21 maio 2020

 

China VI



Guilin
Hoje foi cedo o acordar: 06H30 locais.
Após o pequeno-almoço no hotel, eis que vamos a caminho do cais do rio Li para uma excursão de barco. O guia foi aproveitando a viagem de autocarro para nos continuar a fornecer indicações sobre a cidade de Guilin e a região. A cidade tem 800.000 habitantes (quatro milhões se se contarem as zonas contíguas) e é puro o ar que aqui se respira, límpidas as águas, que se podem beber directamente das fontes e correntes, dispondo de invejáveis condições de salubridade, graças à sua situação geográfica e condições naturais. O governo protege, por meio de medidas adequadas, o ecossistema deste espaço urbano e zonas envolventes. Por exemplo: retirou daqui as indústrias poluentes e deslocou-as para outros locais, nomeadamente a área de Cantão; preserva as tradições e impôs limites à construção imobiliária, não podendo os edifícios exceder determinada altura. Por isso, não se vêem por aqui arranha-céus.
É vulgar as pessoas atingirem idades provectas: mais de 100 anos. Há uma mulher com 110 anos e outra faleceu com 118 anos. A reforma, em toda a China, é aos 60 anos para os homens e 55 para as mulheres e muitos chineses, depois de reformados, querem fixar-se aqui para viverem outro tanto. Esta é a legenda da cidade, segundo o guia, o simpático José. Só mais uma nota: Na China há cinco regiões autónomas: Macau, Hong-Kong, Guanshi, Mongólia Interior e Tibete. Nas regiões autónomas pode ter-se mais do que um filho. Guilin pertence à região autónoma de Guanshi.
E com isto, depois de 1 hora de viagem, já estamos a apear-nos, cada qual com a caixinha do farnel que o hotel nos preparou, já atravessamos as guardas que dão acesso ao cais, munidos do bilhete que nos foi fornecido e por entre a vasta multidão de turistas, encaminhamo-nos para o nosso barco (há vários), transpondo a prancha de madeira que conduz ao portaló.
A viagem ao longo do rio é um deslumbarmanto, que se prolonga durante 4 horas. Uma sucessão interminável de colinas de formas arrojadas, mesmo inverosímeis, de vertentes muito abruptas e picos a furarem o céu, oferecendo perspectivas inesperadas a cada volta do rio, umas isoladas, outras agrupadas, em duetos como se fossem irmãs, ou em magotes, com os pináculos formando serrania, esta estrangulando a corrente, a outra mais além obstruindo ilusoriamente a passagem, aquelas duas estando dispostas de tal maneira nas curvas do rio que simulam uma garganta entre gigantes, como Sila e Caríbedes, as mais longínquas envoltas em neblina, esfumadas e como se estivessem grudadas ao céu. Muitas têm nomes que evocam as figuras que as formas sugerem, como a célebre colina da Tromba de Elefante. Este é o cenário de muitas pinturas clássicas evocativas das paisagens chinesas.
O almoço foi a bordo, cada qual extraindo o conteúdo da caixinha que, desde o hotel, o acompanhava, o que contribuiu para dar uma agradável sugestão de viagem campestre.
O regresso foi no autocarro que nos levou de manhã cedo. Já chegámos para lá do meio da tarde. O tempo até ao jantar foi ocupado como cada um quis. E havia onde passar esse bocado da tarde, nomeadamente nas margens rústicas do lago que se encontra mesmo perto do hotel do outro lado da rua. Já falei dos seus arruamentos em terra, por entre árvores, arbustos e plantas da mais variada espécie, conferindo ao local um resguardo protector para os dias de grande calor.

Após o jantar, fomos fazer uma excursão de barco pelos lagos do centro, denominados o lago Cedro (Shanhu) e o lago Figueira (Ronghu), ligados um ao outro e navegáveis como se fossem um rio. A embarcação tinha um aspecto de bar nocturno, com mesas e bancos, onde nos fomos sentando. Como a noite estava boa, muitos subiam à amurada para melhor desfrutarem da viagem. Ao longo da passeata, a cidade ia-se-nos revelando, iluminada e multicolorida (os chineses parecem apreciar muito as iluminações nocturnas das cidades e pôr nisso um brio especial). Zonas ribeirinhas, jardins, parques, pontes, casebres das margens iam desfilando a um lado e outro.
A pesca ncturna foi uma das atracções mais inéditas e bizarras que se nos deparou. Os pescadores postavam-se no meio do rio, de pé, em barquitos pequenos, quase pranchas de surf, cada qual em seu barquito, um aqui, outro lá adiante, trajados com fatos fosforescentes e iluminados por uma lanterna ou coisa parecida. Tinham como companheiros corvos marinhos e eram estes que, devidamente amestrados, mergulhavam nas águas a um sinal gutural dos pescadores. Quando regressavam ao barquito, depois de uns momentos em mergulho, não aparentavam trazer nada com eles. Porém, os pescadores apertavam-lhes o pescoço, num gesto sacudido que parecia de estrangulamento, e eles largavam, inteirinho, o peixe que tinham engolido. Disse-nos o guia (o tal José) que os corvos são recompensados e procuram os maiores peixes.
Outra das surpresas que a viagem nos porporcionou foi um bailado executado num terraço sobre o rio por um conjunto de jovens beldades pertencentes a uma minoria étnica. Não seria nada de especial, se não tivesse surgido como uma espécie de espectáculo onírico, deusas marinhas ou ninfas que tivessem surgido do fundo das águas para deslumbrarem o viajante.
Uma última curiosidade foram as torres octogonais dos dois pagodes conhecidos como o Sol e a Lua, erguendo-se no lago Shanhu (Cedro), cada qual delas trepando nas alturas em vários andares com os seus telhados típicos. A mais alta, a do Sol, está iluminada em tons dourados e a da Lua, um pouco inferior, em tons prateados. Ambas produzem um belíssimo efeito na noite de Guilin, que as toma como ex libris.
No regresso, o barco foi mesmo transformado em bar nocturno com uma jovem chinesa tocando piano chinês e difundindo aquelas sonoridades orientais tão delicadas e sonhadoras.
Como se intui do descrito, a viagem tem o seu quê de menu turístico, o que mais uma vez prova a actual capacidade demonstrada pela China para atrair o forasteiro, dando- lhe a comer as iguarias que são as preferidas de quase todo o turista, mas não deixa de ser interessante e reconfortante. Valeu a pena sobretudo para ver a cidade à noite no multicolorido das suas luzes e as torres dos pagodes, que têm outra beleza iluminadas.

Estamos num outro dia, mas ainda em Guilin. O acordar foi às 07h00. Saída de autocarro em direcção ao museu das pérolas, que de museu tem pouco. Uma visita dirigida ao turista consumidor e à promoção da produção e comércio locais.
A coisa começou num auditório, onde houve desfile de beldades exibindo as jóias com que adornavam o colo e os braços, movimentando-se no tablado para trás e para a frente, ao som de música, pondo em evidência os seus enfeites. De seguida, passou-se à sala da exposição das jóias, onde uma senhora fez uma parlenda sobre a cultura das pérolas. Estas são provenientes de ostras, as quais produzem nácar como forma de defesa contra objectos estranhos que entram nas suas conchas – processo esse que, demorando anos, dá origem às pérolas. Há-as de água salgada e de água doce, sendo as de água salgada de melhor qualidade. Exemplificou com a abertura de um ou outro molusco, que retirou de aquários onde se cultivavam. Também deu explicações sobre os tamanhos e os feitios (as de forma redonda é que são aproveitáveis para colares e pulseiras de qualidade) e sobre a maneira de distinguir as pérolas verdadeiras das falsas (aquelas, sendo friccionadas, largam umas particulazinhas quase imperceptíveis de pó, as outras, não).
Passou-se de seguida à venda, no fundo o acto mais importante para que tendiam todos os passos anteriores. E foi um corrupio à volta dos mostradores e balcões, um fervilhar de desejos e de pequenas explosões de entusiasmo, com os da casa incentivando à compra com acenos de aprovação e palavras de encarecimento (normalmente em inglês) dos objectos sobre que se detinham mais demoradamente os olhares ou sobre os quais incidiam as inclinações dos potenciais compradores. Foi assim que gastei os últimos yenes, confortando-me com a necessidade de gastar aquela moeda, dado que, daí para a frente, a mesma já não tinha cotação. Haveria de ser o dólar de Hong-Kong.
Em Guilin ainda fomos visitar a Gruta da Flauta de Cana. É uma das grutas maiores e mais célebres desta zona de rios, lagos, colinas e grutas. Trata-se de uma enorme galeria, na qual se desce em profundidade, com estalactites e estalagmites formando as mais fantásticas figuras: leão, homem da neve, queda de água e muitas outras figuras imaginárias. Um microcosmo com elementos naturais e artificiais, estes consistentes sobretudo nos arranjos de luzes e sonoridades, onde se percebiam chilreios de pássaros, que na realidade não existiam. Em tempos ancestrais, fluiria por aqui um rio. No final, junto de um dos lagos da gruta, houve espectáculo com alusão cosmogónica e bailado. Na verdade, não se pode dizer que os chineses não sabem explorar convenientemente os seus recursos também do ponto de vista da indústria turística.
Terminada a visita, metemo-nos no autocarro com destino à estação dos caminhos-de-ferro. Despedimo-nos do José (afinal, Dong, o seu nome chinês, soube-o nesta altura). Dirigimo-nos para o comboio, que acabara de parar na plataforma, à procura da carruagem que o bilhete designava. Num rápido, num rápido, que o tempo urgia. Com toda a bagagem (mala grande, uma mochila, o volume do edredon e ainda uma caixinha com o lanche ou almoço, que tinha sido preparada no hotel). Toda a gente se precipita para as portas, as pessoas demoram a subir, demoram a entrar, por causa dos engarrafamentos, uma aflição. Por fim, consegui subir com toda a tralha e arrastá-la lá para dentro. Na coxia, as pessoas permandeciam de pé, atarefadas a colocar a bagagem nas prateleiras, completamente repletas. Quando consegui mover-me lá para dentro, vi um espaço livre numa prateleira, por cima do lugar onde iam duas jovens. Atirei a mala grande para esse sítio e, por felicidade, ela coube lá, embora com um dos rodados ligeiramente de fora, o que não pareceu agradar às referidas jovens. Verifiquei as condições de segurança e mostrei-lhes que a mala estava segura. Entalei o volume do edredon, mais espalmado, num espaço que havia entre as costas do último banco da carruagem e a parede do compartimento, confiando em que ninguém me pegaria nele. Fui depois à procura do meu lugar. Acomodei a mochila aos pés e respirei fundo, já o comboio, tipo Alfa, rodava a boa velocidade. Embalado entre estações, atingia 300 kms. por hora.
Fui lendo uns contos maravilhosos de Gao Xinjiang, prémio Nobel da Literatura no ano 2000 (Uma Cana De Pesca Para O Meu Avô, publicações Dom Quixote) e espreitando a paisagem. Planícies a perder de vista, áreas cultivadas, relevos boleados, povoações aqui e acolá, centros urbanos, tudo incaracterístico, assim me pareceu. Sobretudo no que diz respeito aos edifícios, que a paisagem era agradável à vista, inundada de sol. O comboio parou em várias estações e, já perto de Hong Kong, parou em Cantão, uma grande mole urbana com prédios trepando para o céu, mas onde também não divisei nada que chamasse a atenção.
Ao cabo de três horas e meia de viagem estávamos em Hong Kong. Já estava o autocarro à nossa espera com o respectivo guia, que falava castelhano. Enquanto a viagem durou, foi-nos dando explicações sobre a cidade. No hotel – o Harbour Plaza Metropolis, de 4 estrelas – coube-me o quarto n.º 69 no 17.º andar. O hotel ficava num alto e dele se divisavam estradas rápidas, cruzadas, sobrepostas, passagens aéreas, carros circulando a alta velocidade. O centro ficava a uns 20 ou 30 minutos de distância. Pequenos autocarros do hotel transportavam quem quisesse para lá, de meia em meia hora, se não estou em erro. Nesse dia, porém, com o cansaço da viagem e a freima da instalação, mais o tempo gasto no câmbio (troca de euros pelos tais dólares de Hong Kong – os funcionários examinavam cada uma das notas minuciosamente, virando-as de um lado e outro), acho que ninguém saiu. Entretanto já eram horas de jantar, que não houve (o único dia em que tal aconteceu). Andando perdido pelo foyer do hotel, depois de arrumadas as malas, acabei por encontrar duas pessoas que também vagueavam pelo mesmo local (duas senhoras, que eram companheiras de viagem e partilhavam o mesmo quarto). Desprezamos o restaurante e o bar do hotel e fomos para o centro comercial contíguo (Metropolis), que comunicava com aquele. Circulámos por corredores vazios, com lojas praticamente desertas àquela hora, num cenário universalmente estereotipado. Acabámos por ir dar a um pequeno restaurante que não tinha ninguém – uma dessas manjedouras de centro comercial. Mandámos vir lasagna à bolonhesa para todos (não havia muito mais) e uma sopinha de tomate picante. Acompanhámos com chá. Foi um pouco desolador em termos gastronómicos, mas divertimo-nos com piadas ao que nos rodeava. No quarto, o mais acanhado em toda a viagem, telefonei para casa, mas o WatsApp não deu (finalmente experimentava a interdição que impendia sobre essa rede social). Tive que fazer chamada pelo Rooming só para dizer olá, porque o preço escalda. Dormi com as malas por desmanchar, porque no dia seguinte partiríamos para Macau, de onde regressaríamos dois dias depois a Hong Kong. O grosso da bagagem, contudo, ficaria nos arrumos do hotel.

