18 março 2020

 

China IV




Manhã cedo, quando a circulação de trânsito é ainda escassa, já estamos a rodar no autocarro em direcção à estação dos caminhos-de-ferro. É uma cidade ainda estremunhada esta, com raros trauseuntes, um ou outro autocarro, carros de limpeza. A Praça Tiananmen aparece de relance, ainda deserta, apenas povoada por meia dúzia de pessoas, talvez operários nas limpezas matinais, preparando o recinto para a multidão de turistas que a hão-de encher e animar de movimento.
Caminhamos por grandes avenidas; esta por onde circulamos chama-se Avenida da Paz Eterna (estes nomes chineses são uma delícia, transportando-nos para um mundo que não é deste mundo). É uma avenida inerminável, que praticamente vai dar à estação e ao longo da qual se pode dormir um bom bocado ao ritmo monótono do rodado do autocarro, uma soneca tão repousante e compensatória da forçada madrugada, que parece ter o sabor de uma paz, se não eterna, pelo menos abençoada. A grande chatice são as malas no termo da viagem, pois trazemos connosco toda a bagagem, enfileirando em bichas, passando com esforço portas automáticas e controles complicados, como nos aeroportos, a voz de Zhao Naipu chamando-nos à ordem e procurando juntar-nos com os braços abertos: Olá! Olá!…, correndo para aqui e para acolá: Olá! Olá!…, num curioso vocativo que me fez lembrar o barqueiro de Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno: “À barca, à barca, hou lá!”
Entrámos para a plataforma quando, no painel electrónico surgiu a hora do embarque e passada mais uma porta que se accionava com a introdução do bilhete. Despedimo-nos de Zhai Naipu e tomámos os nossos lugares numa carruagem confortável. A distância que iríamos percorrer até Chian cifrava-se em 1200 quilometros. Vencêmo-los em seis horas exactas. Isto, porque o comboio parou em, para aí, uma dezena de estações ou mais, que serviam outros tantos centros urbanos. O certo é que perdia tempo a reduzir a velocidade antes da paragem, na estação e novamente no arranque. De resto, a velocidade a que normalmente circulava era de 300 quilómetros por hora. O serviço de bar é que não achei famoso, pelo menos em termos de refeições. Nem sequer serviam chá, que tão bem me teria sabido, em vez do café a que estou habituado.
Durante a viagem, houve sempre sol e podiam observar-se com nitidez as paisagens que se iam desenrolando diante dos nossos olhos. Poucas zonas montanhosas e planícies a perder de vista. Os povoados que surgiam pareceram-me desolados, com os seus prédios tipo caixote, uniformizados, sucedendo-se em filas, com espaços entre eles pouco desafogados. Áreas cultivadas, sim, mas onde não se divisavam nem pessoas, nem animais, assim como não se viam casas rurais, que emprestam sempre às paisagens campesinas um carácter especial.
Enfim, chegámos a Xian e já tínhamos à nossa espera a guia chinesa que iria conduzir-nos durante o tempo que lá estivéssemos. Falava castelhano muito bem e disse chamar-se Sílvia. É claro que era a tradução do seu nome chinês. Quando lhe pedi para me escrever o seu nome original, fez um gatafunho no caderno, que me deixou perplexo. Durante o trajecto de autocarro até ao hotel, foi-nos expondo, de um modo geral, um pouco da história da China, da sua indústria e das suas populações e, em especial, da história da cidade. Xian tem 3.000 anos de existência e foi a capital durante metade das dinastias do império. O nome Xian significa Paz do Oeste (Xi – Paz; An – Oeste). A cidade situa-se no Norte, perto da Mongólia Interior e tem 10 milhões de habitantes. Ainda se vêem trechos das muralhas que a cercavam.
A chegada ao hotel – Grand Noble Hotel, onde me coube o quarto 1205 – foi só para descarregar as malas, que o tempo nestas viagens tem de ser aproveitado até ao segundo. De volta ao autocarro, visita ao Pagode do Grande Ganso Selvagem, dos finais do século VII. É uma construção em pirâmide, escalonada em andares que se vão estreitando até ao vértice. Fica no alto de uma pequena elevação à qual se ascende por uma ampla escadaria. Espaço de lazer envolvente, interessante, com árvores. Havia função à hora a que lá chegámos. Viam-se os monges budistas e os fiéis, através da larga porta, salmodiando numa toada repetitiva, ritmada por um tambor e um pequeno sino. Era vedada a entrada, evidentemente, e a tentativa de disparar as máquinas fotográficas para o interior era imediatamente sustada por vigilantes. Em redor, várias dependências com figuras de jade representando a vida de Buda.
Actualmente, após o degelo maoísta, conforme foi salientado pela Guia, existe liberdade de culto na China. Mao queria acabar com a religião.
De seguida, partimos para um outro templo, desta feita, da religião muçulmana - a Grande Mesquita de Xian, cujas origens remontam ao século VIII (dinasstia Tang), segundo o que foi posto a circular na altura da visita, mas o templo terá sido construído bastante mais tarde, durante a dinastia Ming (1368-1644), segundo o que leio num velho guia da Baedecker (1996), que adquiri com vista a uma frustrada viagem a Macau antes da retirada de Portugal do território, onde iria participar num seminário sobre liberdade de expressão e de imprensa. É possível, no entanto, que antes deste tenha exisitido um outro templo para prestar serviço religioso à comunidade muçulmana, que desde cedo se fixou nesta cidade integrada na Rota da Seda. O actual dispõe de uma entrada comprida com jardins e várias construções. O templo propriamente dito está construído no estilo das construções chinesas e não no estilo tradicional muçulmano, não dispondo de cúpula e minaretes. Porém, a decoração é muçulmana.
À hora em que por lá andávamos, os fiéis eram convocados para a oração por meio de aparelhagem sonora, naquele estilo de cantoria monótona.
Percorremos depois o exótico bairro muçulmano, muito concorrido, com uma imensidade de lojas e barracas e uma grande variedade de comidas, que enchiam o ambiente de desencontrados odores.
Após o jantar, fora do hotel, em local previamente combinado, saímos para uma visita nocturna à cidade, em autocarro, acompanhados pela guia, que jantou connosco. Por força, queria trazer-nos para esta visita, tendo-se fartado de elogiar o encanto da cidade à noite, com o espectáculo das suas luzes. E, de facto, o cenário é magnífico. Fizemos várias paragens pelo caminho para admirarmos o efeito cromático das luzes, em que se distinguiam cores variegadas combinando-se em fantásticas composições, em particular numa zona ribeirinha dominada por uma elevação, com os prédios e a vegetação em cascata. Também no centro, numa das principais praças, onde avultavam vários edifícios nobres, com trechos da muralha a surdirem por entre as luzes, havia espectáculos de luminotecnia e animação com bonecos, movendo-se num bailado nas varandas de um desses edifícios, ao som de música ambiente.
Esta animação prosseguia por outros sítios. Transportados para outro local, fomos dar a um centro com variadas ruas, uma delas muito comprida, pedonal, uma espécie de rua mágica (acho que era designada mesmo assim), cheia de iluminações de variada coloração e composição. Numerosas pessoas passeavam por ali, em grupo, descontraídamente, ao som de música ambiente. Havia uma parte da rua onde actuavam grupos musicais de jovens, que tocavam uma música mais frenética e mais consonante com as novas modas. Passeámos longamente por ali, antes de recolhermos ao autocarro, para regressarmos ao hotel. Perguntei à guia se aquele ambiente festivo se devia a alguma comemoração (estava-se em Outubro, em que é tradicional celebrar-se durante o mês o aniversário da revolução socialista) ou se era habitual. Ela respondeu que era sempre assim. Caso para estranhar.

