21 maio 2020
China VI
Guilin
Hoje
foi cedo o acordar: 06H30 locais.
Após
o pequeno-almoço no hotel, eis que vamos a caminho do cais do rio Li
para uma excursão de barco. O guia foi aproveitando a viagem de
autocarro para nos continuar a fornecer indicações sobre a cidade
de Guilin e a região. A cidade tem 800.000 habitantes (quatro
milhões se se contarem as zonas contíguas) e é puro o ar que aqui
se respira, límpidas as águas, que se podem beber directamente das
fontes e correntes, dispondo de invejáveis condições de
salubridade, graças à sua situação geográfica e condições
naturais. O governo protege, por meio de medidas adequadas, o
ecossistema deste espaço urbano e zonas envolventes. Por exemplo:
retirou daqui as indústrias poluentes e deslocou-as para outros
locais, nomeadamente a área de Cantão; preserva as tradições e
impôs limites à construção imobiliária, não podendo os
edifícios exceder determinada altura. Por isso, não se vêem por
aqui arranha-céus.
É
vulgar as pessoas atingirem idades provectas: mais de 100 anos. Há
uma mulher com 110 anos e outra faleceu com 118 anos. A reforma, em
toda a China, é aos 60 anos para os homens e 55 para as mulheres e
muitos chineses, depois de reformados, querem fixar-se aqui para
viverem outro tanto. Esta é a legenda da cidade, segundo o guia, o
simpático José. Só mais uma nota: Na China há cinco regiões
autónomas: Macau, Hong-Kong, Guanshi, Mongólia Interior e Tibete.
Nas regiões autónomas pode ter-se mais do que um filho. Guilin
pertence à região autónoma de Guanshi.
E
com isto, depois de 1 hora de viagem, já estamos a apear-nos, cada
qual com a caixinha do farnel que o hotel nos preparou, já
atravessamos as guardas que dão acesso ao cais, munidos do bilhete
que nos foi fornecido e por entre a vasta multidão de turistas,
encaminhamo-nos para o nosso barco (há vários), transpondo a
prancha de madeira que conduz ao portaló.
A
viagem ao longo do rio é um deslumbarmanto, que se prolonga durante
4 horas. Uma sucessão interminável de colinas de formas arrojadas,
mesmo inverosímeis, de vertentes muito abruptas e picos a furarem o
céu, oferecendo perspectivas inesperadas a cada volta do rio, umas
isoladas, outras agrupadas, em duetos como se fossem irmãs, ou em
magotes, com os pináculos formando serrania, esta estrangulando a
corrente, a outra mais além obstruindo ilusoriamente a passagem,
aquelas duas estando dispostas de tal maneira nas curvas do rio que
simulam uma garganta entre gigantes, como Sila e Caríbedes, as mais
longínquas envoltas em neblina, esfumadas e como se estivessem
grudadas ao céu. Muitas têm nomes que evocam as figuras que as
formas sugerem, como a célebre colina da Tromba de Elefante. Este é
o cenário de muitas pinturas clássicas evocativas das paisagens
chinesas.
O
almoço foi a bordo, cada qual extraindo o conteúdo da caixinha que,
desde o hotel, o acompanhava, o que contribuiu para dar uma agradável
sugestão de viagem campestre.
O
regresso foi no autocarro que nos levou de manhã cedo. Já chegámos
para lá do meio da tarde. O tempo até ao jantar foi ocupado como
cada um quis. E havia onde passar esse bocado da tarde, nomeadamente
nas margens rústicas do lago que se encontra mesmo perto do hotel do
outro lado da rua. Já falei dos seus arruamentos em terra, por entre
árvores, arbustos e plantas da mais variada espécie, conferindo ao
local um resguardo protector para os dias de grande calor.
Após
o jantar, fomos fazer uma excursão de barco pelos lagos do centro,
denominados o lago Cedro (Shanhu) e o lago Figueira (Ronghu),
ligados um ao outro e navegáveis como se fossem um rio. A embarcação
tinha um aspecto de bar nocturno, com mesas e bancos, onde nos fomos
sentando. Como a noite estava boa, muitos subiam à amurada para
melhor desfrutarem da viagem. Ao longo da passeata, a cidade
ia-se-nos revelando, iluminada e multicolorida (os chineses parecem
apreciar muito as iluminações nocturnas das cidades e pôr nisso um
brio especial). Zonas ribeirinhas, jardins, parques, pontes, casebres
das margens iam desfilando a um lado e outro.
A
pesca ncturna foi uma das atracções mais inéditas e bizarras que
se nos deparou. Os pescadores postavam-se no meio do rio, de pé, em
barquitos pequenos, quase pranchas de surf, cada qual em seu
barquito, um aqui, outro lá adiante, trajados com fatos
fosforescentes e iluminados por uma lanterna ou coisa parecida.