25 abril 2020

 

Pensamentos de um político singular


(Para que o leitor se ocupe, em tempos de pandemia, a procurar a quem podem caber estes pensamentos)
Estamos confinados nas nossas casas, por via de um ser ínfimo e invisível, que é o coronavírus (do latim corona - “coroa”), ou seja, o vírus coroado em rei do nosso tempo. É ele quem manda no nosso destino por estes dias.
Este vírus faz jus ao seu nome: vira tudo ao contrário. Um rei que nos manda andar às avessas. Nunca se viu um ser tão minúsculo pôr toda a gente de quarentena, refugiada com medo dele. Na verdade, ele despacha muita gente para o cemitério e, para além disso, paralisa toda a economia.
Mas será que nós vamos ter que obedecer a um serzinho destes? Ter a indústria parada?, os transportes imobilizados?, as casas de comércio fechadas?, os restaurantes sem vivalma?, os cafés e botequins vazios?, as casas de espectáculos às moscas?, as escolas sem mestres e sem discípulos?,os céus livres de ruído e de fumarada?, as estradas libertas dos engarrafamentos e do rebuliço do quotidiano?, enfim, será que vamos abdicar de tudo aquilo que é sinal de vida e sangue e luta? Não. Não vamos ter essa atitude, senhores. Vamos enfrentar esse vírus e dar-lhe uma ensinadela. Enfrentá-lo como homens de barba rija e de peito feito. Dar cabo desse reizinho, desse bicharoquinho. Veja-se aquele presidente do país do samba. Ele tem muita razão, até porque ele é destemido e foi capitão da tropa. Ele não tem medo do vírus e veio cá para fora sem máscara nem viseira, pronto a pegar no vírus pelos cornos, como um touro no redondel (eh, vírus! eh...eh!), exortando o povo a seguir o seu exemplo.

Ora aí está! Temos de nos deixar de “mariquices” e voltar a encarar a vida com firmeza e fortaleza. A vida não é dos fracos, nem dos impotentes; a vida é sangue e luta; a vida é dos fortes e dos que arriscam, não dos timoratos, nem dos que ficam pelo caminho. Alguns cairão doentes, mas isso é próprio de quem vai à luta. Há perdedores e ganhadores; sempre assim foi e há-de ser.
Dizem que são os velhinhos os alvos preferenciais do vírus. Pois, se assim é, deixá-los ir, dando a vez aos jovens e saudáveis. Nestes reside a força, a coragem, o denodo. E talvez se possa dizer que o último tributo válido dos velhinhos à continuação da vida seja o de poderem contribuir para a imunidade geral, de que tanto se tem falado. Aliás, como disse um governador de um Estado, nos United States, “os velhos deviam voluntariar-se para morrer”. Isso, por paradoxal que pareça, é que seria um grande hino à vida, principalmente da vida daqueles de nós que ainda têm a esperança de muito tempo pela frente, como provavelmente será o caso do referido governador.
Por estes dias temos assistido a um espectáculo deplorável: perdão de penas e liberdade condicional para os reclusos, a pretexto do vírus. Isto é inqualificável e bem pode ficar com um nome para a história vergonhosa das nossas instituições: virulência. Veja-se o paradoxo: cidadãos honestos sem poderem sair, confinados em casa, e os criminosos fora das prisões. Bem certo que se diz deverem els ficar com igual obrigação de retenção em casa, mas mesmo isso é inadmissível, pois tal equivale a torná-los iguais a nós, ou seja, a equiparar-se a banditagem ao comportamento ordeiro dos restantes cidadãos. É este o perigoso igualitarismo que está em vigor no nosso país. Os nossos governantes aduzem que é por causa do vírus. Mas então o vírus é o tal reizinho que manda no país e os nossos governantes são os títeres manobrados pelo bicharoco, como num teatro de marionetes? Vergonhoso!

Querem estes cavalheiros celebrar o dia da liberdade! Mas que liberdade, quando está toda a gente metida de portas adentro? Só se for a liberdade que pôs os criminosos fora das prisões. A liberdade indiscriminada dos vendilhões do templo. Temos de nos livrar desta liberdade que mistura o crime com a vida honesta.
Soltem mas é a economia, abram o comércio e as indústrias, ponham cá fora a mão-de-obra, glorifiquem o trabalho. Arbeit macht frei.
Jonathan Swift (1667-1745)


22 abril 2020

 

