse chamar-se Sílvia. É claro que era a tradução do seu nome chinês. Quando lhe pedi para me escrever o seu nome original, fez um gatafunho no caderno, que me deixou perplexo. Durante o trajecto de autocarro até ao hotel, foi-nos expondo, de um modo geral, um pouco da história da China, da sua indústria e das suas populações e, em especial, da história da cidade. Xian tem 3.000 anos de existência e foi a capital durante metade das dinastias do império. O nome Xian significa Paz do Oeste (Xi – Paz; An – Oeste). A cidade situa-se no Norte, perto da Mongólia Interior e tem 10 milhões de habitantes. Ainda se vêem trechos das muralhas que a cercavam.
A chegada ao hotel – Grand Noble Hotel, onde me coube o quarto 1205 – foi só para descarregar as malas, que o tempo nestas viagens tem de ser aproveitado até ao segundo. De volta ao autocarro, visita ao Pagode do Grande Ganso Selvagem, dos finais do século VII. É uma construção em pirâmide, escalonada em andares que se vão estreitando até ao vértice. Fica no alto de uma pequena elevação à qual se ascende por uma ampla escadaria. Espaço de lazer envolvente, interessante, com árvores. Havia função à hora a que lá chegámos. Viam-se os monges budistas e os fiéis, através da larga porta, salmodiando numa toada repetitiva, ritmada por um tambor e um pequeno sino. Era vedada a entrada, evidentemente, e a tentativa de disparar as máquinas fotográficas para o interior era imediatamente sustada por vigilantes. Em redor, várias dependências com figuras de jade representando a vida de Buda.
Actualmente, após o degelo maoísta, conforme foi salientado pela Guia, existe liberdade de culto na China. Mao queria acabar com a religião.
De seguida, partimos para um outro templo, desta feita, da religião muçulmana - a Grande Mesquita de Xian, cujas origens remontam ao século VIII (dinasstia Tang), segundo o que foi posto a circular na altura da visita, mas o templo terá sido construído bastante mais tarde, durante a dinastia Ming (1368-1644), segundo o que leio num velho guia da Baedecker (1996), que adquiri com vista a uma frustrada viagem a Macau antes da retirada de Portugal do território, onde iria participar num seminário sobre liberdade de expressão e de imprensa. É possível, no entanto, que antes deste tenha exisitido um outro templo para prestar serviço religioso à comunidade muçulmana, que desde cedo se fixou nesta cidade integrada na Rota da Seda. O actual dispõe de uma entrada comprida com jardins e várias construções. O templo propriamente dito está construído no estilo das construções chinesas e não no estilo tradicional muçulmano, não dispondo de cúpula e minaretes. Porém, a decoração é muçulmana.
À hora em que por lá andávamos, os fiéis eram convocados para a oração por meio de aparelhagem sonora, naquele estilo de cantoria monótona.
Percorremos depois o exótico bairro muçulmano, muito concorrido, com uma imensidade de lojas e barracas e uma grande variedade de comidas, que enchiam o ambiente de desencontrados odores.
Após o jantar, fora do hotel, em local previamente combinado, saímos para uma visita nocturna à cidade, em autocarro, acompanhados pela guia, que jantou connosco. Por força, queria trazer-nos para esta visita, tendo-se fartado de elogiar o encanto da cidade à noite, com o espectáculo das suas luzes. E, de facto, o cenário é magnífico. Fizemos várias paragens pelo caminho para admirarmos o efeito cromático das luzes, em que se distinguiam cores variegadas combinando-se em fantásticas composições, em particular numa zona ribeirinha dominada por uma elevação, com os prédios e a vegetação em cascata. Também no centro, numa das principais praças, onde avultavam vários edifícios nobres, com trechos da muralha a surdirem por entre as luzes, havia espectáculos de luminotecnia e animação com bonecos, movendo-se num bailado nas varandas de um desses edifícios, ao som de música ambiente.
Esta animação prosseguia por outros sítios. Transportados para outro local, fomos dar a um centro com variadas ruas, uma delas muito comprida, pedonal, uma espécie de rua mágica (acho que era designada mesmo assim), cheia de iluminações de variada coloração e composição. Numerosas pessoas passeavam por ali, em grupo, descontraídamente, ao som de música ambiente. Havia uma parte da rua onde actuavam grupos musicais de jovens, que tocavam uma música mais frenética e mais consonante com as novas modas. Passeámos longamente por ali, antes de recolhermos ao autocarro, para regressarmos ao hotel. Perguntei à guia se aquele ambiente festivo se devia a alguma comemoração (estava-se em Outubro, em que é tradicional celebrar-se durante o mês o aniversário da revolução socialista) ou se era habitual. Ela respondeu que era sempre assim. Caso para estranhar.