Tinham como companheiros corvos marinhos e eram estes que,
devidamente amestrados, mergulhavam nas águas a um sinal gutural
dos pescadores. Quando regressavam ao barquito, depois de uns
momentos em mergulho, não aparentavam trazer nada com eles. Porém,
os pescadores apertavam-lhes o pescoço, num gesto sacudido que
parecia de estrangulamento, e eles largavam, inteirinho, o peixe que
tinham engolido. Disse-nos o guia (o tal José) que os corvos são
recompensados e procuram os maiores peixes.
Outra
das surpresas que a viagem nos porporcionou foi um bailado executado
num terraço sobre o rio por um conjunto de jovens beldades
pertencentes a uma minoria étnica. Não seria nada de especial, se
não tivesse surgido como uma espécie de espectáculo onírico,
deusas marinhas ou ninfas que tivessem surgido do fundo das águas
para deslumbrarem o viajante.
Uma
última curiosidade foram as torres octogonais dos dois pagodes
conhecidos como o Sol e a Lua, erguendo-se no lago Shanhu (Cedro),
cada qual delas trepando nas alturas em vários andares com os seus
telhados típicos. A mais alta, a do Sol, está iluminada em tons
dourados e a da Lua, um pouco inferior, em tons prateados. Ambas
produzem um belíssimo efeito na noite de Guilin, que as toma como ex
libris.
No
regresso, o barco foi mesmo transformado em bar nocturno com uma
jovem chinesa tocando piano chinês e difundindo aquelas sonoridades
orientais tão delicadas e sonhadoras.
Como
se intui do descrito, a viagem tem o seu quê de menu turístico, o
que mais uma vez prova a actual capacidade demonstrada pela China
para atrair o forasteiro, dando- lhe a comer as iguarias que são as
preferidas de quase todo o turista, mas não deixa de ser
interessante e reconfortante. Valeu a pena sobretudo para ver a
cidade à noite no multicolorido das suas luzes e as torres dos
pagodes, que têm outra beleza iluminadas.
Estamos
num outro dia, mas ainda em Guilin. O acordar foi às 07h00. Saída
de autocarro em direcção ao museu das pérolas, que de museu tem
pouco. Uma visita dirigida ao turista consumidor e à promoção da
produção e comércio locais.
A
coisa começou num auditório, onde houve desfile de beldades
exibindo as jóias com que adornavam o colo e os braços,
movimentando-se no tablado para trás e para a frente, ao som de
música, pondo em evidência os seus enfeites. De seguida, passou-se
à sala da exposição das jóias, onde uma senhora fez uma parlenda
sobre a cultura das pérolas. Estas são provenientes de ostras, as
quais produzem nácar como forma de defesa contra objectos estranhos
que entram nas suas conchas – processo esse que, demorando anos, dá
origem às pérolas. Há-as de água salgada e de água doce, sendo
as de água salgada de melhor qualidade. Exemplificou com a abertura
de um ou outro molusco, que retirou de aquários onde se cultivavam.
Também deu explicações sobre os tamanhos e os feitios (as de forma
redonda é que são aproveitáveis para colares e pulseiras de
qualidade) e sobre a maneira de distinguir as pérolas verdadeiras
das falsas (aquelas, sendo friccionadas, largam umas particulazinhas
quase imperceptíveis de pó, as outras, não).
Passou-se
de seguida à venda, no fundo o acto mais importante para que tendiam
todos os passos anteriores. E foi um corrupio à volta dos
mostradores e balcões, um fervilhar de desejos e de pequenas
explosões de entusiasmo, com os da casa incentivando à compra com
acenos de aprovação e palavras de encarecimento (normalmente em
inglês) dos objectos sobre que se detinham mais demoradamente os
olhares ou sobre os quais incidiam as inclinações dos potenciais
compradores. Foi assim que gastei os últimos yenes, confortando-me
com a necessidade de gastar aquela moeda, dado que, daí para a
frente, a mesma já não tinha cotação. Haveria de ser o dólar de
Hong-Kong.
Em
Guilin ainda fomos visitar a Gruta da Flauta de Cana. É uma das
grutas maiores e mais célebres desta zona de rios, lagos, colinas e
grutas. Trata-se de uma enorme galeria, na qual se desce em
profundidade, com estalactites e estalagmites formando as mais
fantásticas figuras: leão, homem da neve, queda de água e muitas
outras figuras imaginárias. Um microcosmo com elementos naturais e
artificiais, estes consistentes sobretudo nos arranjos de luzes e
sonoridades, onde se percebiam chilreios de pássaros, que na
realidade não existiam. Em tempos ancestrais, fluiria por aqui um
rio. No final, junto de um dos lagos da gruta, houve espectáculo com
alusão cosmogónica e bailado. Na verdade, não se pode dizer que os
chineses não sabem explorar convenientemente os seus recursos também
do ponto de vista da indústria turística.