O mais importante, porém, estava para vir: a visita ao museu que guarda os célebres guerreiros de terracota. Foi para essa visita, fundamentalmente, que Xian foi incluída no roteiro da China. Logo de manhã cedo foi para lá que nos dirigimos.
Que espectáculo mais fora do comum! Não há ninguém que, em face do que lhe é exposto, não fique boquiaberto. Trata-se, efectivamente, de um local imperdível, ao menos para quem vai à China. Ir lá de visita e não se deslocar a Xian é como ir à Índia e privar-se de ver o Taj Mahal. Multidões de turistas circundam demoradamente este recinto, debruçando-se sobre a balaustrada de ferro que lhe serve de resguardo e disparando as suas máquinas fotográficas. Abaixo do solo, alinhadas em trincheiras escavadas na terra, milhares de figuras em terracota compõem um exército completo, com soldados, generais, carros de combate e cavalos. Tudo em tamanho natural. As duas trincheiras da direita estão repletas de soldados e carros de combate com cavalos, uma delas com maior número de figuras (cerca de 6.000), ao passo que a outra tem cerca de 1.300; a terceira, com menor número de figuras (umas dezenas) , está ocupada apenas por oficiais de várias patentes e um carro de combate puxado por quatro cavalos. As armas - arcos, lanças e espadas de bronze – eram reais e terão sido utilizadas na guerra. Uma coisa espantosa é o realismo e o detalhe com que estas figuras, do século III a.C., foram concebidas: as figuras humanas, os animais, os carros de combate, assim como as indumentárias e os apetrechos. E mais curioso ainda: a individualidade de cada figura, como se cada uma delas representasse um estilo e uma personalidade própria.
Esta fantástica armada de terracota será um monumento funerário, formando provavelmente um conjunto com outros objectos que foram encontrados junto do mausoléu do primeiro imperador da China – Qin Shihuang – situado ali perto, e carecendo ainda de uma cabal ou, pelo menos, mais completa explicitação da sua simbologia. O conjunto, que representaria o exército e a guarda de honra do referido imperador, velando-o poderosamente na outra vida ou dando continuidade à sua missão guerreira, pois que os soldados estão em posição de combate, foi descoberto em 1974 por camponeses, quando procediam à perfuração de uma parede que estava soterrada. Desde então para cá, tem-se desenvolvido um intenso trabalho arqueológico de desenterramento das figuras (visto que terão sido originalment enterradas) e de restauro das mesmas, o que obriga a mil cuidados, um restauro que não é integral, pelo menos no que se refere à pintura das esculturas, que em algumas figuras expostas é evidenciada por alguns vestígios que permaneceram ao longo do tempo.
Por conseguinte, este museu singular é o próprio local arqueológico onde têm sido desenterradas e recuperadas as figuras.
O resto do tempo até ao almoço foi preenchido com a visita a uma oficina de terracota e de móveis pintados e com incrustações em jade e madrepérola. Uma oportunidade, evidentemente, para as compras turísticas, pese embora o facto de a visita ter realmente interesse pela qualidade e beleza de muitos objectos expostos.
Após o almoço num restaurante situado no mesmo edifício, marchámos para o aeroporto, onde, após as demoradas formalidades, apanhámos o avião para Shangai. Duas horas e meia de viagem, entre as 18,00h e as 20,30h. À nossa espera, lá estava o guia, um patusco gordinho e baixote, com curso superior de português. Durante a viagem, expendeu longamente o seu gosto pela nossa língua e cultura e deu mostras da sua erudição citando Camões e alguns autores mais. E não só pela nossa língua e cultura, mas também pela religião tradicional do nosso país, confessando-se católico, apostólico, romano, menino de coro e defensor da vertente mais conservadora da Igreja, incluindo a missa em latim.

09 março 2020

 