O mais importante, porém, estava para vir: a visita ao museu que guarda os célebres guerreiros de terracota. Foi para essa visita, fundamentalmente, que Xian foi incluída no roteiro da China. Logo de manhã cedo foi para lá que nos dirigimos.
Que espectáculo mais fora do comum! Não há ninguém que, em face do que lhe é exposto, não fique boquiaberto. Trata-se, efectivamente, de um local imperdível, ao menos para quem vai à China. Ir lá de visita e não se deslocar a Xian é como ir à Índia e privar-se de ver o Taj Mahal. Multidões de turistas circundam demoradamente este recinto, debruçando-se sobre a balaustrada de ferro que lhe serve de resguardo e disparando as suas máquinas fotográficas. Abaixo do solo, alinhadas em trincheiras escavadas na terra, milhares de figuras em terracota compõem um exército completo, com soldados, generais, carros de combate e cavalos. Tudo em tamanho natural. As duas trincheiras da direita estão repletas de soldados e carros de combate com cavalos, uma delas com maior número de figuras (cerca de 6.000), ao passo que a outra tem cerca de 1.300; a terceira, com menor número de figuras (umas dezenas) , está ocupada apenas por oficiais de várias patentes e um carro de combate puxado por quatro cavalos. As armas - arcos, lanças e espadas de bronze – eram reais e terão sido utilizadas na guerra. Uma coisa espantosa é o realismo e o detalhe com que estas figuras, do século III a.C., foram concebidas: as figuras humanas, os animais, os carros de combate, assim como as indumentárias e os apetrechos. E mais curioso ainda: a individualidade de cada figura, como se cada uma delas representasse um estilo e uma personalidade própria.
Esta fantástica armada de terracota será um monumento funerário, formando provavelmente um conjunto com outros objectos que foram encontrados junto do mausoléu do primeiro imperador da China – Qin Shihuang – situado ali perto, e carecendo ainda de uma cabal ou, pelo menos, mais completa explicitação da sua simbologia. O conjunto, que representaria o exército e a guarda de honra do referido imperador, velando-o poderosamente na outra vida ou dando continuidade à sua missão guerreira, pois que os soldados estão em posição de combate, foi descoberto em 1974 por camponeses, quando procediam à perfuração de uma parede que estava soterrada. Desde então para cá, tem-se desenvolvido um intenso trabalho arqueológico de desenterramento das figuras (visto que terão sido originalment enterradas) e de restauro das mesmas, o que obriga a mil cuidados, um restauro que não é integral, pelo menos no que se refere à pintura das esculturas, que em algumas figuras expostas é evidenciada por alguns vestígios que permaneceram ao longo do tempo.
Por conseguinte, este museu singular é o próprio local arqueológico onde têm sido desenterradas e recuperadas as figuras.
O resto do tempo até ao almoço foi preenchido com a visita a uma oficina de terracota e de móveis pintados e com incrustações em jade e madrepérola. Uma oportunidade, evidentemente, para as compras turísticas, pese embora o facto de a visita ter realmente interesse pela qualidade e beleza de muitos objectos expostos.
Após o almoço num restaurante situado no mesmo edifício, marchámos para o aeroporto, onde, após as demoradas formalidades, apanhámos o avião para Shangai. Duas horas e meia de viagem, entre as 18,00h e as 20,30h. À nossa espera, lá estava o guia, um patusco gordinho e baixote, com curso superior de português. Durante a viagem, expendeu longamente o seu gosto pela nossa língua e cultura e deu mostras da sua erudição citando Camões e alguns autores mais. E não só pela nossa língua e cultura, mas também pela religião tradicional do nosso país, confessando-se católico, apostólico, romano, menino de coro e defensor da vertente mais conservadora da Igreja, incluindo a missa em latim.

09 março 2020

 

China III


Transposta a majestosa Porta Meridional, cá estamos na Cidade Proibida. Um ampla esplanada ou praça é atravessada pela Ribeira Dourada, cavalgada por cinco pontes em mármore, ricamente decoradas com esculturas. É uma ribeira cujo nome é auspicioso; ao contrário dos rios que levavam ao Inferno, com nomes escuros como Letes, Estige, Aqueronte, etc., esta ribeira, uma vez atravessada, conduz-nos ao fabuloso conjunto de galerias e palácios imperiais com denominações evocadoras de um mundo harmonioso e perfeito, que se devia parecer com o Olimpo. Uma cidade dentro da cidade, celestial, que o não seria tanto para a multidão de serventuários, ocupando uma extensão vastíssima, que assim o exigia a magnificência da corte imperial. Rezam as crónicas que mais de um milhão de metros quadrados, comportando cerca de 800 edifícios e 9.000 aposentos. Este conjunto de imóveis, que foi declarado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, constitui um belo e singular acervo da arquitectura palaciana chinesa. Escapou por pouco à fúria arrasadora da Revolução Cultural.