Terminada
a visita, metemo-nos no autocarro com destino à estação dos
caminhos-de-ferro. Despedimo-nos do José (afinal, Dong, o seu nome
chinês, soube-o nesta altura). Dirigimo-nos para o comboio, que
acabara de parar na plataforma, à procura da carruagem que o bilhete
designava. Num rápido, num rápido, que o tempo urgia. Com toda a
bagagem (mala grande, uma mochila, o volume do edredon e ainda uma
caixinha com o lanche ou almoço, que tinha sido preparada no hotel).
Toda a gente se precipita para as portas, as pessoas demoram a
subir, demoram a entrar, por causa dos engarrafamentos, uma aflição.
Por fim, consegui subir com toda a tralha e arrastá-la lá para
dentro. Na coxia, as pessoas permandeciam de pé, atarefadas a
colocar a bagagem nas prateleiras, completamente repletas. Quando
consegui mover-me lá para dentro, vi um espaço livre numa
prateleira, por cima do lugar onde iam duas jovens. Atirei a mala
grande para esse sítio e, por felicidade, ela coube lá, embora com
um dos rodados ligeiramente de fora, o que não pareceu agradar às
referidas jovens. Verifiquei as condições de segurança e
mostrei-lhes que a mala estava segura. Entalei o volume do edredon,
mais espalmado, num espaço que havia entre as costas do último
banco da carruagem e a parede do compartimento, confiando em que
ninguém me pegaria nele. Fui depois à procura do meu lugar.
Acomodei a mochila aos pés e respirei fundo, já o comboio, tipo
Alfa, rodava a boa velocidade. Embalado entre estações, atingia 300
kms. por hora.
Fui
lendo uns contos maravilhosos de Gao Xinjiang, prémio Nobel da
Literatura no ano 2000 (Uma Cana De Pesca Para O Meu Avô,
publicações Dom Quixote) e espreitando a paisagem. Planícies a
perder de vista, áreas cultivadas, relevos boleados, povoações
aqui e acolá, centros urbanos, tudo incaracterístico, assim me
pareceu. Sobretudo no que diz respeito aos edifícios, que a paisagem
era agradável à vista, inundada de sol. O comboio parou em várias
estações e, já perto de Hong Kong, parou em Cantão, uma grande
mole urbana com prédios trepando para o céu, mas onde também não
divisei nada que chamasse a atenção.
Ao
cabo de três horas e meia de viagem estávamos em Hong Kong. Já
estava o autocarro à nossa espera com o respectivo guia, que falava
castelhano. Enquanto a viagem durou, foi-nos dando explicações
sobre a cidade. No hotel – o Harbour Plaza Metropolis, de 4
estrelas – coube-me o quarto n.º 69 no 17.º andar. O hotel ficava
num alto e dele se divisavam estradas rápidas, cruzadas,
sobrepostas, passagens aéreas, carros circulando a alta velocidade.
O centro ficava a uns 20 ou 30 minutos de distância. Pequenos
autocarros do hotel transportavam quem quisesse para lá, de meia em
meia hora, se não estou em erro. Nesse dia, porém, com o cansaço
da viagem e a freima da instalação, mais o tempo gasto no câmbio
(troca de euros pelos tais dólares de Hong Kong – os funcionários
examinavam cada uma das notas minuciosamente, virando-as de um lado e
outro), acho que ninguém saiu. Entretanto já eram horas de jantar,
que não houve (o único dia em que tal aconteceu). Andando perdido
pelo foyer do hotel, depois de arrumadas as malas, acabei por
encontrar duas pessoas que também vagueavam pelo mesmo local (duas
senhoras, que eram companheiras de viagem e partilhavam o mesmo
quarto). Desprezamos o restaurante e o bar do hotel e fomos para o
centro comercial contíguo (Metropolis), que comunicava com aquele.
Circulámos por corredores vazios, com lojas praticamente desertas
àquela hora, num cenário universalmente estereotipado. Acabámos
por ir dar a um pequeno restaurante que não tinha ninguém – uma
dessas manjedouras de centro comercial. Mandámos vir lasagna à
bolonhesa para todos (não havia muito mais) e uma sopinha de tomate
picante. Acompanhámos com chá. Foi um pouco desolador em termos
gastronómicos, mas divertimo-nos com piadas ao que nos rodeava. No
quarto, o mais acanhado em toda a viagem, telefonei para casa, mas o
WatsApp não deu (finalmente experimentava a interdição que
impendia sobre essa rede social). Tive que fazer chamada pelo Rooming
só para dizer olá, porque o preço escalda. Dormi com as malas por
desmanchar, porque no dia seguinte partiríamos para Macau, de onde
regressaríamos dois dias depois a Hong Kong. O grosso da bagagem,
contudo, ficaria nos arrumos do hotel.