China V

Manhã em Shangai. O autocarro já está à nossa espera, à porta do Center Hotel, onde me coube o quarto 2004, no 20.º andar. O infalível Júlio, de pé, ao lado do autocarro, aponta-nos a porta da frente. Aí vamos nós por esta manhã de sol (que sorte temos tido, ao longo destes dias!) marchando por entre prédios altíssimos que fazem as ruas parecerem estreitas, com destino precisamente a um dos edifícios emblemáticos desta cidade, que disputa a Nova Iorque o cenário urbano. E aí está o Jin Mao, um dos arranha-céus mais alto da cidade, com 88 andares. Subimos ao topo, em elevadores ultra-rápidos. Lá de cima perscrutámos demoradamente, em toda a roda, a cidade, com o sol a entrar de jorro pelas vidraças e a sensação de estarmos nas núvens. Uma miríade de pináculos, em que se avantajavam o edifício Pérola (torre da televisão) e a Torre de Shangai, com 120 andares; ao longe, o grande rio Yang Tse e o seu afluente Huangpu , irradiando num poço de luz. Até por estes dois rios Shangai parece emular Nova Iorque.
De caminho para o templo do Buda de Jade, passámos pelo centro financeiro, com as respectivas catedrais da finança erguendo para o alto as suas torres. O Templo Buda de Jade é um templo grandioso construído nos finais do século XIX por iniciativa de um monge budista, que coligiu os necessários fundos para albergar duas estátuas de Buda que trouxe de Burma, por ocasião de uma peregrinação que fez ao Tibete. O templo foi destruído no tempo da revolução nacionalista de Sun Yat-sen de 1911 e reconstruído entre 1918 e 1928. Dos vários halls e câmaras que o compõem, destacam-se o dos Reis do Céu, onde se exibem as estátuas dos Quatro Reis do Céu e as estátuas douradas de Maitreya e de Weituo; o grande hall, onde se seguem câmaras contendo várias estátuas douradas de Buda e várias divindades, a estátua dourada de Guanyin (deusa da misericórdia) e da discípula Sudhana ao seu lado, representando a última fase da aprendizagem budista, mas o que me feriu mais a atenção foram as câmaras onde se encontram as tais duas estátuas trazidas pelo monge fundador, estátuas estas em jade branco, uma representando Buda sentado, em tamanho gigante, e outra representando Buda deitado com um riso beatífico e ameninado ou bonacheirão, provavelmente imerso no Nirvana.  
Este templo foi também vandalizado pelos activistas da revolução cultural, que nele implantaram, em vez do Buda, o retrato de Mao Zedong, assim elevado ao plano da divindade e do culto dos fiéis. Agora totalmente reposto, recebe as visitas dos devotos, não do grande timoneiro, mas dos crentes budistas. Aparecem com pauzinhos de incenso a arder, espalhando em redor um odor forte, e fazem vénias enormes ao Buda, antes de se ajoelharem, e quando terminam as orações, voltam a fazer três vénias profundas, de joelhos, levando a cabeça ao solo.
Vamos agora em direcção ao restaurante, mas como a visita ao jardim Yuyuan, o jardim do Mandarim, foi suprimida, assim como o passeio pelo Bund, por causa dos preparativos para a Expo, paramos numa oficina da seda, um dos locais sempre recomendáveis para o  turista fazer os seus dispêndios. E aqui foi realmente a minha perdição. Caí na asneira de comprar um edredão e respectivas almofadas, tudo em seda, claro. Para além da soma que tive de pagar em euros (uma das moedas com cotação internacional mais desejadas), tive de passar a carregar, durante o resto da viagem, o embrulho, que, não sendo muito pesado e estando bem ajeitado e comprimido, em saco de nylon com asas, veio juntar-se  incomodativamente ao resto da bagagem e originar penosidades de transporte e arrelias nas estações ferroviárias, nos autocarros e nos aeroportos, contribuindo para complicar as já de si ensarilhadas formalidades de controle. Ninguém me mandou ser parvo turista e, por isso, tive a sanção merecida.
Depois do agradável almoço em restaurante, fomos para a cidade velha. É um dédalo de ruas estreitas, a engurgitar de gente, com prédios de construção chinesa tradicional, telhados em forma de quilha de barco, contrastando com a cidade moderna dos arranha-céus e movimento frenético. Aqui não há carros, há pessoas a pé, deambulando descontraídamente, entrando e saindo dos estabelecimentos, que são aos milhares, juntando-se nas pequenas praças, em amena convivência. Tudo tem um aspecto íntimo e aconchegado, pese embora o amontoado de pessoas, para o que contribui a estreiteza das ruas, a disposição das casas, estas aqui encavalitadas  sobre o lago serpenteante,  conferindo ao  ambiente um ar de cascata, o ar familiar que perpassa por todo o conjunto humano. Passeia-se por estas ruelas gostosamente, por entre o formigueiro de pessoas, metendo o nariz em cada entrada de loja, e são de todo o estilo as lojas – mercearias, casas de chã, estabelecimentos de roupas, de electrónica, lojecas de bugigangas, quiosques, restaurantes e stands de comida de rua – admirando o belo cenário que se nos depara a cada esquina. Mas não podemos ficar aqui a morar, que o tempo de que dispomos está medido ao minuto.
E assim vamos para um passeio de barco pelo rio Huangtsu. Com o cair da noite, os grandes edifícios da cidade moderna iluminam-se, e isso é um espectáculo digno de se ver. Os barcos carregam-se de turistas, como em Nova Iorque. Um a um, os arranha-céus vão acendendo as suas luzes, caprichando em exibicionismos luminotécnicos. Luzes de todas as cores, espiralando pelos edifícios, subindo até aos pináculos e descendo por eles abaixo, tremelicando, piscando,  mudando de cor e de feitio, formando um arco-íris ao longo de todo o percurso. É a grande cidade a anunciar a noite. No barco vai um corrupio, uma algaraviada de vozes, um tal disparar de máquinas fotográficas, de telemóveis e de tablets, turistas onde há vozes estrídulas de asiáticos sobrepondo-se uns aos outros, acotovelando-se, “roubando” as vistas ao parceiro do lado ou de trás, no afã de filmarem a cena em vídeo.
No trajecto para o jantar, o patusco Júlio voltou a arranjar ensejo para falar do seu catolicismo, mas parte da malta protestou vivamente e houve quem lhe dissesse que guardasse  a sua religiosidade para outras ocasiões e que se limitasse a falar de temas ligados à viagem. Ele, porém, não pareceu molestar-se, mas deixou efectivamente de falar na religião.  O jantar num restaurante fora do hotel é que veio animar toda a gente e conferir unanimidade relativamente à qualidade dos pratos, que eram servidos em regime de self service. Até as sobremesas, de ordinário sofríveis nos sítios por onde tínhamos andado, eram acima da mediania, com vários tipos de gelado e bolos e, a coroar tudo, chã ou café (grande maravilha).
A noite terminou com uma passeata livre pela célebre Rua Nanquim, uma rua interminável mesmo ao lado do hotel, pejada de pessoas e de lojas de todo o tipo, grandes armazéns, mercearias, restaurantes, comida de rua, casas de chã, tendas de roupa e de fruta, enfim uma gigantesca área comercial, animada de luzes e de movimento, nesta noite de sábado para domingo. Uma boa estafadela, depois de uma jornada intensa, parando aqui, parando acolá, embasbacando diante de certos estabelecimentos, pois alguns companheiros de viagem o que querem é farejar coisas para comprar. É a praga do turista.
Às tantas, apanho a boleia de um casal que vai já retrocedendo rumo ao hotel. No alto do 20.º andar, ainda me chegam ecos do bulício na rua,  sobretudo ecos musicais. Espreito pela janela, antes de me deitar, e ainda há pessoas a formigar lá em baixo, as quais parecem mesmo formigas.
Domingo. A rua Nanquim, vista de cá de cima, está sem movimento a estas horas da manhã. Após o pequeno-almoço no hotel, aí vamos nós no autocarro, levando na frente o infalível Júlio, não sei se depois de ter assistido à missa dominical. Foi coisa que não lhe perguntei, por um lado porque a fé é do foro íntimo de cada um; segundo, porque poderia despertar uma daquelas suas divagações místicas e provocar uma tempestade no autocarro. Assim, vamos tranquilos a caminho do Museu Nacional de Shangai, com ele a elucidar o que se vai deparando a um lado e outro da cidade.
Shangai é uma metrópole com 20.000.000 de habitantes, parecida com as grandes cidades europeias, exceptuando a parte velha (aliás, foi submetida a grande influência e até administração de potências europeias, após o Tratado de Nanquim de 1842, no seguimento da Guerra do Ópio) e parece emular a cidade de Nova Yorque. Tenho dificuldade, nesta correria pelas grandes avenidas atravessando florestas de arranha-céus em autocarro de turismo, em imaginar o cenário onde decorreu a acção do grande romance de André Malraux – A Condição Humana – que eu li pela terceira vez, pensando nesta viagem. Leitura perfeitamente inútil desse ponto de vista. O cenário do romance permanece-me tão abstracto como antes. Estas viagens de agora são viagens-relâmpago; não dão para tomar o gosto às coisas, para nos envolvermos na atmosfera de um local, para pesquisarmos algo ou, ao menos, darmos substracto a um capricho de imaginação, que é muitas vezes de onde vem o impulso para irmos ao encontro do desconhecido. Fica então sem um referente material esse território imaginário onde decorreram os trágicos acontecimentos que se desenrolaram num espaço de tempo concentrado e densíssimo, entre 27 de Março e  12 de Abril de 1927, de enfrentamento entre revolucionários do Partido Comunista Chinês (PCC), tentando liderar o movimento de trabalhadores em insurreição, e as tropas de Chiang-Kay-Chek, de cujo partido – o Kuomitang – o PCC era aliado, obedecendo a orientações estratégicas de Stalin e do Komintern. O enfrentamento desembocou no massacre dos comunistas em 12 de Abril e na prisão e tortura até à morte de muitos dos seus revolucionários. Os acontecimentos descritos por André Malraux adquirem, para além da expressão de uma tragédia colectiva, uma dimensão trágico-individual com ressonâncias existenciais fundíssimas, que justificam o título da obra – A Condição Humana. Kyo e a sua namorada May, Gisors (pai de Kio), Katow, o revolucionário que cedera a sua dose de cianeto a dois outros prisioneiros, expondo-se, assim, ele próprio à tortura, Tchen, o revolucionário que se transformou em terrorista-suicida, todas essas personagens têm uma espécie de desmesura que as aproxima do sobre-humano, ou seja, da vontade “de escapar à condição humana”, como Gisors sentencia a dado passo.
E com isto chegamos ao museu de Shangai. Muito à vol d’oiseau, aqui vai uma referência ao  que se nos depara nas várias galerias, a começar no rés-do-chão e subindo pelos seus três andares:
Rés-dochão: bronzes, alguns muito antigos, do 13.º ao 11.º séculos a. C. Objectos e instrumentos já bastante notáveis, quer do ponto de vista da execução, quer da forma artística: talhas e vasos de vinho, potes para comida, instrumentos de trabalho (pás, facas, espadas, etc.), instrumentos musicais (os mais perfeitos datam dos séculos VII e VI a.C.); um espelho em bronze transparente da dinastia Han (206 a.C. - 220 d. C.) Escultura chinesa antiga. 
Nos pisos superiores:
Galeria das cerâmicas. Peças muito interessantes, sobretudo das dinastias Ming e Kim.
Galeria das pinturas e caligrafias. Pouco vi de pintura,  que me pareceu consistente, na maior parte, em painéis compridos, de forma rectangular, com paisagens típicamente chinesas. Caligrafias efectuadas de cima para baixo em grandes tiras de papel dispostas verticalmente.
Galeria dos objectos de jade. Esta galeria abrange várias épocas, desde a Antiguidade até tempos mais recentes, contendo peças de adorno, estatuetas, etc., muitas delas admiráveis, sem dúvida, sendo a galeria do museu de longe mais concorrida, não só por turistas internos, mas também externos à China, formando grupos diante das vitrinas e obrigando a tempos de espera.
 Galeria de selos e numismática. Passei de largo pelos selos, retendo-me diante de alguma espécie mais fora do vulgar, nomeadamente os primitivos selos do império. Quanto à numismática, dei uma espreitadela ao conjunto, por não me interessar particularmente e, ante a limitação de tempo, ter que escolher.
Galeria do mobiliário chinês das dinastias Ming e Kim. Aqui, sim, detive-me diante de peças esplêndidas, nomeadamente uma mobília de quarto imperial, mas também de outros mobiliários de uso doméstico.
Á saída do museu, enganei-me na porta que devia usar para me reunir com os companheiros de viagem; uma vez lá fora e dando pelo erro, pensei em retroceder pela mesma porta pela qual tinha saído uns dez minutos antes, mas não era permitida a entrada por ali. Usando o meu escasso inglês e gestos, falei com um dos funcionários que estava à porta e disse-lhe, mostrando-lhe o bilhete de entrada no museu que ainda conservava comigo, que me tinha enganado e que tinha os companheiros de viagem do outro lado. Ele permitiu-me a entrada, mas obrigou-me a passar novamente pelo controle, e tive que colocar na máquina o saco de viagem, a máquina fotográfica e o casaco para serem radiografados e sujeitar-me àquela fiscalização pessoal que é de uso, com aparelho electrónico de mão. Estava a passar a porta giratória e o infalível Júlio a entrar por ela, com intuito de me procurar.
Almoçámos em restaurante já previamente contratado, como tem sucedido sempre.
Enquanto seguíamos de autocarro, travou-se inesperadamente um diálogo com o Júlio a propósito da situação que se tem vivido em Hong-Kong (manifestações de protesto que duram há meses em prol da plenitude dos direitos, liberdades e garantias democráticos, conforme o compromisso das autoridades chinesas com os antigos colonos ingleses, no acto da restituição do território à China em 1997. Curiosamente, o Júlio pôs-se a expender o mesmo ponto de vista das autoridades de Pequim, ou seja, do Comité Central do Partido Comunista da China, ele que confessou não ser filiado nesse partido e ter demonstrado durante a viagem uma visão e hábitos culturais pouco conformes com a ortodoxia chinesa. E afirmava acaloradamente que os distúrbios que estavam a ocorrer naquele território eram inspirados pelos Estados Unidos da América e por outras potências ocidentais, interessadas em fomentar a desordem. Eu disse “curiosamente” e daí talvez não, porquanto a atitude de Júlio era, ao fim e ao cabo, demonstrativa de uma rigidez em matéria política, que tem na generalidade dos cidadãos chineses uma câmara de eco da propaganda governamental, ao passo que o seu catolicismo, conquanto bacoco e reaccionário, é sinal da abertura que os actuais líderes do Partido Comunista  instauraram em matéria económica, religiosa e a nível de certa vivência comunitária, como decorrência da abertura da economia ao mercado.
Após o almoço, embarcámos no célebre comboio magnético, a caminho do aeroporto, onde iríamos tomar o avião para Guilin. O percurso, de cerca de 30 kms., fez-se em cerca de 8 minutos, com uma ou duas paragens pelo meio. O comboio não teve tempo para atingir os 400 kms. horários que pode atingir, mas passou dos 300 kms. por hora, marcados no visor por cima da porta da carruagem. O comboio circula dentro de uma plataforma, mas não tem carris; é impelido pela força magnética.
No aeroporto de Shangai, despedimo-nos do Júlio, após as formalidades, que foram muito demoradas – um tormento que já vem sendo habitual e que desafia a proverbial paciência chinesa, mas lá consegui passar com toda a bagagem, incluindo o volume do edredão e travesseiras, um empecilho que passei a ter de suportar e que me obriga a andar com ele na mão até à entrada do avião, para além da bagagem que vai comigo no assento, pois o mesmo não me cabe na mala que vai no porão.
O voo até Guilin durou 02h30m. Chegámos mesmo ao fim da tarde. À nossa espera já lá estava o guia local, que disse chamar-se José, na tradução do seu nome chinês. É um jovem muito simpático; fala excelentemente bem o castelhano e é dotado de um formidável sentido de humor. Acompanhava-o um outro amigo, que também arranhava uma palavras na mesma língua. Enquanto viajávamos de autocarro até ao hotel, elucidou-nos sobre as características da terra.
O hotel onde ficámos, de 4 estrelas, como sempre tem sucedido, chama-se Lijian Waterfull Hotel; fiquei no 8.º andar, quarto n.º 68. Consegui telefonar para casa pelo WatsApp. Tenho tido sorte nos meus telefonemas diários, apesar de me terem advertido que na China essa rede social é proibida. Jantámos num restaurante fora do hotel. Após, quem quis passeou pelo centro comercial ao ar livre, estendendo-se por várias ruas, mesmo perto do hotel. Chuviscava. O clima, aqui, parece ser um pouco mais húmido, por força das montanhas que rodeiam a cidade, conferindo ao local um ar bucólico, que o rio, com suas margens arborizadas e ajardinadas e rústicos caminhos de terra, acentua. 