China III


Transposta a majestosa Porta Meridional, cá estamos na Cidade Proibida. Um ampla esplanada ou praça é atravessada pela Ribeira Dourada, cavalgada por cinco pontes em mármore, ricamente decoradas com esculturas. É uma ribeira cujo nome é auspicioso; ao contrário dos rios que levavam ao Inferno, com nomes escuros como Letes, Estige, Aqueronte, etc., esta ribeira, uma vez atravessada, conduz-nos ao fabuloso conjunto de galerias e palácios imperiais com denominações evocadoras de um mundo harmonioso e perfeito, que se devia parecer com o Olimpo. Uma cidade dentro da cidade, celestial, que o não seria tanto para a multidão de serventuários, ocupando uma extensão vastíssima, que assim o exigia a magnificência da corte imperial. Rezam as crónicas que mais de um milhão de metros quadrados, comportando cerca de 800 edifícios e 9.000 aposentos. Este conjunto de imóveis, que foi declarado pela UNESCO como Património Mundial da Humanidade, constitui um belo e singular acervo da arquitectura palaciana chinesa. Escapou por pouco à fúria arrasadora da Revolução Cultural.
Os diversos pavilhões e palácios que se sucedem uns a seguir aos outros dispõem-se ao centro, ao longo de um eixo, que divide simetricamente a cidade em duas (aos lados, Este e Oeste, outros palácios menos importantes se perfilam).
O Pavilhão da Harmonia Suprema é o primeiro que se nos depara, transposta a grandiosa porta do mesmo nome, flanqueada por dois enormes dragões em bronze. No vasto recinto que o antecede, onde, pelos vistos, havia lugar para 100.000 pessoas, decorriam as cerimónias importantes, como a coroação, os casamentos imperiais, as celebrações do Ano Novo, etc. O imperador era transportado numa liteira e colocado no seu luxuoso trono, designado por Trono do Dragão, ao centro do pavilhão, em face do público. Tal o espectáculo que era necessário montar para que o poder aparecesse em todo o seu esplendor. Dezoito queimadores de incenso, em bronze, simbolizando as dezoito províncias da China, ardiam no último dos três escalonados terraços, ornados de ricas balaustradas de mármore, que ascendiam até à entrada onde estava o trono.
A parte da frente do recinto era ocupada pelos funcionários (cerca de 9.000, segundo diz o guia Zhao Naipu pelo walkie talkie; segundo o guia em forma de livro escrito em inglês que tenho comigo, o pessoal tinha que saudar o imperador curvando a cabeça até ao solo, por nove vezes). As bancadas laterais eram destinadas aos músicos, tangendo os seus instrumentos.
Há uma enorme massa de turistas vagueando por aqui, subindo ao terraço e rondando o pavilhão. Acotovelam-se junto do sítio onde o imperador aparecia no seu trono. Parece que o trono está lá, mas eu não o vi. Não tive paciência para tolerar aquelas cabeças apinhadas, espreitar por cima delas e fazer a ginástica que toda a gente fazia de levantar os braços com a máquina em punho e tirar uma foto. Aliás, para a maior parte dos turistas, incluindo os do grupo onde me integro, o importante parece ser dar ao gatilho da máquina e disparar. Atingir o alvo. Alguns, mal acabam de entrar num determinado local, já estão a metralhar, antes mesmo de se aperceberem da realidade do objecto ou do sítio. Pior: a sua voracidade de imagens, a sua azáfama de caça vai ao ponto de nem sequer escutarem o que diz o guia, tolhendo a vida a quem quer prestar atenção. Também fui um pouco apanhado por esse vício, mas não me deixei possuir de todo e algumas vezes resisti. Como desta vez em relação ao trono do imperador. Por causa dele e da mania da fotografia, uma professora de inglês na reforma perdeu-se do grupo. Foi necessário os dois guias – a portuguesa e o chinês – irem no seu encalço, agitando a bandeirinha portuguesa, porque pelo telemóvel não se conseguiu falar com ela, fosse por causa do barulho, fosse por outra razão. Felizmente, com a sua experiência de viagens, deixou-se ficar onde estava e, daí a pouco, regressava ao nosso seio, gingando o corpo nas pernas trôpegas, que todavia não a tolhiam de acompanhar o grupo, mesmo quando era preciso andar mais depressa. Era uma mulher afável, de olhos azuis, viúva de um advogado que falecera vitimado por um cancro do pulmão, devido ao abuso do tabaco, e por quem os olhos dela se lhe aguavam, quando falava dele.
Assim se passou ao Pavilhão da Harmonia Central, ou do Meio, ou ainda, creio, Pavilhão da Harmonia Perfeita (os dois primeiros são designações que encontro nos guias impressos; o último foi o que recolhi no meu caderno de apontamentos, a partir do que o guia Zhao Naipu nos ia transmitindo).
Este era o local onde o imperador recebia cumprimentos ou vassalagem dos seus funcionários mais próximos, e dava os últimos retoques antes de passar ao Pavilhão da Harmonia Suprema, onde decorriam, como vimos, as cerimónias oficiais.
O terceiro Pavilhão que vem a seguir tem a designação de Pavilhão da Harmonia Preservada. Era o local dos banquetes imperiais, onde, de facto, conviria preservar alguma harmonia.
Este conjunto de edifícios enquadrava-se no chamado Pátio Exterior e era destinado às representações do poder, exteriorizado por cerimoniais, fausto e grandiosidade e pela criação de uma atmosfera de transcendência, em que o imperador aparecia revestido de uma espécie de magnificência celeste.
Para além desse Pátio Exterior, seguindo a ordem da sucessão de edifícios que se nos depara após a entrada pela Porta Meridional ou Porta Tiananmen, mas inversa à disposição construtiva, que é Norte/Sul, fica o Pátio Interior, um espaço exclusivamente reservado ao imperador e demais membros da sua corte e onde era proibida a entrada de qualquer estranho, sob pena de execução sumária.
Esta face interior era formada por três palácios: o Palácio da Pureza Celestial, o Palácio da União entre o Céu e a Terra e o Palácio da Tranquilidade Terrena. Nomes que, só por si, dizem muito da concepção da vida imperial e da ancestral cultura chinesa. Rezam as crónicas que era no último dos palácios citados que as imperatrizes viviam e dormiam e, além disso, era lá que era passada a noite de núpcias. As outras noites ficariam à discrição dos imperadores, segundo penso, pois tinham à sua disposição uma gama variável, mas no geral muito diversificada e vasta de concubinas, que viviam em palácios próprios, situados na área imperial. Através das vidraças das janelas, os turistas curiosos tentam imaginar como seria o seu dia-a-dia, coscuvilhando móveis, utensílios vários e objectos de adorno, que se divisam no interior.
Por trás destes palácios, ou seja, a seguir a eles, segundo a orientação que vamos seguindo, situa-se o Jardim Imperial, um belo e aprazível espaço que é um modelo da arquitectura paisagística chinesa. Pequenos recantos, montículos arrelvados e variadas espécies arbóreas, onde se distinguem velhos pinheiros, bambus, ciprestes. Entre o arvoredo, outras construções com nomes igualmente magnânimos, como o Pavilhão da Paz Imperial. Num destes edifícios, se bem escutei Zhao Naipu, foi que o último imperador, o protagonista do filme de Bertolucci, fez a sua aprendizagem escolar.
E assim vamos fruindo o espaço neste dia de sol, imaginando as delícias de um piquenique em qualquer destes recantos, enquanto nos vamos encaminhando para a porta de saída, situada do lado Norte.
Após o repasto chinês num restaurante de Pequim e um cafèzinho expresso tomado numa cafetaria ao lado, da cadeia Starbucks, que é uma multinacional (já o vimos noutras partes do planeta, nomeadamente na Índia, no Dubai e em Manhattan), pois os restaurantes chineses apenas servem chá, de ordinário durante a refeição, já vamos de largada para outra visita. Desta feita, o alvo da nossa viagem é o célebre Templo do Céu.
Mal descemos do autocarro num largo situado na vizinhança, deparou-se-nos, no cimo de uma elevação, um curioso monumento, que tenho a impressão que se avista de muitas partes da cidade, dada a sua localização altaneira. A área circundante é um amplo espaço de lazer com esplanadas arborizadas e mesas para piquenique. Muitos chineses por aqui passeiam e se divertem, com destaque para os reformados (homens e mulheres), que, em grande número, sentados em bancadas e muros baixos, pincipalmente a todo o comprimento de um Longo Corredor, semelhante ao que já encontrámos no Palácio de Verão, se dedicam ao jogo de cartas com entusiasmo e e grande arruído. Pelos vistos, segundo informação do guia, que interpelei, é um jogo muito comum na China e o principal divertimento dos reformados (a reforma é aos 60 anos), depois da obrigação de cuidarem dos netos.
Dos netos?”, reagi espantado.
Sim, reafirmou ele.”
Então não são as creches?, os infantários? Não é o Estado que se encarrega obrigatoriamente da ocupação e educação das crianças?”
Não é obrigatório que as crianças vão para as creches e os infantários. Depende da vontade dos pais, respondeu”.
Este é mais um exemplo da viragem da China. É claro que não se tratará apenas de uma maior liberdade educativa em benefício dos parentes da criança e da consequente abdicação, por parte do Estado, do monopólio da educação e ensino a todos os níveis, mas também (e principalmente?), da libertação estadual do correspondente ónus financeiro.
Mas retornemos ao Templo do Céu, que se avista mesmo na nossa frente, como estava dizendo. O monumento que ressalta na sua beleza invulgar é o principal de três templos taoístas. O taoísmo é uma religião baseada em grane medida nos ensinamentos e na filosofia de Lao Tse, um poeta que viveu no século VI a.C. a quem é atribuído o livro de poemas Tao Te King, que significa “livro da Via e da Virtude”, um livro que, sob muitos aspectos, é admirável pelo esforço que faz na conciliação dos contrários, na exaltação do fraco em vez do forte, da suavidade em vez da rudeza, do simples em vez do complexo, do humilde em vez do poderoso, como via ou o caminho para atingir a perfeição, a paz e a tranquilidade, a sublimidade celestial, mas que também é descoroçoante no exaltar a quietação, a inacção, por vezes até a ignorância e o nada [“Rejeita a sabedoria e o conhecimento,/o povo tirará assim cem vezes mais proveito” (…) e noutro poema: “Quem pouco sabe terá o conhecimento seguro, Quem muito sabe ficará na dúvida (…)”], (Tao Te King, Editorial Estampa, 2ª edição, 1977)
Uma escadaria majestosa em três lanços, com uma tríplice balaustrada em mármore, conduz ao principal dos templos a que me vinha referindo. Tem uma forma cónica e está coberto por um triplo tecto, cujos círculos se vão estreitando para cima e terminando por um pináculo com uma bola dourada. Telhas de um azul purpúreo cobrem o triplo tecto, conferindo-lhe um aspecto gracioso. Estamos em face da denominada Sala da Oração pelas Boas Colheitas. Era aqui que o imperador vinha rezar, todos os anos, pelas boas colheitas, no início da Primavera, e pelos frutos e cereais obtidos, no Outono.
O espaço em redor é um vasto círculo, de chão marmóreo, cercado pela referida balaustrada, interrompida no cimo pelos vários lanços de escadas correspondentes aos vários acessos que conduzem ao recinto – Norte, Sul, Este e Oeste. O que foi utilizado por nós leva directamente à Sala de Oração pelas Boas Colheitas.
Os outros templos situados na área são a Abóbada Celestial Imperial e o Altar Circular, ligado por um arruamento empedrado à Sala da Oração pelas Boas Colheitas. O primeiro apresenta uma construção similar à deste último templo, embora de dimensão mais reduzida e tem como curiosidade o muro que o cerca, conhecido pelo Muro do Eco, por permitir que uma voz emitida em qualquer parte dele seja ouvida no lado oposto ou em qualquer outro ponto. O Altar Circular dispõe de uma simbologia especial à volta do número 9 e seus múltiplos (9, 27, 81), patente no número de degraus da escadaria que lhe dá acesso, na balaustrada e na decoração interior.
É curioso constatar que a simbologia do número 9 e seus múltiplos está ligada ao sagrado de várias religiões e ao ritual de certas práticas iniciáticas, bem como transparece no simbolismo de certas obras de arte, das quais A Divina Comédia de Dante é um exemplo flagrante. Nove é o número de círrculos infernais; nove é um múltiplo de 3, sendo que o poema de Dante está construído em tercetos.
Do Templo do Céu partimos para outro local de Pequim, para um teatro, onde assistimos a um espectáculo teatral de Kung Fu. Contava a história de uma criança entregue aos cuidados de um monge de Kung Fu, o qual, através de ilustrações e exercícios próprios desta arte marcial, de uma incrível destreza e acrobática espectacularidade, ia ministrando ensinamentos sobre o domínio do corpo e da mente, sobre a arte de vencer resistências e dificuldades e de se superar a si próprio, expondo toda uma filosofia de vida.
Dali fomos para o jantar, num restaurante situado numa das grandes avenidas de Pequim. O jantar foi constituído por, entre outras coisas, porque a comida chinesa consta de uma variedade de pratos, como é sabido, pato à pequinense. Munidos de branquíssimos e brunidos aventais e armados de facas afiadíssimas, lá estavam dois empregados cortando aplicadamente as aves já cozinhadas em pequenas lascas, como é de uso na comida chinesa, por causa da não utilização da faca e do garfo. Faziam-no de forma extremamente metódica e expondo-se ostensivamente à curiosidade dos turistas, que, como é de prever, disparavam as suas máquinas fotográficas e telemóveis com grande voracidade gastronómica.
O mais curioso é este facto que nos foi contado pelo guia e que causa consternação: os patos, enquanto vivos, são submetidos a uma alimentação especial para crescerem rapidamente e para perderem a gordura que vão acumulando, são metidos em capoeiras alongadas com o chão forrado de tijolos aquecidos por meio de um qualquer sistema térmico, de forma a obrigarem os pobres animais a moverem-se constantemente de um lado para o outro. Cruel, não? E de sinistra imaginação glutona.