25 abril 2020
Pensamentos de um político singular
(Para
que o leitor se ocupe, em tempos de pandemia, a procurar a quem podem
caber estes pensamentos)
Estamos
confinados nas nossas casas, por via de um ser ínfimo e invisível,
que é o coronavírus (do latim corona
- “coroa”), ou seja, o vírus coroado em rei do nosso tempo. É
ele quem manda no nosso destino por estes dias.
Este
vírus faz jus ao seu nome: vira tudo ao contrário. Um rei que nos
manda andar às avessas. Nunca se viu um ser tão minúsculo pôr
toda a gente de quarentena, refugiada com medo dele. Na verdade, ele
despacha muita gente para o cemitério e, para além disso, paralisa
toda a economia.
Mas
será que nós vamos ter que obedecer a um serzinho destes? Ter a
indústria parada?, os transportes imobilizados?, as casas de
comércio fechadas?, os restaurantes sem vivalma?, os cafés e
botequins vazios?, as casas de espectáculos às moscas?, as escolas
sem mestres e sem discípulos?,os céus livres de ruído e de
fumarada?, as estradas libertas dos engarrafamentos e do rebuliço do
quotidiano?, enfim, será que vamos abdicar de tudo aquilo que é
sinal de vida e sangue e luta? Não. Não vamos ter essa atitude,
senhores. Vamos enfrentar esse vírus e dar-lhe uma ensinadela.
Enfrentá-lo como homens de barba rija e de peito feito. Dar cabo
desse reizinho, desse bicharoquinho. Veja-se aquele presidente do
país do samba. Ele tem muita razão, até porque ele é destemido e
foi capitão da tropa. Ele não tem medo do vírus e veio cá para
fora sem máscara nem viseira, pronto a pegar no vírus pelos cornos,
como um touro no redondel (eh, vírus! eh...eh!), exortando o povo a
seguir o seu exemplo.
Ora
aí está! Temos de nos deixar de “mariquices” e voltar a encarar
a vida com firmeza e fortaleza. A vida não é dos fracos, nem dos
impotentes; a vida é sangue e luta; a vida é dos fortes e dos que
arriscam, não dos timoratos, nem dos que ficam pelo caminho. Alguns
cairão doentes, mas isso é próprio de quem vai à luta. Há
perdedores e ganhadores; sempre assim foi e há-de ser.
Dizem
que são os velhinhos os alvos preferenciais do vírus. Pois, se
assim é, deixá-los ir, dando a vez aos jovens e saudáveis. Nestes
reside a força, a coragem, o denodo. E talvez se possa dizer que o
último tributo válido dos velhinhos à continuação da vida seja o
de poderem contribuir para a imunidade geral, de que tanto se tem
falado. Aliás, como disse um governador de um Estado, nos United
States, “os velhos deviam voluntariar-se para morrer”. Isso, por
paradoxal que pareça, é que seria um grande hino à vida,
principalmente da vida daqueles de nós que ainda têm a esperança
de muito tempo pela frente, como provavelmente será o caso do
referido governador.
Por
estes dias temos assistido a um espectáculo deplorável: perdão de
penas e liberdade condicional para os reclusos, a pretexto do vírus.
Isto é inqualificável e bem pode ficar com um nome para a história
vergonhosa das nossas instituições: virulência.
Veja-se o paradoxo: cidadãos honestos sem poderem sair, confinados
em casa, e os criminosos fora das prisões. Bem certo que se diz
deverem els ficar com igual obrigação de retenção em casa, mas
mesmo isso é inadmissível, pois tal equivale a torná-los iguais a
nós, ou seja, a equiparar-se a banditagem ao comportamento ordeiro
dos restantes cidadãos. É este o perigoso igualitarismo que está
em vigor no nosso país. Os nossos governantes aduzem que é por
causa do vírus. Mas então o vírus é o tal reizinho que manda no
país e os nossos governantes são os títeres manobrados pelo
bicharoco, como num teatro de marionetes? Vergonhoso!
Querem
estes cavalheiros celebrar o dia da liberdade! Mas que liberdade,
quando está toda a gente metida de portas adentro? Só se for a
liberdade que pôs os criminosos fora das prisões. A liberdade
indiscriminada dos vendilhões do templo. Temos de nos livrar desta
liberdade que mistura o crime com a vida honesta.
Soltem
mas é a economia, abram o comércio e as indústrias, ponham cá
fora a mão-de-obra, glorifiquem o trabalho. Arbeit
macht frei.