18 março 2020

 

China IV




Manhã cedo, quando a circulação de trânsito é ainda escassa, já estamos a rodar no autocarro em direcção à estação dos caminhos-de-ferro. É uma cidade ainda estremunhada esta, com raros trauseuntes, um ou outro autocarro, carros de limpeza. A Praça Tiananmen aparece de relance, ainda deserta, apenas povoada por meia dúzia de pessoas, talvez operários nas limpezas matinais, preparando o recinto para a multidão de turistas que a hão-de encher e animar de movimento.
Caminhamos por grandes avenidas; esta por onde circulamos chama-se Avenida da Paz Eterna (estes nomes chineses são uma delícia, transportando-nos para um mundo que não é deste mundo). É uma avenida inerminável, que praticamente vai dar à estação e ao longo da qual se pode dormir um bom bocado ao ritmo monótono do rodado do autocarro, uma soneca tão repousante e compensatória da forçada madrugada, que parece ter o sabor de uma paz, se não eterna, pelo menos abençoada. A grande chatice são as malas no termo da viagem, pois trazemos connosco toda a bagagem, enfileirando em bichas, passando com esforço portas automáticas e controles complicados, como nos aeroportos, a voz de Zhao Naipu chamando-nos à ordem e procurando juntar-nos com os braços abertos: Olá! Olá!…, correndo para aqui e para acolá: Olá! Olá!…, num curioso vocativo que me fez lembrar o barqueiro de Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno: “À barca, à barca, hou lá!”
Entrámos para a plataforma quando, no painel electrónico surgiu a hora do embarque e passada mais uma porta que se accionava com a introdução do bilhete. Despedimo-nos de Zhai Naipu e tomámos os nossos lugares numa carruagem confortável. A distância que iríamos percorrer até Chian cifrava-se em 1200 quilometros. Vencêmo-los em seis horas exactas. Isto, porque o comboio parou em, para aí, uma dezena de estações ou mais, que serviam outros tantos centros urbanos. O certo é que perdia tempo a reduzir a velocidade antes da paragem, na estação e novamente no arranque. De resto, a velocidade a que normalmente circulava era de 300 quilómetros por hora. O serviço de bar é que não achei famoso, pelo menos em termos de refeições. Nem sequer serviam chá, que tão bem me teria sabido, em vez do café a que estou habituado.
Durante a viagem, houve sempre sol e podiam observar-se com nitidez as paisagens que se iam desenrolando diante dos nossos olhos. Poucas zonas montanhosas e planícies a perder de vista. Os povoados que surgiam pareceram-me desolados, com os seus prédios tipo caixote, uniformizados, sucedendo-se em filas, com espaços entre eles pouco desafogados. Áreas cultivadas, sim, mas onde não se divisavam nem pessoas, nem animais, assim como não se viam casas rurais, que emprestam sempre às paisagens campesinas um carácter especial.
Enfim, chegámos a Xian e já tínhamos à nossa espera a guia chinesa que iria conduzir-nos durante o tempo que lá estivéssemos. Falava castelhano muito bem e disse chamar-se Sílvia. É claro que era a tradução do seu nome chinês. Quando lhe pedi para me escrever o seu nome original, fez um gatafunho no caderno, que me deixou perplexo. Durante o trajecto de autocarro até ao hotel, foi-nos expondo, de um modo geral, um pouco da história da China, da sua indústria e das suas populações e, em especial, da história da cidade. Xian tem 3.000 anos de existência e foi a capital durante metade das dinastias do império. O nome Xian significa Paz do Oeste (Xi – Paz; An – Oeste). A cidade situa-se no Norte, perto da Mongólia Interior e tem 10 milhões de habitantes. Ainda se vêem trechos das muralhas que a cercavam.
A chegada ao hotel – Grand Noble Hotel, onde me coube o quarto 1205 – foi só para descarregar as malas, que o tempo nestas viagens tem de ser aproveitado até ao segundo. De volta ao autocarro, visita ao Pagode do Grande Ganso Selvagem, dos finais do século VII. É uma construção em pirâmide, escalonada em andares que se vão estreitando até ao vértice. Fica no alto de uma pequena elevação à qual se ascende por uma ampla escadaria. Espaço de lazer envolvente, interessante, com árvores. Havia função à hora a que lá chegámos. Viam-se os monges budistas e os fiéis, através da larga porta, salmodiando numa toada repetitiva, ritmada por um tambor e um pequeno sino. Era vedada a entrada, evidentemente, e a tentativa de disparar as máquinas fotográficas para o interior era imediatamente sustada por vigilantes. Em redor, várias dependências com figuras de jade representando a vida de Buda.
Actualmente, após o degelo maoísta, conforme foi salientado pela Guia, existe liberdade de culto na China. Mao queria acabar com a religião.
De seguida, partimos para um outro templo, desta feita, da religião muçulmana - a Grande Mesquita de Xian, cujas origens remontam ao século VIII (dinasstia Tang), segundo o que foi posto a circular na altura da visita, mas o templo terá sido construído bastante mais tarde, durante a dinastia Ming (1368-1644), segundo o que leio num velho guia da Baedecker (1996), que adquiri com vista a uma frustrada viagem a Macau antes da retirada de Portugal do território, onde iria participar num seminário sobre liberdade de expressão e de imprensa. É possível, no entanto, que antes deste tenha exisitido um outro templo para prestar serviço religioso à comunidade muçulmana, que desde cedo se fixou nesta cidade integrada na Rota da Seda. O actual dispõe de uma entrada comprida com jardins e várias construções. O templo propriamente dito está construído no estilo das construções chinesas e não no estilo tradicional muçulmano, não dispondo de cúpula e minaretes. Porém, a decoração é muçulmana.
À hora em que por lá andávamos, os fiéis eram convocados para a oração por meio de aparelhagem sonora, naquele estilo de cantoria monótona.
Percorremos depois o exótico bairro muçulmano, muito concorrido, com uma imensidade de lojas e barracas e uma grande variedade de comidas, que enchiam o ambiente de desencontrados odores.
Após o jantar, fora do hotel, em local previamente combinado, saímos para uma visita nocturna à cidade, em autocarro, acompanhados pela guia, que jantou connosco. Por força, queria trazer-nos para esta visita, tendo-se fartado de elogiar o encanto da cidade à noite, com o espectáculo das suas luzes. E, de facto, o cenário é magnífico. Fizemos várias paragens pelo caminho para admirarmos o efeito cromático das luzes, em que se distinguiam cores variegadas combinando-se em fantásticas composições, em particular numa zona ribeirinha dominada por uma elevação, com os prédios e a vegetação em cascata. Também no centro, numa das principais praças, onde avultavam vários edifícios nobres, com trechos da muralha a surdirem por entre as luzes, havia espectáculos de luminotecnia e animação com bonecos, movendo-se num bailado nas varandas de um desses edifícios, ao som de música ambiente.
Esta animação prosseguia por outros sítios. Transportados para outro local, fomos dar a um centro com variadas ruas, uma delas muito comprida, pedonal, uma espécie de rua mágica (acho que era designada mesmo assim), cheia de iluminações de variada coloração e composição. Numerosas pessoas passeavam por ali, em grupo, descontraídamente, ao som de música ambiente. Havia uma parte da rua onde actuavam grupos musicais de jovens, que tocavam uma música mais frenética e mais consonante com as novas modas. Passeámos longamente por ali, antes de recolhermos ao autocarro, para regressarmos ao hotel. Perguntei à guia se aquele ambiente festivo se devia a alguma comemoração (estava-se em Outubro, em que é tradicional celebrar-se durante o mês o aniversário da revolução socialista) ou se era habitual. Ela respondeu que era sempre assim. Caso para estranhar.