29 janeiro 2020

 

China II


Manhã cedo, bafejados por um sol outonal, vamos a caminho de um dos locais de Pequim mais vibrantes de expectativa no imaginário do forasteiro – a Praça Tiananmen, através da qual se acede à Cidade Proibida. Por avenidas já pejadas de carros, o guia vai dissertando sobre costumes antigos e factos da história chinesa, aproveitando a lentidão do trânsito. Entre outras coisas sobre as quais divaga de uma forma minuciosa, como o calendário tradicional chinês e práticas rurais ancestrais, alude ao Palácio Imperial, na Cidade Proibida, construído na dinastia Ming (1406-1420), após ter sido derrubado o domínio Mongol, que se havia iniciado por meio de conquistas paulatinas, onde pontificara o célebre Genghis Khan, e fora ultimado pelo seu neto Kublis Khan, que inaugurou a dinastia Yuan.
De 1420 a 1911, sucederam-se 11 imperadores chineses e duas dinastias – a Ming e a Qin. Em 1911, a dinastia Qin foi destronada pelo movimento nacionalista que estabeleceu a República da China, cujo primeiro presidente foi Sun Yat Sen, figura cimeira daquele movimento e fundador do Kuomitang. Teve aí origem a China moderna; não só o regime imperial foi desmantelado e substituído pela República, como tiveram fim muitas práticas sociais que ostentavam marcas de servidão. Por exemplo, o costume de enfaixar os pés das mulheres desde tenra idade, uma prática que sacrificava a comodidade do andar, a saúde e a higiene femininas a um ideal de beleza e submissão - o andar saltitante, aliado a graça e fragilidade das mulheres, despertando nos homens impulsos protectores (veja-se o retrato horrível que nos dá Jung Chang da sua avó e dos tormentos que sofria por causa dessa prática em Cisnes Selvagens, 14.ª edição, Quetzal editores, p. 26).
Outra prática ou instituição que foi abolida e a que o guia faz uma mais demorada referência foi a dos eunucos. Normalmente estes homens castrados, que estavam ao serviço do imperador, provinham de meios pobres. Os pais escolhiam um dos filhos para eunuco, encontrando aí uma forma de promoção social e de sustento desse membro da família; era uma boca que deixava de ser alimentada pela família e passava para a mesa farta do palácio imperial. Muitos dos eunucos estavam muito próximos do imperador; eram guardas das esposas e concubinas e desempenhavam outros serviçosn de intimidade ou proximidade imperial. Daí possivelmente uma das razões para a castração. A oportunidade para a escolha desse modo de vida surgia entre os nove e os quinze anos. O candidato tinha que se submeter a uma operação para lhe serem removidos os órgãos genitais e havia grande percentagem de mortos. Tinham dificuldade em urinar e, por vezes, o cheiro nos sítios onde dormiam era nauseabundo.
Entretanto, chegámos à muito aguardada Praça Tiananmen. Aí estava ela, na manhã ensolarada, a regurgitar de turistas. Levas e levas de turistas, circulando disciplinadamente, sob o olhar atento e o acicate dos agentes de polícia, que espevitavam constantemente o andamento dos passeantes, a fim de evitarem demoras e engarrafamentos. Ali não se queriam basbaques. Era sempre a andar e a ver os monumentos situados nas partes laterais de pescoço torcido.
O guia já lá vai à frente, erguendo a bandeira portuguesa no meio de dezenas de bandeiras de outras nacionalidades, incluindo a inconfundível bandeira da China (vermelha com uma estrela rodeada de quatro outras mais pequenas, todas amarelas, colocadas no canto superior esquerdo); o grupo vai-se fragmentando, por efeito de ligeiros atrasos de um ou outro membro que se demora a contemplar este ou aquele monumento ou que aproveita para sacar uma foto, ou ainda por se ter enleado em desfiles de outros grupos que cruzam o mesmo espaço e forcejam por passar adiante, arremetendo contra quem passa, e o retardatário, sempre com o olho fito na bandeira verde-rubra, lá vai estugando o passo para reenfileirar no grupo.
Grande espaço este, de quase um quilómetro de comprimento (880 metros) e passante de meio quilómetro de largura (550 metros), repleto de pessoas em movimento, orientando-se em várias direcções, acentuando no turista que vai integrado num grupo o sentimento de confusão e receio de se perder.
Lá na frente, o guia, através do walkie talkie, vai referindo os monumentos que se vão perfilando à nossa esquerda e à nossa direita (Leste e Oeste), considerando que entrámos pelo lado Sul, onde se encontra a Torre Quiánmen e uma das portas mais antigas de entrada no recinto, outrora amuralhado, do tempo da dinastia Ming. Vamos, pois, em direcção ao Norte e lá está o mausoléu de Mao Tse Tung, um monumento situado no centro da praça, para o qual se encaminha uma interminável fila de turistas, de várias centenas de metros, facto só por si desencorajador de uma visita, se outras razões não houvesse para darmos ao desprezo a contemplação da múmia. O que lá está é a carcaça de um homem extinto empalhada por dentro. Ao diabo esta divinização estalinista dos chamados heróis do povo! À frente da mastaba, lá está o monumento aos Heróis do Povo, que mal se enxerga do sítio por onde vamos andando, e onde, segundo informa o guia, se pode ler a inscrição Os Heróis do Povo são imortais. Nem sempre. Às vezes, o povo também acaba por os derrubar do plinto onde os altearam. Qual glória eterna, qual carapuça! Aí está também a Assembleia Popular
Segue-se o Museu Nacional da China, do lado direito da praça, considerando o sentido em que vamos e, lá ao fundo, depois de caminhada intensa, a Porta da Paz Celestial, onde finalmente repousamos. É ela que nos dá acesso ao paraíso, à cidade dos eleitos ou à Cidade Proibida. Proibida, justamente porque não tinham direito de nela entrar as pessoas que não pertenciam à corte do Imperador. Foi da Porta da Paz Celestial que Mao Tse Tung proclamou a República Popular da China em 1 de Outubro de 1949. O seu retrato lá está, bem ostensivo, no centro do muro, por baixo do balcão onde teve lugar a referida proclamação.
Esta foi uma das grandes efemérides da história da China moderna que se desenrolou nesta grande praça. Uma outra mais recente acode, de certeza, à memória de qualquer turista minimamente informado: o massacre de 4 de Junho de 1989. Tanques e camiões do Exército invadiram a praça ocupada por várias dezenas de milhar de estudantes, operários e intelectuais, que se vinham manifestando pacificamente, sob a liderança dos primeiros, em vários locais de Pequim, exigindo mais democracia e a instauração de um regime que respeitasse os direitos fundamentais acolhidos pela Declaração Universal dos Direitos do Homem. Pois foram massacrados sem dó nem piedade, durante a noite, nesta praça onde as luzes foram apagadas, e trucidados pelas lagartas dos tanques, que rolaram por cima deles com total indiferença, e alvejados pelas metralhadoras. Morreram muitos, na ordem dos milhares, sem que nunca se soubesse o número exacto. Mortos pelo Exército da República Popular da China, exactamente quarenta anos passados sobre a proclamação de 1 de Outubro, que anunciou a libertação do povo chinês.
Imaginar o que seria o pandemónio e o terror dessa noite, com pessoas a fugirem desorientadas à aproximação inexorável dos tanques, esbarrando-se umas nas outras, gritando espavoridas, ficando umas esmagadas e outras caídas no recinto, é tarefa quase impossível no meio da multidão de turistas que cruza este espaço em rebanhos que seguem atrás das bandeirinhas dos guias. Por sinal, o timoneiro que comandava os destinos do povo chinês, nessa altura, era Deng Xiaoping, um veterano comunista em projecção após a morte de Mao que decisivamente contribuiu para pôr fim às atrocidades da Revolução Cultural, ele próprio uma grande vítima dela, bem como membros da sua família. A ele se devem as reformas profundas que inauguraram na China um novo período (“uma segunda revolução”, como lhe chamou), instaurando a designada “economia de mercado socialista” e abrindo o país às relações internacionais (foi o primeiro presidente a visitar os Estados Unidos). O impulso reformista (outros chamar-lhe-ão revisionista) não lhe tolheu, todavia, o velho reflexo comunista ou estalinista de reprimir duramente qualquer manifestação cívica e política favorável aos mais elementares direitos democráticos.
Jung Chang, no livro já citado Cisnes Selvagens, que se lê como um romance e que é, simultaneamente, biografia de uma família, atravessando várias gerações, autobiografia e história da China contemporânea, diz que nem queria acreditar que o político que pôs fim ao caos e à violência indiscriminada da Revolução Cultural, que permitiu a reabilitação definitiva dos seus pais, militantes comunistas desde a juventude, na década de 40, e a saída dela da China, beneficiando de uma bolsa de estudos, por ter sido a melhor aluna em inglês na licenciatura, para estudar numa universidade inglesa, foi o responsável por aquele horrível massacre. “Teria aquilo verdadeiramente sido ordenado pelo mesmo homem que aos meus olhos e aos de tantos outros aparecera como um libertador?” (p. 516).
É assim: o medo de perder o pé no poder leva, por vezes, aos actos mais insanos. Abertura sim, mas sem destapar completamente a panela, não vá a pressão que salta para fora tornar-se incontrolável e levar tudo na frente, como sucedeu com Gorbachov.
Não sei se era nisto que pensavam os meus ocasionais companheiros de viagem, quando atravessávamos a Praça Tiananmen. Sei é que, chegados ao fundo, junto ao retrato de Mao Tse Tung, o guia (em que pensaria ele, que não referiu nada disto que escrevo?) propôs que se tirasse uma fotografia em grupo, sob a imagem tutelar do antigo timoneiro. O fotógrafo, evidentemente, já lá estava.