Jonathan
Swift (1667-1745)
22 abril 2020
China V
Manhã em Shangai. O autocarro já está à nossa espera, à porta do Center Hotel, onde me coube o quarto 2004, no 20.º andar. O infalível Júlio, de pé, ao lado do autocarro, aponta-nos a porta da frente. Aí vamos nós por esta manhã de sol (que sorte temos tido, ao longo destes dias!) marchando por entre prédios altíssimos que fazem as ruas parecerem estreitas, com destino precisamente a um dos edifícios emblemáticos desta cidade, que disputa a Nova Iorque o cenário urbano. E aí está o Jin Mao, um dos arranha-céus mais alto da cidade, com 88 andares. Subimos ao topo, em elevadores ultra-rápidos. Lá de cima perscrutámos demoradamente, em toda a roda, a cidade, com o sol a entrar de jorro pelas vidraças e a sensação de estarmos nas núvens. Uma miríade de pináculos, em que se avantajavam o edifício Pérola (torre da televisão) e a Torre de Shangai, com 120 andares; ao longe, o grande rio Yang Tse e o seu afluente Huangpu , irradiando num poço de luz. Até por estes dois rios Shangai parece emular Nova Iorque.
De caminho para o templo do Buda de Jade, passámos pelo centro financeiro, com as respectivas catedrais da finança erguendo para o alto as suas torres. O Templo Buda de Jade é um templo grandioso construído nos finais do século XIX por iniciativa de um monge budista, que coligiu os necessários fundos para albergar duas estátuas de Buda que trouxe de Burma, por ocasião de uma peregrinação que fez ao Tibete. O templo foi destruído no tempo da revolução nacionalista de Sun Yat-sen de 1911 e reconstruído entre 1918 e 1928. Dos vários halls e câmaras que o compõem, destacam-se o dos Reis do Céu, onde se exibem as estátuas dos Quatro Reis do Céu e as estátuas douradas de Maitreya e de Weituo; o grande hall, onde se seguem câmaras contendo várias estátuas douradas de Buda e várias divindades, a estátua dourada de Guanyin (deusa da misericórdia) e da discípula Sudhana ao seu lado, representando a última fase da aprendizagem budista, mas o que me feriu mais a atenção foram as câmaras onde se encontram as tais duas estátuas trazidas pelo monge fundador, estátuas estas em jade branco, uma representando Buda sentado, em tamanho gigante, e outra representando Buda deitado com um riso beatífico e ameninado ou bonacheirão, provavelmente imerso no Nirvana.
Este templo foi também vandalizado pelos activistas da revolução cultural, que nele implantaram, em vez do Buda, o retrato de Mao Zedong, assim elevado ao plano da divindade e do culto dos fiéis. Agora totalmente reposto, recebe as visitas dos devotos, não do grande timoneiro, mas dos crentes budistas. Aparecem com pauzinhos de incenso a arder, espalhando em redor um odor forte, e fazem vénias enormes ao Buda, antes de se ajoelharem, e quando terminam as orações, voltam a fazer três vénias profundas, de joelhos, levando a cabeça ao solo.
Vamos agora em direcção ao restaurante, mas como a visita ao jardim Yuyuan, o jardim do Mandarim, foi suprimida, assim como o passeio pelo Bund, por causa dos preparativos para a Expo, paramos numa oficina da seda, um dos locais sempre recomendáveis para o turista fazer os seus dispêndios. E aqui foi realmente a minha perdição. Caí na asneira de comprar um edredão e respectivas almofadas, tudo em seda, claro. Para além da soma que tive de pagar em euros (uma das moedas com cotação internacional mais desejadas), tive de passar a carregar, durante o resto da viagem, o embrulho, que, não sendo muito pesado e estando bem ajeitado e comprimido, em saco de nylon com asas, veio juntar-se incomodativamente ao resto da bagagem e originar penosidades de transporte e arrelias nas estações ferroviárias, nos autocarros e nos aeroportos, contribuindo para complicar as já de si ensarilhadas formalidades de controle. Ninguém me mandou ser parvo turista e, por isso, tive a sanção merecida.
Depois do agradável almoço em restaurante, fomos para a cidade velha. É um dédalo de ruas estreitas, a engurgitar de gente, com prédios de construção chinesa tradicional, telhados em forma de quilha de barco, contrastando com a cidade moderna dos arranha-céus e movimento frenético. Aqui não há carros, há pessoas a pé, deambulando descontraídamente, entrando e saindo dos estabelecimentos, que são aos milhares, juntando-se nas pequenas praças, em amena convivência. Tudo tem um aspecto íntimo e aconchegado, pese embora o amontoado de pessoas, para o que contribui a estreiteza das ruas, a disposição das casas, estas aqui encavalitadas sobre o lago serpenteante, conferindo ao ambiente um ar de cascata, o ar familiar que perpassa por todo o conjunto humano. Passeia-se por estas ruelas gostosamente, por entre o formigueiro de pessoas, metendo o nariz em cada entrada de loja, e são de todo o estilo as lojas – mercearias, casas de chã, estabelecimentos de roupas, de electrónica, lojecas de bugigangas, quiosques, restaurantes e stands de comida de rua – admirando o belo cenário que se nos depara a cada esquina. Mas não podemos ficar aqui a morar, que o tempo de que dispomos está medido ao minuto.