Os diversos pavilhões e palácios que se sucedem uns a seguir aos outros dispõem-se ao centro, ao longo de um eixo, que divide simetricamente a cidade em duas (aos lados, Este e Oeste, outros palácios menos importantes se perfilam).
O Pavilhão da Harmonia Suprema é o primeiro que se nos depara, transposta a grandiosa porta do mesmo nome, flanqueada por dois enormes dragões em bronze. No vasto recinto que o antecede, onde, pelos vistos, havia lugar para 100.000 pessoas, decorriam as cerimónias importantes, como a coroação, os casamentos imperiais, as celebrações do Ano Novo, etc. O imperador era transportado numa liteira e colocado no seu luxuoso trono, designado por Trono do Dragão, ao centro do pavilhão, em face do público. Tal o espectáculo que era necessário montar para que o poder aparecesse em todo o seu esplendor. Dezoito queimadores de incenso, em bronze, simbolizando as dezoito províncias da China, ardiam no último dos três escalonados terraços, ornados de ricas balaustradas de mármore, que ascendiam até à entrada onde estava o trono.
A parte da frente do recinto era ocupada pelos funcionários (cerca de 9.000, segundo diz o guia Zhao Naipu pelo walkie talkie; segundo o guia em forma de livro escrito em inglês que tenho comigo, o pessoal tinha que saudar o imperador curvando a cabeça até ao solo, por nove vezes). As bancadas laterais eram destinadas aos músicos, tangendo os seus instrumentos.
Há uma enorme massa de turistas vagueando por aqui, subindo ao terraço e rondando o pavilhão. Acotovelam-se junto do sítio onde o imperador aparecia no seu trono. Parece que o trono está lá, mas eu não o vi. Não tive paciência para tolerar aquelas cabeças apinhadas, espreitar por cima delas e fazer a ginástica que toda a gente fazia de levantar os braços com a máquina em punho e tirar uma foto. Aliás, para a maior parte dos turistas, incluindo os do grupo onde me integro, o importante parece ser dar ao gatilho da máquina e disparar. Atingir o alvo. Alguns, mal acabam de entrar num determinado local, já estão a metralhar, antes mesmo de se aperceberem da realidade do objecto ou do sítio. Pior: a sua voracidade de imagens, a sua azáfama de caça vai ao ponto de nem sequer escutarem o que diz o guia, tolhendo a vida a quem quer prestar atenção. Também fui um pouco apanhado por esse vício, mas não me deixei possuir de todo e algumas vezes resisti. Como desta vez em relação ao trono do imperador. Por causa dele e da mania da fotografia, uma professora de inglês na reforma perdeu-se do grupo. Foi necessário os dois guias – a portuguesa e o chinês – irem no seu encalço, agitando a bandeirinha portuguesa, porque pelo telemóvel não se conseguiu falar com ela, fosse por causa do barulho, fosse por outra razão. Felizmente, com a sua experiência de viagens, deixou-se ficar onde estava e, daí a pouco, regressava ao nosso seio, gingando o corpo nas pernas trôpegas, que todavia não a tolhiam de acompanhar o grupo, mesmo quando era preciso andar mais depressa. Era uma mulher afável, de olhos azuis, viúva de um advogado que falecera vitimado por um cancro do pulmão, devido ao abuso do tabaco, e por quem os olhos dela se lhe aguavam, quando falava dele.
Assim se passou ao Pavilhão da Harmonia Central, ou do Meio, ou ainda, creio, Pavilhão da Harmonia Perfeita (os dois primeiros são designações que encontro nos guias impressos; o último foi o que recolhi no meu caderno de apontamentos, a partir do que o guia Zhao Naipu nos ia transmitindo).
Este era o local onde o imperador recebia cumprimentos ou vassalagem dos seus funcionários mais próximos, e dava os últimos retoques antes de passar ao Pavilhão da Harmonia Suprema, onde decorriam, como vimos, as cerimónias oficiais.
O terceiro Pavilhão que vem a seguir tem a designação de Pavilhão da Harmonia Preservada. Era o local dos banquetes imperiais, onde, de facto, conviria preservar alguma harmonia.