14 janeiro 2020

 

A sombra que perpassa sobre o mundo actual


Um dos aspectos mais chocantes do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani mandado executar por Trump é a motivação que parece estar-lhe subjacente: o objectivo de desviar as atenções do processo de impeachment que presentemente está suspenso, antes de ser presente ao Senado para julgamento, aguardando a possibilidade de se produzirem testemunhos do pessoal da Casa Branca sabedor dos factos que desencadearam a investigação e que o próprio Trump interditou de depor, e a aproximação de eleições presidenciais, a realizarem-se no mês de Novembro, que o actual presidente pretende disputar, com vista a um segundo mandato. Foi, aliás, a pensar nelas que Trump se envolveu nos factos, inquestionavelmente condenáveis e suficientemente gravosos para merecerem uma destituição do cargo, que deram origem ao processo. Note-se que um dos desabafos do presidente logo a seguir ao assassinato, foi o de censurar a atitude daqueles congressistas (os democratas, evidentemente) que impulsionaram e pretendem prosseguir com o processo de impeachment: « Vejam bem», disse mais ou menos, «andam a discutir no Congresso uma coisa tão ridícula, e eu a braços com tão magno problema!».
Portanto, trata-se de uma reiteração de processos condenáveis, criminosos, o relativo à Ucrânia e este do assassinato, traduzido num verdadeiro acto de guerra levado a cabo sem consentimento do Congresso e envolvendo, por isso, a possibilidade de uma guerra de consequências incalculáveis, que para já parece arredada, e, no mínimo, um agravamento das condições explosivas que se vivem no Médio Oriente, tudo por simples manobra calculista e profundamente egoísta – a ideia de lançar uma nuvem sobre o processo de impeachment e de obter vantagem nas próximas eleições.
Assim está o mundo entregue à bicharada pelas mãos de homens pusilânimes e indecorosos como Trump e outros, à frente de nações poderosas, que se lhe equiparam nos lances criminosos e na falta de escrúpulos.

15 dezembro 2019

 