E assim vamos para um passeio de barco pelo rio Huangtsu. Com o cair da noite, os grandes edifícios da cidade moderna iluminam-se, e isso é um espectáculo digno de se ver. Os barcos carregam-se de turistas, como em Nova Iorque. Um a um, os arranha-céus vão acendendo as suas luzes, caprichando em exibicionismos luminotécnicos. Luzes de todas as cores, espiralando pelos edifícios, subindo até aos pináculos e descendo por eles abaixo, tremelicando, piscando, mudando de cor e de feitio, formando um arco-íris ao longo de todo o percurso. É a grande cidade a anunciar a noite. No barco vai um corrupio, uma algaraviada de vozes, um tal disparar de máquinas fotográficas, de telemóveis e de tablets, turistas onde há vozes estrídulas de asiáticos sobrepondo-se uns aos outros, acotovelando-se, “roubando” as vistas ao parceiro do lado ou de trás, no afã de filmarem a cena em vídeo.
No trajecto para o jantar, o patusco Júlio voltou a arranjar ensejo para falar do seu catolicismo, mas parte da malta protestou vivamente e houve quem lhe dissesse que guardasse a sua religiosidade para outras ocasiões e que se limitasse a falar de temas ligados à viagem. Ele, porém, não pareceu molestar-se, mas deixou efectivamente de falar na religião. O jantar num restaurante fora do hotel é que veio animar toda a gente e conferir unanimidade relativamente à qualidade dos pratos, que eram servidos em regime de self service. Até as sobremesas, de ordinário sofríveis nos sítios por onde tínhamos andado, eram acima da mediania, com vários tipos de gelado e bolos e, a coroar tudo, chã ou café (grande maravilha).
A noite terminou com uma passeata livre pela célebre Rua Nanquim, uma rua interminável mesmo ao lado do hotel, pejada de pessoas e de lojas de todo o tipo, grandes armazéns, mercearias, restaurantes, comida de rua, casas de chã, tendas de roupa e de fruta, enfim uma gigantesca área comercial, animada de luzes e de movimento, nesta noite de sábado para domingo. Uma boa estafadela, depois de uma jornada intensa, parando aqui, parando acolá, embasbacando diante de certos estabelecimentos, pois alguns companheiros de viagem o que querem é farejar coisas para comprar. É a praga do turista.
Às tantas, apanho a boleia de um casal que vai já retrocedendo rumo ao hotel. No alto do 20.º andar, ainda me chegam ecos do bulício na rua, sobretudo ecos musicais. Espreito pela janela, antes de me deitar, e ainda há pessoas a formigar lá em baixo, as quais parecem mesmo formigas.
Domingo. A rua Nanquim, vista de cá de cima, está sem movimento a estas horas da manhã. Após o pequeno-almoço no hotel, aí vamos nós no autocarro, levando na frente o infalível Júlio, não sei se depois de ter assistido à missa dominical. Foi coisa que não lhe perguntei, por um lado porque a fé é do foro íntimo de cada um; segundo, porque poderia despertar uma daquelas suas divagações místicas e provocar uma tempestade no autocarro. Assim, vamos tranquilos a caminho do Museu Nacional de Shangai, com ele a elucidar o que se vai deparando a um lado e outro da cidade.
Shangai é uma metrópole com 20.000.000 de habitantes, parecida com as grandes cidades europeias, exceptuando a parte velha (aliás, foi submetida a grande influência e até administração de potências europeias, após o Tratado de Nanquim de 1842, no seguimento da Guerra do Ópio) e parece emular a cidade de Nova Yorque. Tenho dificuldade, nesta correria pelas grandes avenidas atravessando florestas de arranha-céus em autocarro de turismo, em imaginar o cenário onde decorreu a acção do grande romance de André Malraux – A Condição Humana – que eu li pela terceira vez, pensando nesta viagem. Leitura perfeitamente inútil desse ponto de vista. O cenário do romance permanece-me tão abstracto como antes. Estas viagens de agora são viagens-relâmpago; não dão para tomar o gosto às coisas, para nos envolvermos na atmosfera de um local, para pesquisarmos algo ou, ao menos, darmos substracto a um capricho de imaginação, que é muitas vezes de onde vem o impulso para irmos ao encontro do desconhecido. Fica então sem um referente material esse território imaginário onde decorreram os trágicos acontecimentos que se desenrolaram num espaço de tempo concentrado e densíssimo, entre 27 de Março e 12 de Abril de 1927, de enfrentamento entre revolucionários do Partido Comunista Chinês (PCC), tentando liderar o movimento de trabalhadores em insurreição, e as tropas de Chiang-Kay-Chek, de cujo partido – o Kuomitang – o PCC era aliado, obedecendo a orientações estratégicas de Stalin e do Komintern. O enfrentamento desembocou no massacre dos comunistas em 12 de Abril e na prisão e tortura até à morte de muitos dos seus revolucionários. Os acontecimentos descritos por André Malraux adquirem, para além da expressão de uma tragédia colectiva, uma dimensão trágico-individual com ressonâncias existenciais fundíssimas, que justificam o título da obra – A Condição Humana. Kyo e a sua namorada May, Gisors (pai de Kio), Katow, o revolucionário que cedera a sua dose de cianeto a dois outros prisioneiros, expondo-se, assim, ele próprio à tortura, Tchen, o revolucionário que se transformou em terrorista-suicida, todas essas personagens têm uma espécie de desmesura que as aproxima do sobre-humano, ou seja, da vontade “de escapar à condição humana”, como Gisors sentencia a dado passo.