O mais importante, porém, estava para vir: a visita ao museu que guarda os célebres guerreiros de terracota. Foi para essa visita, fundamentalmente, que Xian foi incluída no roteiro da China. Logo de manhã cedo foi para lá que nos dirigimos.
Que espectáculo mais fora do comum! Não há ninguém que, em face do que lhe é exposto, não fique boquiaberto. Trata-se, efectivamente, de um local imperdível, ao menos para quem vai à China. Ir lá de visita e não se deslocar a Xian é como ir à Índia e privar-se de ver o Taj Mahal. Multidões de turistas circundam demoradamente este recinto, debruçando-se sobre a balaustrada de ferro que lhe serve de resguardo e disparando as suas máquinas fotográficas. Abaixo do solo, alinhadas em trincheiras escavadas na terra, milhares de figuras em terracota compõem um exército completo, com soldados, generais, carros de combate e cavalos. Tudo em tamanho natural. As duas trincheiras da direita estão repletas de soldados e carros de combate com cavalos, uma delas com maior número de figuras (cerca de 6.000), ao passo que a outra tem cerca de 1.300; a terceira, com menor número de figuras (umas dezenas) , está ocupada apenas por oficiais de várias patentes e um carro de combate puxado por quatro cavalos. As armas - arcos, lanças e espadas de bronze – eram reais e terão sido utilizadas na guerra. Uma coisa espantosa é o realismo e o detalhe com que estas figuras, do século III a.C., foram concebidas: as figuras humanas, os animais, os carros de combate, assim como as indumentárias e os apetrechos. E mais curioso ainda: a individualidade de cada figura, como se cada uma delas representasse um estilo e uma personalidade própria.
Esta fantástica armada de terracota será um monumento funerário, formando provavelmente um conjunto com outros objectos que foram encontrados junto do mausoléu do primeiro imperador da China – Qin Shihuang – situado ali perto, e carecendo ainda de uma cabal ou, pelo menos, mais completa explicitação da sua simbologia. O conjunto, que representaria o exército e a guarda de honra do referido imperador, velando-o poderosamente na outra vida ou dando continuidade à sua missão guerreira, pois que os soldados estão em posição de combate, foi descoberto em 1974 por camponeses, quando procediam à perfuração de uma parede que estava soterrada. Desde então para cá, tem-se desenvolvido um intenso trabalho arqueológico de desenterramento das figuras (visto que terão sido originalment enterradas) e de restauro das mesmas, o que obriga a mil cuidados, um restauro que não é integral, pelo menos no que se refere à pintura das esculturas, que em algumas figuras expostas é evidenciada por alguns vestígios que permaneceram ao longo do tempo.
Por conseguinte, este museu singular é o próprio local arqueológico onde têm sido desenterradas e recuperadas as figuras.
O resto do tempo até ao almoço foi preenchido com a visita a uma oficina de terracota e de móveis pintados e com incrustações em jade e madrepérola. Uma oportunidade, evidentemente, para as compras turísticas, pese embora o facto de a visita ter realmente interesse pela qualidade e beleza de muitos objectos expostos.
Após o almoço num restaurante situado no mesmo edifício, marchámos para o aeroporto, onde, após as demoradas formalidades, apanhámos o avião para Shangai. Duas horas e meia de viagem, entre as 18,00h e as 20,30h. À nossa espera, lá estava o guia, um patusco gordinho e baixote, com curso superior de português. Durante a viagem, expendeu longamente o seu gosto pela nossa língua e cultura e deu mostras da sua erudição citando Camões e alguns autores mais. E não só pela nossa língua e cultura, mas também pela religião tradicional do nosso país, confessando-se católico, apostólico, romano, menino de coro e defensor da vertente mais conservadora da Igreja, incluindo a missa em latim.

09 março 2020

 