Viagem à China I






Visitar a China é praticamente uma banalidade, nesta época em que o turismo de massas devassa todos os cantos do mundo e não sabe que mais inventar para satisfazer a curiosidade esquipática do turista mais maluquinho de viagens. A China, por outro lado, abriu-se ao mundo, através de uma ostensiva liberalização económica que a integra, sem problemas, na trama das relações capitalistas mundiais, incentivando o turismo em larga escala em moldes perfeitamente idênticos aos do Ocidente e permitindo que os seus nacionais saiam do país, quer em turismo, quer para fixação no estrangeiro. Por isso, a China perdeu uma grande parte da sua aura de mistério, sobretudo o que lhe vinha da sua singularidade dos tempos revolucionários, que aguçava a curiosidade de muitos turistas de querer descobri-la. Mesmo assim, a China é um país imenso do Continente Asiático que conserva uma identidade própria, uma certa impenetrabilidade do ponto de vista da sensibilidade do homem ocidental e a pertença a um mundo outro que é (era) o distante e sonhado Oriente. Distância que, apesar de tudo, é muito sensível mesmo para quem viaja de avião, nas suas 15 ou 16 horas cumpridas num daqueles acanhados espaços entre os bancos da classe económica, pese embora o facto de a minha viagem ter sido efectuada na excelente Companhia aérea dos Emirates em duas etapas, com intervalo de cerca de 2 horas entre elas (Lisboa-Dubai; Dubai-Pequim, na ida; Hong Kong-Dubai; Dubai-Lisboa, na volta).
Pequim é uma cidade que me pareceu imensa, de grandes avenidas e prédios ao alto, numa arquitectura que me pareceu bastante estandardizada, mas que, nos prédios mais recentes, busca formas mais ousadas esteticamente para fugir à vulgaridade e à uniformidade, avenidas que sobretudo percorri de autocarro, uma que outra vez mergulhando, quando assim calhava, em ruas mais tradicionais, de prédios baixos, de aspecto popular, casas de traça antiga, dispostas interiormente em quadrado, ruas mais buliçosas de pessoas deambulando, atravancadas de veículos e pequenos comércios, as chamadas hutong . Tive pena de não percorrer a pé estas e outras ruas semelhantes que não vi, andar por certas avenidas e ter uma outra perspectiva dos prédios, do movimento, ver as pessoas e senti-las no seu quotidiano, mas em vez disso, vi quase sempre carros entupindo as grandes avenidas, andando lentamente, como em qualquer grande metrópole do Ocidente, multidões de carros de grandes marcas, vendo-se em filas intermináveis, mesmo no dia em que cheguei, um domingo ao fim da tarde, levando imenso tempo a percorrer a distância do aeroporto ao hotel. Um dia perdido nas formalidades do desembarque, no trânsito e no alojamento.
O tempo que permaneci nesta grande capital foi para ter uma imagem dos sítios turísticos mais emblemáticos: a muralha da China, claro!, colossal, começada a construir no século V a.C. (informação do guia que nos acompanhou) e continuada ao longo de séculos. Inicialmente foram várias as muralhas edificadas (sete, nas fronteiras de vários principados, para proteger o território dos aguerridos vizinhos, principalmente dos Hunos, posteriormente unificadas numa única muralha com a unificação da China no tempo da dinastia Qin, no século III a.C. Actualmente abrange oito províncias da China nos seus seis mil quilómetros de extensão. 
Empinando-se pelas escarpadas encostas, é coroada por fortalezas nos pináculos, cada cem metros, e dispõe de torres de vigia de dez em dez quilómetros. Obra gigantesca, de quase inconcebível esforço humano, actualmente qualificada como fazendo parte do Património Mundial da Humanidade, nela pereceram milhares de trabalhadores ao longo de centúrias.
Neste dia ensolarado, batido por um forte vento enregelante que sopra da Mongólia, a muralha está a ingurgitar de turistas, muitos deles autóctones. Uma lufada apanhou-me desprevenido e arrancou-me o boné da cabeça com tal rapidez, que mo levou sem que eu o pudesse capturar, voando pelos ares e pousando no galho de uma árvore, na ravina. Fiquei a contemplá-lo, desolado, até que ele voltou a desprender-se no seu voo para locais ignotos, deixando-me à mercê das navalhadas gélidas do vento. Adeus, boné, para sempre! Com uns anos que levas de uso na minha cabeça, transportas um pouco de mim para ficar na China.
A muralha ficou para trás com o almoço num dos restaurantes locais, e já vamos a caminho de outra preciosidade turística: o Palácio de Verão do Imperador. Trata-se de um vasto complexo de edifícios enquadrado pelo lago Kunming, em grande parte artificial, mas já existente no século XII, e pela Colina da Longevidade, erguida com a terra escavada para a construção do lago, em cujo topo se eleva um elegante pagode budista – o Pagode da Fragrância Budista, que domina toda a paisagem em redor. 
O palácio, como o nome indica, era a residência de Verão da família imperial, datando de meados do século XVIII e dispondo de vários pavilhões: do despacho, da residência, da imperatriz, da concubina, etc. No pátio fronteiro ao edifício principal, encontra-se uma estátua em bronze de um estranho animal, a fazer lembrar certos bicharocos fantasmagóricos da Rosa Ramalho, o qual, segundo a lenda, só aparecia na Terra nos tempos de harmonia.
O lago, de grandíssimas proporções, é atravessado por várias pontes, das quais a mais grandiosa e de belo efeito cénico é a Ponte dos Dezassete Arcos, destacando-se ainda, ao longe, em relação ao complexo de edifícios, a ponte denominada Bossa de Camelo, pedonal, de um único arco a fazer lembrar a saliência do dromedário. É ainda de mencionar o chamado Barco de Mármore, uma construção extravagante que repousa na água do lago e que foi restaurada sob mando da imperatriz Cixi nos finais do século XIX, quando ali estabeleceu residência, tendo usado para o efeito vastas somas que eram destinadas à marinha naval chinesa.
Uma das atracções do Palácio é o chamado Longo Corredor – um corredor enorme, de várias centenas de metros, situado no exterior. Aberto dos lados, num sistema de colunas, sobre as quais repousa um tecto em traves de madeira, ostenta pinturas com cenas da vida chinesa na parte interior, recobrindo as colunas e as referidas traves.
O espaço exterior do palácio está actualmente afectado ao uso público como espaço de lazer, estando a navegação no lago acessível ao público entre os meses de Abril e Outubro. Nesse período, há carreiras de barcos para percorrer toda a sua vasta área, podendo também fretar-se barcos de recreio, com pedais. Aliás, nesta altura do ano da nossa viagem, havia grande animação turística no espaço exterior do palácio, alimentada sobretudo por turistas internos, onde se destacavam grandes grupos de jovens, com todo o ar de fazerem parte de excursões escolares. Fora da área do palácio, em frente à porta de entrada, estendiam-se várias tendas de comidas, também muito concorridas, nas quais avultavam petiscos repulsivos à sensibilidade ocidental, como pequenas espetadas de escorpiões, insectos, morcegos, etc. - um tipo de comércio de rua muito vulgar na China, em locais de ajuntamento de pessoas.
Esta etapa da viagem finalizou com uma visita ao parque olímpico, uma área soberba de construções de grande efeito, em que domina o célebre Ninho de Pássaro, o edifício do estádio onde decorreram as imponentes cerimónias de recepção das delegações olímpicas e de encerramento dos jogos, transmitidos pela televisão, em 2008 (Olimpíadas de Verão). Obra de arquitectos suíços, com a colaboração de arquitectos chineses, tem a forma de um ninho no seu intrincado entrançado exterior de fios de aço.
O guia chinês - Zhao Naipu (curso superior de línguas, com predomínio do castelhano, aprendeu também português numa estadia de dois anos em Moçambique; tratávamo-lo por Gustavo, que dizia ser a tradução do seu nome em português) – atira números mirabolantes: a construção do estádio importou em quatrocentas mil toneladas de aço; o seu custo, em quatrocentos e oitenta milhões de dólares; a sua capacidade estende-se a cem mil pessoas.
De entre as construções no enorme recinto, avulta a da piscina, um amplo quadrado azul, iluminado na noite, onde outras luzes emprestam ao local uma variegada paleta de cores. Referindo-se à piscina e ao estádio em forma de ninho, o guia elucida que simbolizam, respectivamente, a terra e o céu. Uma obra que sobretudo é um símbolo das altíssimas aspirações chinesas a destacar-se como  primeira potência mundial.

10 dezembro 2019

 

Reformas para a justiça




Das reformas projectadas para a justiça, concordo com algumas delas, mas outras vejo-as com reserva, senão mesmo com desconfiança. É o caso da “delação premiada”, ou, para empregar o eufemismo com que tentam dar outro rosto à medida, “colaboração premiada”. Há sobretudo um problema ético na medida que me é difícil ultrapassar. O direito não deve socorrer-se de meios de prova que atropelam princípios basilares da ética das relações humanas. Isto para além de a referida medida poder conduzir com facilidade a situações de atropelo de direitos fundamentais, de regras basilares do direito processual e de justiça. O problema é agravado pelo facto de a tal “colaboração premiada” poder ser forçada ou, pelo menos, incentivada por quem investiga com promessas de benefício processual para o arguido que denunciar outras pessoas – benefícios que podem ser de monta, pois podem ir até à isenção de pena. A tentação de quem investiga também não é tão secundária como pode parecer, pois que o afã do investigador é obter êxito na investigação e, por vezes, esse afã está acima de qualquer outro interesse. Se, de facto, a referida “colaboração” fosse inteiramente espontânea e da livre iniciativa de quem pretende “colaborar”, ainda vá que não vá, mas é claro que há sempre o forte incentivo do prémio a inquinar essa liberdade e espontaneidade.
Relativamente aos tribunais especiais ou especializados, também tenho as minhas reservas. Para já, a medida implica uma alteração do texto constitucional e isso representa logo uma advertência. Depois, com mais um pouco de esforço, não teremos tribunais comuns, mas só tribunais especializados, com juízes especialistas em crimes de violência doméstica, em crimes sexuais, em crimes contra os menores, em crimes económicos, em crimes de corrupção e por aí fora. Tanta especialidade somada não sei se redundará em melhor justiça.

16 outubro 2019

 

Apontamentos sobre factos recentes





Foi pena que a geringonça não pudesse vingar para a próxima legislatura, apesar de os portugueses terem apreciado a forma de governo anterior e desejarem uma continuação dessa fórmula, segundo sondagens realizadas durante a campanha eleitoral e que os resultados eleitorais confirmaram, pelo menos numa leitura que parece ser racional e lógica. O BE pretendia um acordo escrito em que algumas medidas suas fossem incorporadas no programa do governo. Os representantes da coligação CDU proclamaram logo na noite das eleições que não estariam dispostos a efectuar qualquer acordo escrito, tendo Jerónimo de Sousa declarado, numa fórmula estereotipada, apoiar todas as medidas que fossem favoráveis aos trabalhadores e ao povo, uma coisa muito vaga, até porque não se sabe o que são, rigorosamente, os trabalhadores, nem o que é, rigorosamente, o povo.
António Costa, por seu turno, não parece estar muito preocupado, pois, segundo declarou, está perfeitamente à vontade para governar sem nenhum guião que envolva os outros partidos.
Esperemos que a orientação que fez do governo anterior um dos mais preferidos do eleitorado possa de certo modo ser prosseguida nas suas linhas gerais sem qualquer geringonça, mas com apoio dos partidos capazes de a levar avante.