Este conjunto de edifícios enquadrava-se no chamado Pátio Exterior e era destinado às representações do poder, exteriorizado por cerimoniais, fausto e grandiosidade e pela criação de uma atmosfera de transcendência, em que o imperador aparecia revestido de uma espécie de magnificência celeste.
Para além desse Pátio Exterior, seguindo a ordem da sucessão de edifícios que se nos depara após a entrada pela Porta Meridional ou Porta Tiananmen, mas inversa à disposição construtiva, que é Norte/Sul, fica o Pátio Interior, um espaço exclusivamente reservado ao imperador e demais membros da sua corte e onde era proibida a entrada de qualquer estranho, sob pena de execução sumária.
Esta face interior era formada por três palácios: o Palácio da Pureza Celestial, o Palácio da União entre o Céu e a Terra e o Palácio da Tranquilidade Terrena. Nomes que, só por si, dizem muito da concepção da vida imperial e da ancestral cultura chinesa. Rezam as crónicas que era no último dos palácios citados que as imperatrizes viviam e dormiam e, além disso, era lá que era passada a noite de núpcias. As outras noites ficariam à discrição dos imperadores, segundo penso, pois tinham à sua disposição uma gama variável, mas no geral muito diversificada e vasta de concubinas, que viviam em palácios próprios, situados na área imperial. Através das vidraças das janelas, os turistas curiosos tentam imaginar como seria o seu dia-a-dia, coscuvilhando móveis, utensílios vários e objectos de adorno, que se divisam no interior.
Por trás destes palácios, ou seja, a seguir a eles, segundo a orientação que vamos seguindo, situa-se o Jardim Imperial, um belo e aprazível espaço que é um modelo da arquitectura paisagística chinesa. Pequenos recantos, montículos arrelvados e variadas espécies arbóreas, onde se distinguem velhos pinheiros, bambus, ciprestes. Entre o arvoredo, outras construções com nomes igualmente magnânimos, como o Pavilhão da Paz Imperial. Num destes edifícios, se bem escutei Zhao Naipu, foi que o último imperador, o protagonista do filme de Bertolucci, fez a sua aprendizagem escolar.
E assim vamos fruindo o espaço neste dia de sol, imaginando as delícias de um piquenique em qualquer destes recantos, enquanto nos vamos encaminhando para a porta de saída, situada do lado Norte.
Após o repasto chinês num restaurante de Pequim e um cafèzinho expresso tomado numa cafetaria ao lado, da cadeia Starbucks, que é uma multinacional (já o vimos noutras partes do planeta, nomeadamente na Índia, no Dubai e em Manhattan), pois os restaurantes chineses apenas servem chá, de ordinário durante a refeição, já vamos de largada para outra visita. Desta feita, o alvo da nossa viagem é o célebre Templo do Céu.
Mal descemos do autocarro num largo situado na vizinhança, deparou-se-nos, no cimo de uma elevação, um curioso monumento, que tenho a impressão que se avista de muitas partes da cidade, dada a sua localização altaneira. A área circundante é um amplo espaço de lazer com esplanadas arborizadas e mesas para piquenique. Muitos chineses por aqui passeiam e se divertem, com destaque para os reformados (homens e mulheres), que, em grande número, sentados em bancadas e muros baixos, pincipalmente a todo o comprimento de um Longo Corredor, semelhante ao que já encontrámos no Palácio de Verão, se dedicam ao jogo de cartas com entusiasmo e e grande arruído. Pelos vistos, segundo informação do guia, que interpelei, é um jogo muito comum na China e o principal divertimento dos reformados (a reforma é aos 60 anos), depois da obrigação de cuidarem dos netos.
Dos netos?”, reagi espantado.
Sim, reafirmou ele.”
Então não são as creches?, os infantários? Não é o Estado que se encarrega obrigatoriamente da ocupação e educação das crianças?”
Não é obrigatório que as crianças vão para as creches e os infantários. Depende da vontade dos pais, respondeu”.
Este é mais um exemplo da viragem da China. É claro que não se tratará apenas de uma maior liberdade educativa em benefício dos parentes da criança e da consequente abdicação, por parte do Estado, do monopólio da educação e ensino a todos os níveis, mas também (e principalmente?), da libertação estadual do correspondente ónus financeiro.