China III


Transposta a majestosa Porta Meridional, cá estamos na Cidade Proibida. Um ampla esplanada ou praça é atravessada pela Ribeira Dourada, cavalgada por cinco pontes em mármore, ricamente decoradas com esculturas. É uma ribeira cujo nome é auspicioso; ao contrário dos rios que levavam ao Inferno, com nomes escuros como Letes, Estige, Aqueronte, etc., esta ribeira, uma vez atravessada, conduz-nos ao fabuloso conjunto de galerias e palácios imperiais com denominações evocadoras de um mundo harmonioso e perfeito, que se devia parecer com o Olimpo. Uma cidade dentro da cidade, celestial, que o não seria tanto para a multidão de serventuários, ocupando uma extensão vastíssima, que assim o exigia a magnificência da corte imperial. Rezam as crónicas que mais de um milhão de metros quadrados, comportando cerca de 800 edifícios e 9.000 aposentos. Este conjunto de imóveis, que foi declarado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, constitui um belo e singular acervo da arquitectura palaciana chinesa. Escapou por pouco à fúria arrasadora da Revolução Cultural.
Os diversos pavilhões e palácios que se sucedem uns a seguir aos outros dispõem-se ao centro, ao longo de um eixo, que divide simetricamente a cidade em duas (aos lados, Este e Oeste, outros palácios menos importantes se perfilam).
O Pavilhão da Harmonia Suprema é o primeiro que se nos depara, transposta a grandiosa porta do mesmo nome, flanqueada por dois enormes dragões em bronze. No vasto recinto que o antecede, onde, pelos vistos, havia lugar para 100.000 pessoas, decorriam as cerimónias importantes, como a coroação, os casamentos imperiais, as celebrações do Ano Novo, etc. O imperador era transportado numa liteira e colocado no seu luxuoso trono, designado por Trono do Dragão, ao centro do pavilhão, em face do público. Tal o espectáculo que era necessário montar para que o poder aparecesse em todo o seu esplendor. Dezoito queimadores de incenso, em bronze, simbolizando as dezoito províncias da China, ardiam no último dos três escalonados terraços, ornados de ricas balaustradas de mármore, que ascendiam até à entrada onde estava o trono.
A parte da frente do recinto era ocupada pelos funcionários (cerca de 9.000, segundo diz o guia Zhao Naipu pelo walkie talkie; segundo o guia em forma de livro escrito em inglês que tenho comigo, o pessoal tinha que saudar o imperador curvando a cabeça até ao solo, por nove vezes). As bancadas laterais eram destinadas aos músicos, tangendo os seus instrumentos.
Há uma enorme massa de turistas vagueando por aqui, subindo ao terraço e rondando o pavilhão. Acotovelam-se junto do sítio onde o imperador aparecia no seu trono. Parece que o trono está lá, mas eu não o vi. Não tive paciência para tolerar aquelas cabeças apinhadas, espreitar por cima delas e fazer a ginástica que toda a gente fazia de levantar os braços com a máquina em punho e tirar uma foto. Aliás, para a maior parte dos turistas, incluindo os do grupo onde me integro, o importante parece ser dar ao gatilho da máquina e disparar. Atingir o alvo. Alguns, mal acabam de entrar num determinado local, já estão a metralhar, antes mesmo de se aperceberem da realidade do objecto ou do sítio. Pior: a sua voracidade de imagens, a sua azáfama de caça vai ao ponto de nem sequer escutarem o que diz o guia, tolhendo a vida a quem quer prestar atenção. Também fui um pouco apanhado por esse vício, mas não me deixei possuir de todo e algumas vezes resisti. Como desta vez em relação ao trono do imperador. Por causa dele e da mania da fotografia, uma professora de inglês na reforma perdeu-se do grupo. Foi necessário os dois guias – a portuguesa e o chinês – irem no seu encalço, agitando a bandeirinha portuguesa, porque pelo telemóvel não se conseguiu falar com ela, fosse por causa do barulho, fosse por outra razão. Felizmente, com a sua experiência de viagens, deixou-se ficar onde estava e, daí a pouco, regressava ao nosso seio, gingando o corpo nas pernas trôpegas, que todavia não a tolhiam de acompanhar o grupo, mesmo quando era preciso andar mais depressa. Era uma mulher afável, de olhos azuis, viúva de um advogado que falecera vitimado por um cancro do pulmão, devido ao abuso do tabaco, e por quem os olhos dela se lhe aguavam, quando falava dele.
Assim se passou ao Pavilhão da Harmonia Central, ou do Meio, ou ainda, creio, Pavilhão da Harmonia Perfeita (os dois primeiros são designações que encontro nos guias impressos; o último foi o que recolhi no meu caderno de apontamentos, a partir do que o guia Zhao Naipu nos ia transmitindo).
Este era o local onde o imperador recebia cumprimentos ou vassalagem dos seus funcionários mais próximos, e dava os últimos retoques antes de passar ao Pavilhão da Harmonia Suprema, onde decorriam, como vimos, as cerimónias oficiais.
O terceiro Pavilhão que vem a seguir tem a designação de Pavilhão da Harmonia Preservada. Era o local dos banquetes imperiais, onde, de facto, conviria preservar alguma harmonia.
Este conjunto de edifícios enquadrava-se no chamado Pátio Exterior e era destinado às representações do poder, exteriorizado por cerimoniais, fausto e grandiosidade e pela criação de uma atmosfera de transcendência, em que o imperador aparecia revestido de uma espécie de magnificência celeste.
Para além desse Pátio Exterior, seguindo a ordem da sucessão de edifícios que se nos depara após a entrada pela Porta Meridional ou Porta Tiananmen, mas inversa à disposição construtiva, que é Norte/Sul, fica o Pátio Interior, um espaço exclusivamente reservado ao imperador e demais membros da sua corte e onde era proibida a entrada de qualquer estranho, sob pena de execução sumária.
Esta face interior era formada por três palácios: o Palácio da Pureza Celestial, o Palácio da União entre o Céu e a Terra e o Palácio da Tranquilidade Terrena. Nomes que, só por si, dizem muito da concepção da vida imperial e da ancestral cultura chinesa. Rezam as crónicas que era no último dos palácios citados que as imperatrizes viviam e dormiam e, além disso, era lá que era passada a noite de núpcias. As outras noites ficariam à discrição dos imperadores, segundo penso, pois tinham à sua disposição uma gama variável, mas no geral muito diversificada e vasta de concubinas, que viviam em palácios próprios, situados na área imperial. Através das vidraças das janelas, os turistas curiosos tentam imaginar como seria o seu dia-a-dia, coscuvilhando móveis, utensílios vários e objectos de adorno, que se divisam no interior.
Por trás destes palácios, ou seja, a seguir a eles, segundo a orientação que vamos seguindo, situa-se o Jardim Imperial, um belo e aprazível espaço que é um modelo da arquitectura paisagística chinesa. Pequenos recantos, montículos arrelvados e variadas espécies arbóreas, onde se distinguem velhos pinheiros, bambus, ciprestes. Entre o arvoredo, outras construções com nomes igualmente magnânimos, como o Pavilhão da Paz Imperial. Num destes edifícios, se bem escutei Zhao Naipu, foi que o último imperador, o protagonista do filme de Bertolucci, fez a sua aprendizagem escolar.
E assim vamos fruindo o espaço neste dia de sol, imaginando as delícias de um piquenique em qualquer destes recantos, enquanto nos vamos encaminhando para a porta de saída, situada do lado Norte.
Após o repasto chinês num restaurante de Pequim e um cafèzinho expresso tomado numa cafetaria ao lado, da cadeia Starbucks, que é uma multinacional (já o vimos noutras partes do planeta, nomeadamente na Índia, no Dubai e em Manhattan), pois os restaurantes chineses apenas servem chá, de ordinário durante a refeição, já vamos de largada para outra visita. Desta feita, o alvo da nossa viagem é o célebre Templo do Céu.
Mal descemos do autocarro num largo situado na vizinhança, deparou-se-nos, no cimo de uma elevação, um curioso monumento, que tenho a impressão que se avista de muitas partes da cidade, dada a sua localização altaneira. A área circundante é um amplo espaço de lazer com esplanadas arborizadas e mesas para piquenique. Muitos chineses por aqui passeiam e se divertem, com destaque para os reformados (homens e mulheres), que, em grande número, sentados em bancadas e muros baixos, pincipalmente a todo o comprimento de um Longo Corredor, semelhante ao que já encontrámos no Palácio de Verão, se dedicam ao jogo de cartas com entusiasmo e e grande arruído. Pelos vistos, segundo informação do guia, que interpelei, é um jogo muito comum na China e o principal divertimento dos reformados (a reforma é aos 60 anos), depois da obrigação de cuidarem dos netos.
Dos netos?”, reagi espantado.
Sim, reafirmou ele.”
Então não são as creches?, os infantários? Não é o Estado que se encarrega obrigatoriamente da ocupação e educação das crianças?”
Não é obrigatório que as crianças vão para as creches e os infantários. Depende da vontade dos pais, respondeu”.
Este é mais um exemplo da viragem da China. É claro que não se tratará apenas de uma maior liberdade educativa em benefício dos parentes da criança e da consequente abdicação, por parte do Estado, do monopólio da educação e ensino a todos os níveis, mas também (e principalmente?), da libertação estadual do correspondente ónus financeiro.
Mas retornemos ao Templo do Céu, que se avista mesmo na nossa frente, como estava dizendo. O monumento que ressalta na sua beleza invulgar é o principal de três templos taoístas. O taoísmo é uma religião baseada em grane medida nos ensinamentos e na filosofia de Lao Tse, um poeta que viveu no século VI a.C. a quem é atribuído o livro de poemas Tao Te King, que significa “livro da Via e da Virtude”, um livro que, sob muitos aspectos, é admirável pelo esforço que faz na conciliação dos contrários, na exaltação do fraco em vez do forte, da suavidade em vez da rudeza, do simples em vez do complexo, do humilde em vez do poderoso, como via ou o caminho para atingir a perfeição, a paz e a tranquilidade, a sublimidade celestial, mas que também é descoroçoante no exaltar a quietação, a inacção, por vezes até a ignorância e o nada [“Rejeita a sabedoria e o conhecimento,/o povo tirará assim cem vezes mais proveito” (…) e noutro poema: “Quem pouco sabe terá o conhecimento seguro, Quem muito sabe ficará na dúvida (…)”], (Tao Te King, Editorial Estampa, 2ª edição, 1977)
Uma escadaria majestosa em três lanços, com uma tríplice balaustrada em mármore, conduz ao principal dos templos a que me vinha referindo. Tem uma forma cónica e está coberto por um triplo tecto, cujos círculos se vão estreitando para cima e terminando por um pináculo com uma bola dourada. Telhas de um azul purpúreo cobrem o triplo tecto, conferindo-lhe um aspecto gracioso. Estamos em face da denominada Sala da Oração pelas Boas Colheitas. Era aqui que o imperador vinha rezar, todos os anos, pelas boas colheitas, no início da Primavera, e pelos frutos e cereais obtidos, no Outono.
O espaço em redor é um vasto círculo, de chão marmóreo, cercado pela referida balaustrada, interrompida no cimo pelos vários lanços de escadas correspondentes aos vários acessos que conduzem ao recinto – Norte, Sul, Este e Oeste. O que foi utilizado por nós leva directamente à Sala de Oração pelas Boas Colheitas.
Os outros templos situados na área são a Abóbada Celestial Imperial e o Altar Circular, ligado por um arruamento empedrado à Sala da Oração pelas Boas Colheitas. O primeiro apresenta uma construção similar à deste último templo, embora de dimensão mais reduzida e tem como curiosidade o muro que o cerca, conhecido pelo Muro do Eco, por permitir que uma voz emitida em qualquer parte dele seja ouvida no lado oposto ou em qualquer outro ponto. O Altar Circular dispõe de uma simbologia especial à volta do número 9 e seus múltiplos (9, 27, 81), patente no número de degraus da escadaria que lhe dá acesso, na balaustrada e na decoração interior.
É curioso constatar que a simbologia do número 9 e seus múltiplos está ligada ao sagrado de várias religiões e ao ritual de certas práticas iniciáticas, bem como transparece no simbolismo de certas obras de arte, das quais A Divina Comédia de Dante é um exemplo flagrante. Nove é o número de círrculos infernais; nove é um múltiplo de 3, sendo que o poema de Dante está construído em tercetos.
Do Templo do Céu partimos para outro local de Pequim, para um teatro, onde assistimos a um espectáculo teatral de Kung Fu. Contava a história de uma criança entregue aos cuidados de um monge de Kung Fu, o qual, através de ilustrações e exercícios próprios desta arte marcial, de uma incrível destreza e acrobática espectacularidade, ia ministrando ensinamentos sobre o domínio do corpo e da mente, sobre a arte de vencer resistências e dificuldades e de se superar a si próprio, expondo toda uma filosofia de vida.
Dali fomos para o jantar, num restaurante situado numa das grandes avenidas de Pequim. O jantar foi constituído por, entre outras coisas, porque a comida chinesa consta de uma variedade de pratos, como é sabido, pato à pequinense. Munidos de branquíssimos e brunidos aventais e armados de facas afiadíssimas, lá estavam dois empregados cortando aplicadamente as aves já cozinhadas em pequenas lascas, como é de uso na comida chinesa, por causa da não utilização da faca e do garfo. Faziam-no de forma extremamente metódica e expondo-se ostensivamente à curiosidade dos turistas, que, como é de prever, disparavam as suas máquinas fotográficas e telemóveis com grande voracidade gastronómica.
O mais curioso é este facto que nos foi contado pelo guia e que causa consternação: os patos, enquanto vivos, são submetidos a uma alimentação especial para crescerem rapidamente e para perderem a gordura que vão acumulando, são metidos em capoeiras alongadas com o chão forrado de tijolos aquecidos por meio de um qualquer sistema térmico, de forma a obrigarem os pobres animais a moverem-se constantemente de um lado para o outro. Cruel, não? E de sinistra imaginação glutona.