O aplaudido Paulo de Macedo, um gestor de largo espectro que tem servido a vários governos bastante diferentes uns dos outros, foi chamado para administrar e endireitar as finanças da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Acontece que, nos meses que leva na sua nova função, já produziu uma obra assinalável: encerrou agências em numerosos locais, com destaque para certos concelhos do interior, criando dificuldades às suas populações; fomentou a despedida de pessoal; aumentou os encargos a suportar pelos clientes, descobrindo novos meios de cobrar receitas; onerou as poupanças dos mais pobres e criou privilégios para os donos de contas mais abonadas. Ora, aqui está uma gestão eficacíssima, inteligente e mui digna de uma banca pública. De se lhe tirar o chapéu.


Não sou capaz de ver nos independentistas catalães, agora condenados pelo Supremo Tribunal de Espanha a duríssimas penas de prisão, um bando de criminosos, como tantos que enxameiam as prisões de cá e de lá. Pedro Sanchez, o actual líder do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) disse que eles foram condenados por serem criminosos de direito comum. Eu não quero acreditar.

09 outubro 2019

 

Que venha uma nova geringonça






Acho que será evidente para todos que António Costa tentou conquistar a maioria absoluta para ficar com as mãos livres para executar uma política autónoma, sem depender de nenhuma outra força partidária, uma política “sem empecilhos”, como abertamente proclamavam outras personalidades do PS que não precisavam de se refugiar em fórmulas equívocas e abstractas.
A construção governativa que resultou das eleições de 2015 e que ficou conhecida como “geringonça”, um termo que tendo nascido com um sentido pejorativo, acabou por ser adoptado praticamente sem inibições por quem dela participava e mesmo acarinhado pela generalidade das pessoas, resultou de uma conjuntura particular em que o grosso da esquerda portuguesa sentiu a necessidade de sacudir a política da troika e correr com o governo que gostosamente a corporizou e, em certo sentido, a ultrapassou – o governo PSD/CDS – o governo mais à direita que Portugal teve desde o “25 de Abril”.
Essa construção governativa, olhada a princípio com reserva expectante pela generalidade das pessoas e com hostilidade por parte de alguns sectores da sociedade portuguesa, onde se incluíam algumas franjas do PS, acabou mesmo por funcionar bem e com agrado de uma grande parte da população portuguesa, principalmente a que foi mais vitimada com a política da troika e do governo anterior. Esse facto tornou-se evidente nas eleições de domingo passado, que, contra a pretensão de uma corrente do PS, onde estava incluído António Costa, deram como resultado a não atribuição da maioria absoluta a esse partido, aliás na esteira do que anunciavam as sondagens, onde expressamente se questionava esse ponto.
António Costa teve que render-se a essa vontade dos eleitores, tendo reconhecido na noite do passado domingo que a maioria dos eleitores gostou da geringonça e era uma geringonça que voltava a querer, pois a mesma tinha produzido boas políticas no passado. O problema agora é a criação de condições para uma reedição da geringonça, problema que tanto compete ao PS, como aos partidos à sua esquerda. Algum compromisso entre algumas dessas forças partidárias, com cedências de parte a parte, terá de haver para que seja possível a geringonça n.º 2, correspondendo à vontade do eleitorado. Mal era que agora não se pudesse chegar a um entendimento, por cada qual se fechar no seu programa ou na sua ortodoxia ou ainda na sua contabilidade partidária. António Costa tem razão quando diz que os partidos à sua esquerda, se andaram a pedir aos eleitores para não darem a maioria absoluta ao PS, têm agora a obrigação de não frustrarem as expectativas do eleitorado com uma recusa ou dificultação de acordos para a constituição da referida geringonça. E o PS, por seu turno, não pode encerrar-se na ideia de que os outros é que têm de render-se às suas exigências, já que lutaram pela não realização, por si, da maioria absoluta. Uns e outros têm a mesma obrigação perante o eleitorado.

01 outubro 2019

 

Tancos. Thanks.

O processo sobre o caso de Tancos veio fazer um corte epistemológico na campanha eleitoral. Esta mudou completamente, a ponto de já ter deixado de interessar qualquer esclarecimento a que supostamente as campanhas se dirigem. A obsessão, agora, é Tancos, não por causa da relevância do caso em si, mas como instrumento para outros fins que primacialmente são eleitorais, mas que são inconfessáveis, por força da hipocrisia e tortuosidade que lhes subjaz. Então, do ponto de vista das oposições, a acusação do Ministério Público foi providencial. Foi essa acusação que veio dar um alento formidável a quem se posiciona contra o governo, sobretudo à direita, e andava a arrastar a sua existência pelas ruas da amargura. É ver Assunção Cristas, confundindo acusação com certeza provada. É ver Rui Rio e o delírio que o tomou, extravasando completamente dos limites admissíveis mesmo num contexto de luta política e passando a elogiar interesseiramente a independência do Ministério Público, quando é o político que mais o tem atacado e mais quer intervir no seu controle. É vê-los a ambos, exigindo uma interpelação urgente ao governo na Assembleia da República, nos últimos dias da pseudo-campanha.
Mas também à esquerda do PS o caso aproveita e tem sido aproveitado, embora com menos ardor, tendo em vista sobretudo retirar ao PS a maioria absoluta – uma objectivo legítimo, mas que não deveria admitir o emprego de qualquer meio.
Uma tal bomba atómica poderia ter sido evitada, tendo em vista a distorção provocada na campanha e o dano no sistema democrático? Alguém, no PS, segundo certos órgãos de comunicação social, fala de conspiração, mas o semanário Expresso de sábado passado (e é, de momento, a única fonte de que disponho) referia o termo do prazo da prisão preventiva do principal arguido como motivação para o despoletamento, nesta altura, do caso judicial. Sendo assim, não poderia o PS e o governo terem previsto à distância a possibilidade de desfecho do caso em plena campanha eleitoral, sobretudo porque o processo foi sendo arrastado ao longo de meses e era previsível, à semelhança de outros casos, que a acusação fosse ultimada próximo daquele prazo?

29 setembro 2019

 

O triunfo das vacas

Com algum atraso, por termos estado ausentes do nosso posto, publicamos o texto que se segue da autoria do celebrado escritor Jonathan Swift, por o reputarmos muito oportuno, não obstante o referido atraso motivado pela nossa ausência.