E com isto chegamos ao museu de Shangai. Muito à vol d’oiseau, aqui vai uma referência ao que se nos depara nas várias galerias, a começar no rés-do-chão e subindo pelos seus três andares:
Rés-dochão: bronzes, alguns muito antigos, do 13.º ao 11.º séculos a. C. Objectos e instrumentos já bastante notáveis, quer do ponto de vista da execução, quer da forma artística: talhas e vasos de vinho, potes para comida, instrumentos de trabalho (pás, facas, espadas, etc.), instrumentos musicais (os mais perfeitos datam dos séculos VII e VI a.C.); um espelho em bronze transparente da dinastia Han (206 a.C. - 220 d. C.) Escultura chinesa antiga.
Nos pisos superiores:
Galeria das cerâmicas. Peças muito interessantes, sobretudo das dinastias Ming e Kim.
Galeria das pinturas e caligrafias. Pouco vi de pintura, que me pareceu consistente, na maior parte, em painéis compridos, de forma rectangular, com paisagens típicamente chinesas. Caligrafias efectuadas de cima para baixo em grandes tiras de papel dispostas verticalmente.
Galeria dos objectos de jade. Esta galeria abrange várias épocas, desde a Antiguidade até tempos mais recentes, contendo peças de adorno, estatuetas, etc., muitas delas admiráveis, sem dúvida, sendo a galeria do museu de longe mais concorrida, não só por turistas internos, mas também externos à China, formando grupos diante das vitrinas e obrigando a tempos de espera.
Galeria de selos e numismática. Passei de largo pelos selos, retendo-me diante de alguma espécie mais fora do vulgar, nomeadamente os primitivos selos do império. Quanto à numismática, dei uma espreitadela ao conjunto, por não me interessar particularmente e, ante a limitação de tempo, ter que escolher.
Galeria do mobiliário chinês das dinastias Ming e Kim. Aqui, sim, detive-me diante de peças esplêndidas, nomeadamente uma mobília de quarto imperial, mas também de outros mobiliários de uso doméstico.
Á saída do museu, enganei-me na porta que devia usar para me reunir com os companheiros de viagem; uma vez lá fora e dando pelo erro, pensei em retroceder pela mesma porta pela qual tinha saído uns dez minutos antes, mas não era permitida a entrada por ali. Usando o meu escasso inglês e gestos, falei com um dos funcionários que estava à porta e disse-lhe, mostrando-lhe o bilhete de entrada no museu que ainda conservava comigo, que me tinha enganado e que tinha os companheiros de viagem do outro lado. Ele permitiu-me a entrada, mas obrigou-me a passar novamente pelo controle, e tive que colocar na máquina o saco de viagem, a máquina fotográfica e o casaco para serem radiografados e sujeitar-me àquela fiscalização pessoal que é de uso, com aparelho electrónico de mão. Estava a passar a porta giratória e o infalível Júlio a entrar por ela, com intuito de me procurar.
Almoçámos em restaurante já previamente contratado, como tem sucedido sempre.
Enquanto seguíamos de autocarro, travou-se inesperadamente um diálogo com o Júlio a propósito da situação que se tem vivido em Hong-Kong (manifestações de protesto que duram há meses em prol da plenitude dos direitos, liberdades e garantias democráticos, conforme o compromisso das autoridades chinesas com os antigos colonos ingleses, no acto da restituição do território à China em 1997. Curiosamente, o Júlio pôs-se a expender o mesmo ponto de vista das autoridades de Pequim, ou seja, do Comité Central do Partido Comunista da China, ele que confessou não ser filiado nesse partido e ter demonstrado durante a viagem uma visão e hábitos culturais pouco conformes com a ortodoxia chinesa. E afirmava acaloradamente que os distúrbios que estavam a ocorrer naquele território eram inspirados pelos Estados Unidos da América e por outras potências ocidentais, interessadas em fomentar a desordem. Eu disse “curiosamente” e daí talvez não, porquanto a atitude de Júlio era, ao fim e ao cabo, demonstrativa de uma rigidez em matéria política, que tem na generalidade dos cidadãos chineses uma câmara de eco da propaganda governamental, ao passo que o seu catolicismo, conquanto bacoco e reaccionário, é sinal da abertura que os actuais líderes do Partido Comunista instauraram em matéria económica, religiosa e a nível de certa vivência comunitária, como decorrência da abertura da economia ao mercado.