29 janeiro 2020

 

China II


Manhã cedo, bafejados por um sol outonal, vamos a caminho de um dos locais de Pequim mais vibrantes de expectativa no imaginário do forasteiro – a Praça Tiananmen, através da qual se acede à Cidade Proibida. Por avenidas já pejadas de carros, o guia vai dissertando sobre costumes antigos e factos da história chinesa, aproveitando a lentidão do trânsito. Entre outras coisas sobre as quais divaga de uma forma minuciosa, como o calendário tradicional chinês e práticas rurais ancestrais, alude ao Palácio Imperial, na Cidade Proibida, construído na dinastia Ming (1406-1420), após ter sido derrubado o domínio Mongol, que se havia iniciado por meio de conquistas paulatinas, onde pontificara o célebre Genghis Khan, e fora ultimado pelo seu neto Kublis Khan, que inaugurou a dinastia Yuan.
De 1420 a 1911, sucederam-se 11 imperadores chineses e duas dinastias – a Ming e a Qin. Em 1911, a dinastia Qin foi destronada pelo movimento nacionalista que estabeleceu a República da China, cujo primeiro presidente foi Sun Yat Sen, figura cimeira daquele movimento e fundador do Kuomitang. Teve aí origem a China moderna; não só o regime imperial foi desmantelado e substituído pela República, como tiveram fim muitas práticas sociais que ostentavam marcas de servidão. Por exemplo, o costume de enfaixar os pés das mulheres desde tenra idade, uma prática que sacrificava a comodidade do andar, a saúde e a higiene femininas a um ideal de beleza e submissão - o andar saltitante, aliado a graça e fragilidade das mulheres, despertando nos homens impulsos protectores (veja-se o retrato horrível que nos dá Jung Chang da sua avó e dos tormentos que sofria por causa dessa prática em Cisnes Selvagens, 14.ª edição, Quetzal editores, p. 26).
Outra prática ou instituição que foi abolida e a que o guia faz uma mais demorada referência foi a dos eunucos. Normalmente estes homens castrados, que estavam ao serviço do imperador, provinham de meios pobres. Os pais escolhiam um dos filhos para eunuco, encontrando aí uma forma de promoção social e de sustento desse membro da família; era uma boca que deixava de ser alimentada pela família e passava para a mesa farta do palácio imperial. Muitos dos eunucos estavam muito próximos do imperador; eram guardas das esposas e concubinas e desempenhavam outros serviçosn de intimidade ou proximidade imperial. Daí possivelmente uma das razões para a castração. A oportunidade para a escolha desse modo de vida surgia entre os nove e os quinze anos. O candidato tinha que se submeter a uma operação para lhe serem removidos os órgãos genitais e havia grande percentagem de mortos. Tinham dificuldade em urinar e, por vezes, o cheiro nos sítios onde dormiam era nauseabundo.
Entretanto, chegámos à muito aguardada Praça Tiananmen. Aí estava ela, na manhã ensolarada, a regurgitar de turistas. Levas e levas de turistas, circulando disciplinadamente, sob o olhar atento e o acicate dos agentes de polícia, que espevitavam constantemente o andamento dos passeantes, a fim de evitarem demoras e engarrafamentos. Ali não se queriam basbaques. Era sempre a andar e a ver os monumentos situados nas partes laterais de pescoço torcido.
O guia já lá vai à frente, erguendo a bandeira portuguesa no meio de dezenas de bandeiras de outras nacionalidades, incluindo a inconfundível bandeira da China (vermelha com uma estrela rodeada de quatro outras mais pequenas, todas amarelas, colocadas no canto superior esquerdo); o grupo vai-se fragmentando, por efeito de ligeiros atrasos de um ou outro membro que se demora a contemplar este ou aquele monumento ou que aproveita para sacar uma foto, ou ainda por se ter enleado em desfiles de outros grupos que cruzam o mesmo espaço e forcejam por passar adiante, arremetendo contra quem passa, e o retardatário, sempre com o olho fito na bandeira verde-rubra, lá vai estugando o passo para reenfileirar no grupo.
Grande espaço este, de quase um quilómetro de comprimento (880 metros) e passante de meio quilómetro de largura (550 metros), repleto de pessoas em movimento, orientando-se em várias direcções, acentuando no turista que vai integrado num grupo o sentimento de confusão e receio de se perder.
Lá na frente, o guia, através do walkie talkie, vai referindo os monumentos que se vão perfilando à nossa esquerda e à nossa direita (Leste e Oeste), considerando que entrámos pelo lado Sul, onde se encontra a Torre Quiánmen e uma das portas mais antigas de entrada no recinto, outrora amuralhado, do tempo da dinastia Ming. Vamos, pois, em direcção ao Norte e lá está o mausoléu de Mao Tse Tung, um monumento situado no centro da praça, para o qual se encaminha uma interminável fila de turistas, de várias centenas de metros, facto só por si desencorajador de uma visita, se outras razões não houvesse para darmos ao desprezo a contemplação da múmia. O que lá está é a carcaça de um homem extinto empalhada por dentro. Ao diabo esta divinização estalinista dos chamados heróis do povo! À frente da mastaba, lá está o monumento aos Heróis do Povo, que mal se enxerga do sítio por onde vamos andando, e onde, segundo informa o guia, se pode ler a inscrição Os Heróis do Povo são imortais. Nem sempre. Às vezes, o povo também acaba por os derrubar do plinto onde os altearam. Qual glória eterna, qual carapuça! Aí está também a Assembleia Popular
Segue-se o Museu Nacional da China, do lado direito da praça, considerando o sentido em que vamos e, lá ao fundo, depois de caminhada intensa, a Porta da Paz Celestial, onde finalmente repousamos. É ela que nos dá acesso ao paraíso, à cidade dos eleitos ou à Cidade Proibida. Proibida, justamente porque não tinham direito de nela entrar as pessoas que não pertenciam à corte do Imperador. Foi da Porta da Paz Celestial que Mao Tse Tung proclamou a República Popular da China em 1 de Outubro de 1949. O seu retrato lá está, bem ostensivo, no centro do muro, por baixo do balcão onde teve lugar a referida proclamação.
Esta foi uma das grandes efemérides da história da China moderna que se desenrolou nesta grande praça. Uma outra mais recente acode, de certeza, à memória de qualquer turista minimamente informado: o massacre de 4 de Junho de 1989. Tanques e camiões do Exército invadiram a praça ocupada por várias dezenas de milhar de estudantes, operários e intelectuais, que se vinham manifestando pacificamente, sob a liderança dos primeiros, em vários locais de Pequim, exigindo mais democracia e a instauração de um regime que respeitasse os direitos fundamentais acolhidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. Pois foram massacrados sem dó nem piedade, durante a noite, nesta praça onde as luzes foram apagadas, e trucidados pelas lagartas dos tanques, que rolaram por cima deles com total indiferença, e alvejados pelas metralhadoras. Morreram muitos, na ordem dos milhares, sem que nunca se soubesse o número exacto. Mortos pelo Exército da República Popular da China, exactamente quarenta anos passados sobre a proclamação de 1 de Outubro, que anunciou a libertação do povo chinês.
Imaginar o que seria o pandemónio e o terror dessa noite, com pessoas a fugirem desorientadas à aproximação inexorável dos tanques, esbarrando-se umas nas outras, gritando espavoridas, ficando umas esmagadas e outras caídas no recinto, é tarefa quase impossível no meio da multidão de turistas que cruza este espaço em rebanhos que seguem atrás das bandeirinhas dos guias. Por sinal, o timoneiro que comandava os destinos do povo chinês, nessa altura, era Deng Xiaoping, um veterano comunista em projecção após a morte de Mao que decisivamente contribuiu para pôr fim às atrocidades da Revolução Cultural, ele próprio uma grande vítima dela, bem como membros da sua família. A ele se devem as reformas profundas que inauguraram na China um novo período (“uma segunda revolução”, como lhe chamou), instaurando a designada “economia de mercado socialista” e abrindo o país às relações internacionais (foi o primeiro presidente a visitar os Estados Unidos). O impulso reformista (outros chamar-lhe-ão revisionista) não lhe tolheu, todavia, o velho reflexo comunista ou estalinista de reprimir duramente qualquer manifestação cívica e política favorável aos mais elementares direitos democráticos.
Jung Chang, no livro já citado Cisnes Selvagens, que se lê como um romance e que é, simultaneamente, biografia de uma família, atravessando várias gerações, autobiografia e história da China contemporânea, diz que nem queria acreditar que o político que pôs fim ao caos e à violência indiscriminada da Revolução Cultural, que permitiu a reabilitação definitiva dos seus pais, militantes comunistas desde a juventude, na década de 40, e a saída dela da China, beneficiando de uma bolsa de estudos, por ter sido a melhor aluna em inglês na licenciatura, para estudar numa universidade inglesa, foi o responsável por aquele horrível massacre. “Teria aquilo verdadeiramente sido ordenado pelo mesmo homem que aos meus olhos e aos de tantos outros aparecera como um libertador?” (p. 516).
É assim: o medo de perder o pé no poder leva, por vezes, aos actos mais insanos. Abertura sim, mas sem destapar completamente a panela, não vá a pressão que salta para fora tornar-se incontrolável e levar tudo na frente, como sucedeu com Gorbachov.
Não sei se era nisto que pensavam os meus ocasionais companheiros de viagem, quando atravessávamos a Praça Tiananmen. Sei é que, chegados ao fundo, junto ao retrato de Mao Tse Tung, o guia (em que pensaria ele, que não referiu nada disto que escrevo?) propôs que se tirasse uma fotografia em grupo, sob a imagem tutelar do antigo timoneiro. O fotógrafo, evidentemente, já lá estava.