Mas retornemos ao Templo do Céu, que se avista mesmo na nossa frente, como estava dizendo. O monumento que ressalta na sua beleza invulgar é o principal de três templos taoístas. O taoísmo é uma religião baseada em grane medida nos ensinamentos e na filosofia de Lao Tse, um poeta que viveu no século VI a.C. a quem é atribuído o livro de poemas Tao Te King, que significa “livro da Via e da Virtude”, um livro que, sob muitos aspectos, é admirável pelo esforço que faz na conciliação dos contrários, na exaltação do fraco em vez do forte, da suavidade em vez da rudeza, do simples em vez do complexo, do humilde em vez do poderoso, como via ou o caminho para atingir a perfeição, a paz e a tranquilidade, a sublimidade celestial, mas que também é descoroçoante no exaltar a quietação, a inacção, por vezes até a ignorância e o nada [“Rejeita a sabedoria e o conhecimento,/o povo tirará assim cem vezes mais proveito” (…) e noutro poema: “Quem pouco sabe terá o conhecimento seguro, Quem muito sabe ficará na dúvida (…)”], (Tao Te King, Editorial Estampa, 2ª edição, 1977)
Uma escadaria majestosa em três lanços, com uma tríplice balaustrada em mármore, conduz ao principal dos templos a que me vinha referindo. Tem uma forma cónica e está coberto por um triplo tecto, cujos círculos se vão estreitando para cima e terminando por um pináculo com uma bola dourada. Telhas de um azul purpúreo cobrem o triplo tecto, conferindo-lhe um aspecto gracioso. Estamos em face da denominada Sala da Oração pelas Boas Colheitas. Era aqui que o imperador vinha rezar, todos os anos, pelas boas colheitas, no início da Primavera, e pelos frutos e cereais obtidos, no Outono.
O espaço em redor é um vasto círculo, de chão marmóreo, cercado pela referida balaustrada, interrompida no cimo pelos vários lanços de escadas correspondentes aos vários acessos que conduzem ao recinto – Norte, Sul, Este e Oeste. O que foi utilizado por nós leva directamente à Sala de Oração pelas Boas Colheitas.
Os outros templos situados na área são a Abóbada Celestial Imperial e o Altar Circular, ligado por um arruamento empedrado à Sala da Oração pelas Boas Colheitas. O primeiro apresenta uma construção similar à deste último templo, embora de dimensão mais reduzida e tem como curiosidade o muro que o cerca, conhecido pelo Muro do Eco, por permitir que uma voz emitida em qualquer parte dele seja ouvida no lado oposto ou em qualquer outro ponto. O Altar Circular dispõe de uma simbologia especial à volta do número 9 e seus múltiplos (9, 27, 81), patente no número de degraus da escadaria que lhe dá acesso, na balaustrada e na decoração interior.
É curioso constatar que a simbologia do número 9 e seus múltiplos está ligada ao sagrado de várias religiões e ao ritual de certas práticas iniciáticas, bem como transparece no simbolismo de certas obras de arte, das quais A Divina Comédia de Dante é um exemplo flagrante. Nove é o número de círrculos infernais; nove é um múltiplo de 3, sendo que o poema de Dante está construído em tercetos.
Do Templo do Céu partimos para outro local de Pequim, para um teatro, onde assistimos a um espectáculo teatral de Kung Fu. Contava a história de uma criança entregue aos cuidados de um monge de Kung Fu, o qual, através de ilustrações e exercícios próprios desta arte marcial, de uma incrível destreza e acrobática espectacularidade, ia ministrando ensinamentos sobre o domínio do corpo e da mente, sobre a arte de vencer resistências e dificuldades e de se superar a si próprio, expondo toda uma filosofia de vida.
Dali fomos para o jantar, num restaurante situado numa das grandes avenidas de Pequim. O jantar foi constituído por, entre outras coisas, porque a comida chinesa consta de uma variedade de pratos, como é sabido, pato à pequinense. Munidos de branquíssimos e brunidos aventais e armados de facas afiadíssimas, lá estavam dois empregados cortando aplicadamente as aves já cozinhadas em pequenas lascas, como é de uso na comida chinesa, por causa da não utilização da faca e do garfo. Faziam-no de forma extremamente metódica e expondo-se ostensivamente à curiosidade dos turistas, que, como é de prever, disparavam as suas máquinas fotográficas e telemóveis com grande voracidade gastronómica.
O mais curioso é este facto que nos foi contado pelo guia e que causa consternação: os patos, enquanto vivos, são submetidos a uma alimentação especial para crescerem rapidamente e para perderem a gordura que vão acumulando, são metidos em capoeiras alongadas com o chão forrado de tijolos aquecidos por meio de um qualquer sistema térmico, de forma a obrigarem os pobres animais a moverem-se constantemente de um lado para o outro. Cruel, não? E de sinistra imaginação glutona.




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