As vacas estão muito agradecidas ao reitor da mais vetusta universidade do nosso país. Tanto quanto sei, mal souberam da notícia daquele dignitário académico, reuniram-se em manada numa pradaria onde remansosamente pastavam ao fim do dia, depois de passada a onda de calor escaldante que tem sido o indício preocupante das alterações climáticas a que temos vindo a assistir, e festejaram vivamente a boa nova com mugidos intermináveis: uuu, uuu, uuu!...
Este é um dia de vitória para nós”, disse a mais circunspecta das vacas, a decana da pradaria, fremindo as narinas de satisfação. «Vamos deixar de ser carne para bocas de humanos, ao menos nas cantinas da mais velha universidade do país, uuu, uuu,uuu! Isto por decisão mui esclarecida do seu magnífico reitor, com aplauso dos seus estudantes, consoante rezam as notícias vindas a lume.» «Uuu, uuu, uuu!”, mugiram todas aos pinotes de alegria.
Não se trata de uma vitória integral”, prosseguiu a decana, «uma vez que a decisão que nos poupa à barbaridade de sermos comidas apenas concerne à velha academia, e nem a toda ela, mas tão-só às cantinas da estudantada. Portanto, nada de grande euforia. Só uma certa percentagem de estudantes é que nos vai deixar de comer – os que frequentam as cantinas – e mesmo esses nem sempre lá comem, mas também se desenfastiam de quando em vez em restaurantes e noutros lugares de comedoria, onde hão-de ingerir, para tirarem a barriga de misérias, a nossa carne, tão apreciada e tão arreigada nos hábitos gastronómicos dos animais que se dizem “pessoas”. Até em cafés e estabelecimentozecos de tapas e comidas para picar hão-de comer-nos, quanto mais não seja sob disfarces traiçoeiros, como croquetes, rissóis, pastéis de massa folhada, etc. E, quando vão de férias e passam a comer na casa das famílias e onde calha, também hão-de atraiçoar-nos degustando a nossa carne. Isto para já não falar na população da cidade dos doutores, a velha futricada, que essa não quer lá saber de decisões dos magníficos reitores.»
«Uuuuuuuuuuuu!…», fizeram num gemido longo as vacas em congresso.
«De maneira que não é tão bom como parece», prosseguiu a decana, «mas de qualquer forma é já um triunfo que temos que agradecer ao magnífico reitor e também, vá lá!, entoar um F-R-A em honra da estudantada. Não é que essa gente nos queira muito, porque, se eles resoveram prescindir da nossa carne, não é pelos nossos bonitos olhos, nem por nos terem muito amor. É porque querem preservar o ambiente e a saúde deles e a vida deles. Pelos vistos, a criação intensiva de gado vacum para a alimentação desses animais que têm a mania que são humanos está a dar-lhes cabo do seu futuro e também do planeta. Portanto, o que eles no fundo querem é evitar-nos, não prezar-nos. Precisamos de ter muita consciência disso.»
«Uuu,uuu!», assentiram as vacas em redor da sua mestra.
«Se fosse por prezarem o reino animal, esses velhacos não fariam distinção entre a nossa carne e a dos outros animais. Ainda há dias estive a conversar com o chefe de uma vara de suínos (não digo “porcos”, porque essa é uma expressão racista) e ele manifestou-me a sua raiva por a vetusta academia discriminar dessa forma a sua espécie em relação à nossa, achando-os dignos de serem comidos e nós não. Ou bem que eram todos iguais, ou não havia moralidade nenhuma. Disse-me o assisado chefe dos suínos que um escritor do passado chegou a falar no triunfo dos da sua classe, mas agora verificava que, afinal, as vacas é que pareciam triunfar, ao menos no reino da velha academia. Seria então que alguns animais continuavam a ser mais iguais do que outros?, perguntava ele com uma enérgica vibração. Ora eu, sendo honesta como sou, concedo-lhe toda a razão. Conheço de ginjeira esses gajos humanos. Todavia, temos que ser realistas. Sem menosprezarmos os interesses de todo o reino animal e, em especial, o dos nossos prezados suínos, temos que agir com toda a cautela e sagacidade e, digo mesmo, ma-trei-rice. Reparem que mesmo o presidente do nosso país disse que não prescindia de nos comer de vez em quando. Portanto, cau-te-la e son-si-ce, avisou com toda a solenidade a conspícua decana.
«Uu,uu,uu...», assentiram todas com vivos acenos de cabeça.
«Em primeiro lugar, acho que devíamos manifestar colectivamente o nosso agradecimento ao magnífico reitor».
«Uu, uu, uu» - concordaram todas.
«Depois, devemos dirigir-nos à Academia e não regatearmos elogios a toda a estudantada, enaltecendo o mais que pudermos o seu espírito inovador e modernista, na linha das boas tradições da mais vetusta universidade do país. Devemos tratá-los por ilustres doutores, geração fixe, nata do país e esperança da humanidade. E no fim entoarmos o hino preferido deles: F-R-A… F-R-A… Talvez um dia, desalojadas das pradarias, possamos circular pelas ruas da cidade, como nas cidades indianas, e, quem sabe?, termos a honra de participar nos cortejos académicos.»
Seguiu-se grande alarido de satisfação, não só com prolongados uuuuu, mas também com pateadas no solo e marradas generalizadas com entrechoque de chifres. 
Jonathan Swift (1665-1745) 

26 setembro 2019

 

A importância de um supremo tribunal

Um dos anacronismos das instituições do RU (e são muitos) era a inexistência de um supremo tribunal. Na verdade, até 2009, a última instância judicial estava integrada na Câmara dos Lordes, não havendo portanto uma separação clara entre o poder judicial e o legislativo, como é imposto pelo princípio do Estado de Direito.
A importância da criação do supremo tribunal, naquele ano, está agora à vista, ao ser tomada a decisão de anular a suspensão do parlamento, imposta pelo governo do Boris Johnson (a réplica britânica do Donald transatlântico). A não existir o supremo tribunal, o parlamento estaria fechado "para obras" enquanto conviesse ao governo. O supremo tribunal repôs em funcionamento o parlamento e a própria democracia, claramente lesionada pela decisão autoritária do Boris. Agora há no RU um novo ator institucional garante do princípio da separação de poderes do Estado.

23 setembro 2019

 

Telenovela mercenária

A telenovela "Nazaré" da SIC tem uma personagem que é enfermeira. Até aqui tudo bem. Acontece que essa personagem não foi concebida e delineada pelos guionistas da novela. Essa personagem foi "comprada" pela Ordem dos Enfermeiros por 38080 €, a fim de promover a imagem dos enfermeiros na opinião pública; e mais, para "pressionar o poder político para as questões que têm envolvido a profissão" (declarações da Bastonária).
Atingimos um grau máximo da manipulação da opinião pública. Agora até a ficção, a "inocente" ficção da telenovelas é objeto de compra e venda. É uma questão de preço. Vamos esperar pela "promoção" de outras profissões (dos motoristas de matérias perigosas, sei lá...). Temos que ter cuidado com as telenovelas que aí vêm. Todas as personagens "positivas" podem ter sido compradas...

19 agosto 2019

 

A rendição dos motoristas de transporte de substâncias perigosas




De facto o Dr. Pardal está num dilema. Ele tinha garantido que a greve poderia durar nem que fosse um ano, mas era previsível que ela tivesse de acabar dentro de pouco tempo. Por um lado, o Dr. Pardal poderia, por ele, ameaçar com uma greve ad aeternum, porque nem sequer é motorista e a greve não lhe mexe directamente com a carteira. Pode frustrar-lhe outros objectivos, mas não lhe acarreta sacrifício directo e imediato. Para quem é motorista e aderiu à greve é que a mesma poderia afectar seriamente o seu dia-a-dia, no caso de ela se prolongar por muito tempo.
Por outro lado, era previsível que a greve tivesse de terminar um dia destes devido à grande percentagem de serviços mínimos fixada pelo governo, que em certos casos atingiu a totalidade, ou seja 100%, e a enorme pressão que se fez desencadear sobre os trabalhadores em greve, quer por parte das entidades oficiais, quer por parte dos patrões, identificados com o interesse nacional, quer ainda da comunicação social. O isolamento desses trabalhadores era, assim, um caminho mais do que viável e foi uma técnica empregue persistentemente desde o início por uns e por outros, a que se juntou, não sei se com esse objectivo ou não, o aparecimento sistemático do representante da Fectrans na televisão, alardeando o êxito das negociações que manteve com a entidade patronal, à margem da greve, e servindo, pelo menos instrumentalmente, a aludida técnica de isolamento. Os trabalhadores que agora suspenderam a greve é que podem ter sido os maiores ludibriados e, no fim, poderão ter ganho uma acumulação de frustração. É a paga do seu mau comportamento, por terem ousado escapar dos controlos institucionais conhecidos.

Temo que o direito à greve saia desta experiência muito mais debilitado, mesmo sem se alterar a lei em vigor. É que podem governos futuros sentirem-se autorizados a intervirem em qualquer greve, sobretudo a pretexto da defesa do interesse nacional, adoptando medidas que, na prática, podem asfixiá-lo. Há indícios nesse sentido. Se um governo PS, sustentado no hemiciclo por partidos à sua esquerda, pôde tomar medidas geralmente consideradas “musculadas”, imagine-se o que não poderá ser com um governo mais à direita.

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