14 janeiro 2020

 

A sombra que perpassa sobre o mundo actual


Um dos aspectos mais chocantes do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani mandado executar por Trump é a motivação que parece estar-lhe subjacente: o objectivo de desviar as atenções do processo de impeachment que presentemente está suspenso, antes de ser presente ao Senado para julgamento, aguardando a possibilidade de se produzirem testemunhos do pessoal da Casa Branca sabedor dos factos que desencadearam a investigação e que o próprio Trump interditou de depor, e a aproximação de eleições presidenciais, a realizarem-se no mês de Novembro, que o actual presidente pretende disputar, com vista a um segundo mandato. Foi, aliás, a pensar nelas que Trump se envolveu nos factos, inquestionavelmente condenáveis e suficientemente gravosos para merecerem uma destituição do cargo, que deram origem ao processo. Note-se que um dos desabafos do presidente logo a seguir ao assassinato, foi o de censurar a atitude daqueles congressistas (os democratas, evidentemente) que impulsionaram e pretendem prosseguir com o processo de impeachment: « Vejam bem», disse mais ou menos, «andam a discutir no Congresso uma coisa tão ridícula, e eu a braços com tão magno problema!».
Portanto, trata-se de uma reiteração de processos condenáveis, criminosos, o relativo à Ucrânia e este do assassinato, traduzido num verdadeiro acto de guerra levado a cabo sem consentimento do Congresso e envolvendo, por isso, a possibilidade de uma guerra de consequências incalculáveis, que para já parece arredada, e, no mínimo, um agravamento das condições explosivas que se vivem no Médio Oriente, tudo por simples manobra calculista e profundamente egoísta – a ideia de lançar uma nuvem sobre o processo de impeachment e de obter vantagem nas próximas eleições.
Assim está o mundo entregue à bicharada pelas mãos de homens pusilânimes e indecorosos como Trump e outros, à frente de nações poderosas, que se lhe equiparam nos lances criminosos e na falta de escrúpulos.

15 dezembro 2019

 

Viagem à China I






Visitar a China é praticamente uma banalidade, nesta época em que o turismo de massas devassa todos os cantos do mundo e não sabe que mais inventar para satisfazer a curiosidade esquipática do turista mais maluquinho de viagens. A China, por outro lado, abriu-se ao mundo, através de uma ostensiva liberalização económica que a integra, sem problemas, na trama das relações capitalistas mundiais, incentivando o turismo em larga escala em moldes perfeitamente idênticos aos do Ocidente e permitindo que os seus nacionais saiam do país, quer em turismo, quer para fixação no estrangeiro. Por isso, a China perdeu uma grande parte da sua aura de mistério, sobretudo o que lhe vinha da sua singularidade dos tempos revolucionários, que aguçava a curiosidade de muitos turistas de querer descobri-la. Mesmo assim, a China é um país imenso do Continente Asiático que conserva uma identidade própria, uma certa impenetrabilidade do ponto de vista da sensibilidade do homem ocidental e a pertença a um mundo outro que é (era) o distante e sonhado Oriente. Distância que, apesar de tudo, é muito sensível mesmo para quem viaja de avião, nas suas 15 ou 16 horas cumpridas num daqueles acanhados espaços entre os bancos da classe económica, pese embora o facto de a minha viagem ter sido efectuada na excelente Companhia aérea dos Emirates em duas etapas, com intervalo de cerca de 2 horas entre elas (Lisboa-Dubai; Dubai-Pequim, na ida; Hong Kong-Dubai; Dubai-Lisboa, na volta).
Pequim é uma cidade que me pareceu imensa, de grandes avenidas e prédios ao alto, numa arquitectura que me pareceu bastante estandardizada, mas que, nos prédios mais recentes, busca formas mais ousadas esteticamente para fugir à vulgaridade e à uniformidade, avenidas que sobretudo percorri de autocarro, uma que outra vez mergulhando, quando assim calhava, em ruas mais tradicionais, de prédios baixos, de aspecto popular, casas de traça antiga, dispostas interiormente em quadrado, ruas mais buliçosas de pessoas deambulando, atravancadas de veículos e pequenos comércios, as chamadas hutong . Tive pena de não percorrer a pé estas e outras ruas semelhantes que não vi, andar por certas avenidas e ter uma outra perspectiva dos prédios, do movimento, ver as pessoas e senti-las no seu quotidiano, mas em vez disso, vi quase sempre carros entupindo as grandes avenidas, andando lentamente, como em qualquer grande metrópole do Ocidente, multidões de carros de grandes marcas, vendo-se em filas intermináveis, mesmo no dia em que cheguei, um domingo ao fim da tarde, levando imenso tempo a percorrer a distância do aeroporto ao hotel. Um dia perdido nas formalidades do desembarque, no trânsito e no alojamento.
O tempo que permaneci nesta grande capital foi para ter uma imagem dos sítios turísticos mais emblemáticos: a muralha da China, claro!, colossal, começada a construir no século V a.C. (informação do guia que nos acompanhou) e continuada ao longo de séculos. Inicialmente foram várias as muralhas edificadas (sete, nas fronteiras de vários principados, para proteger o território dos aguerridos vizinhos, principalmente dos Hunos, posteriormente unificadas numa única muralha com a unificação da China no tempo da dinastia Qin, no século III a.C. Actualmente abrange oito províncias da China nos seus seis mil quilómetros de extensão. 
Empinando-se pelas escarpadas encostas, é coroada por fortalezas nos pináculos, cada cem metros, e dispõe de torres de vigia de dez em dez quilómetros. Obra gigantesca, de quase inconcebível esforço humano, actualmente qualificada como fazendo parte do Património Mundial da Humanidade, nela pereceram milhares de trabalhadores ao longo de centúrias.
Neste dia ensolarado, batido por um forte vento enregelante que sopra da Mongólia, a muralha está a ingurgitar de turistas, muitos deles autóctones. Uma lufada apanhou-me desprevenido e arrancou-me o boné da cabeça com tal rapidez, que mo levou sem que eu o pudesse capturar, voando pelos ares e pousando no galho de uma árvore, na ravina. Fiquei a contemplá-lo, desolado, até que ele voltou a desprender-se no seu voo para locais ignotos, deixando-me à mercê das navalhadas gélidas do vento. Adeus, boné, para sempre! Com uns anos que levas de uso na minha cabeça, transportas um pouco de mim para ficar na China.
A muralha ficou para trás com o almoço num dos restaurantes locais, e já vamos a caminho de outra preciosidade turística: o Palácio de Verão do Imperador. Trata-se de um vasto complexo de edifícios enquadrado pelo lago Kunming, em grande parte artificial, mas já existente no século XII, e pela Colina da Longevidade, erguida com a terra escavada para a construção do lago, em cujo topo se eleva um elegante pagode budista – o Pagode da Fragrância Budista, que domina toda a paisagem em redor. 
O palácio, como o nome indica, era a residência de Verão da família imperial, datando de meados do século XVIII e dispondo de vários pavilhões: do despacho, da residência, da imperatriz, da concubina, etc. No pátio fronteiro ao edifício principal, encontra-se uma estátua em bronze de um estranho animal, a fazer lembrar certos bicharocos fantasmagóricos da Rosa Ramalho, o qual, segundo a lenda, só aparecia na Terra nos tempos de harmonia.
O lago, de grandíssimas proporções, é atravessado por várias pontes, das quais a mais grandiosa e de belo efeito cénico é a Ponte dos Dezassete Arcos, destacando-se ainda, ao longe, em relação ao complexo de edifícios, a ponte denominada Bossa de Camelo, pedonal, de um único arco a fazer lembrar a saliência do dromedário. É ainda de mencionar o chamado Barco de Mármore, uma construção extravagante que repousa na água do lago e que foi restaurada sob mando da imperatriz Cixi nos finais do século XIX, quando ali estabeleceu residência, tendo usado para o efeito vastas somas que eram destinadas à marinha naval chinesa.
Uma das atracções do Palácio é o chamado Longo Corredor – um corredor enorme, de várias centenas de metros, situado no exterior. Aberto dos lados, num sistema de colunas, sobre as quais repousa um tecto em traves de madeira, ostenta pinturas com cenas da vida chinesa na parte interior, recobrindo as colunas e as referidas traves.
O espaço exterior do palácio está actualmente afectado ao uso público como espaço de lazer, estando a navegação no lago acessível ao público entre os meses de Abril e Outubro. Nesse período, há carreiras de barcos para percorrer toda a sua vasta área, podendo também fretar-se barcos de recreio, com pedais. Aliás, nesta altura do ano da nossa viagem, havia grande animação turística no espaço exterior do palácio, alimentada sobretudo por turistas internos, onde se destacavam grandes grupos de jovens, com todo o ar de fazerem parte de excursões escolares. Fora da área do palácio, em frente à porta de entrada, estendiam-se várias tendas de comidas, também muito concorridas, nas quais avultavam petiscos repulsivos à sensibilidade ocidental, como pequenas espetadas de escorpiões, insectos, morcegos, etc. - um tipo de comércio de rua muito vulgar na China, em locais de ajuntamento de pessoas.
Esta etapa da viagem finalizou com uma visita ao parque olímpico, uma área soberba de construções de grande efeito, em que domina o célebre Ninho de Pássaro, o edifício do estádio onde decorreram as imponentes cerimónias de recepção das delegações olímpicas e de encerramento dos jogos, transmitidos pela televisão, em 2008 (Olimpíadas de Verão). Obra de arquitectos suíços, com a colaboração de arquitectos chineses, tem a forma de um ninho no seu intrincado entrançado exterior de fios de aço.
O guia chinês - Zhao Naipu (curso superior de línguas, com predomínio do castelhano, aprendeu também português numa estadia de dois anos em Moçambique; tratávamo-lo por Gustavo, que dizia ser a tradução do seu nome em português) – atira números mirabolantes: a construção do estádio importou em quatrocentas mil toneladas de aço; o seu custo, em quatrocentos e oitenta milhões de dólares; a sua capacidade estende-se a cem mil pessoas.
De entre as construções no enorme recinto, avulta a da piscina, um amplo quadrado azul, iluminado na noite, onde outras luzes emprestam ao local uma variegada paleta de cores. Referindo-se à piscina e ao estádio em forma de ninho, o guia elucida que simbolizam, respectivamente, a terra e o céu. Uma obra que sobretudo é um símbolo das altíssimas aspirações chinesas a destacar-se como  primeira potência mundial.

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