Após o almoço, embarcámos no célebre comboio magnético, a caminho do aeroporto, onde iríamos tomar o avião para Guilin. O percurso, de cerca de 30 kms., fez-se em cerca de 8 minutos, com uma ou duas paragens pelo meio. O comboio não teve tempo para atingir os 400 kms. horários que pode atingir, mas passou dos 300 kms. por hora, marcados no visor por cima da porta da carruagem. O comboio circula dentro de uma plataforma, mas não tem carris; é impelido pela força magnética.
No aeroporto de Shangai, despedimo-nos do Júlio, após as formalidades, que foram muito demoradas – um tormento que já vem sendo habitual e que desafia a proverbial paciência chinesa, mas lá consegui passar com toda a bagagem, incluindo o volume do edredão e travesseiras, um empecilho que passei a ter de suportar e que me obriga a andar com ele na mão até à entrada do avião, para além da bagagem que vai comigo no assento, pois o mesmo não me cabe na mala que vai no porão.
O voo até Guilin durou 02h30m. Chegámos mesmo ao fim da tarde. À nossa espera já lá estava o guia local, que disse chamar-se José, na tradução do seu nome chinês. É um jovem muito simpático; fala excelentemente bem o castelhano e é dotado de um formidável sentido de humor. Acompanhava-o um outro amigo, que também arranhava uma palavras na mesma língua. Enquanto viajávamos de autocarro até ao hotel, elucidou-nos sobre as características da terra.
O hotel onde ficámos, de 4 estrelas, como sempre tem sucedido, chama-se Lijian Waterfull Hotel; fiquei no 8.º andar, quarto n.º 68. Consegui telefonar para casa pelo WatsApp. Tenho tido sorte nos meus telefonemas diários, apesar de me terem advertido que na China essa rede social é proibida. Jantámos num restaurante fora do hotel. Após, quem quis passeou pelo centro comercial ao ar livre, estendendo-se por várias ruas, mesmo perto do hotel. Chuviscava. O clima, aqui, parece ser um pouco mais húmido, por força das montanhas que rodeiam a cidade, conferindo ao local um ar bucólico, que o rio, com suas margens arborizadas e ajardinadas e rústicos caminhos de terra, acentua.
De caminho para o templo do Buda de Jade, passámos pelo centro financeiro, com as respectivas catedrais da finança erguendo para o alto as suas torres. O Templo Buda de Jade é um templo grandioso construído nos finais do século XIX por iniciativa de um monge budista, que coligiu os necessários fundos para albergar duas estátuas de Buda que trouxe de Burma, por ocasião de uma peregrinação que fez ao Tibete. O templo foi destruído no tempo da revolução nacionalista de Sun Yat-sen de 1911 e reconstruído entre 1918 e 1928. Dos vários halls e câmaras que o compõem, destacam-se o dos Reis do Céu, onde se exibem as estátuas dos Quatro Reis do Céu e as estátuas douradas de Maitreya e de Weituo; o grande hall, onde se seguem câmaras contendo várias estátuas douradas de Buda e várias divindades, a estátua dourada de Guanyin (deusa da misericórdia) e da discípula Sudhana ao seu lado, representando a última fase da aprendizagem budista, mas o que me feriu mais a atenção foram as câmaras onde se encontram as tais duas estátuas trazidas pelo monge fundador, estátuas estas em jade branco, uma representando Buda sentado, em tamanho gigante, e outra representando Buda deitado com um riso beatífico e ameninado ou bonacheirão, provavelmente imerso no Nirvana.
Este templo foi também vandalizado pelos activistas da revolução cultural, que nele implantaram, em vez do Buda, o retrato de Mao Zedong, assim elevado ao plano da divindade e do culto dos fiéis. Agora totalmente reposto, recebe as visitas dos devotos, não do grande timoneiro, mas dos crentes budistas. Aparecem com pauzinhos de incenso a arder, espalhando em redor um odor forte, e fazem vénias enormes ao Buda, antes de se ajoelharem, e quando terminam as orações, voltam a fazer três vénias profundas, de joelhos, levando a cabeça ao solo.
Vamos agora em direcção ao restaurante, mas como a visita ao jardim Yuyuan, o jardim do Mandarim, foi suprimida, assim como o passeio pelo Bund, por causa dos preparativos para a Expo, paramos numa oficina da seda, um dos locais sempre recomendáveis para o turista fazer os seus dispêndios. E aqui foi realmente a minha perdição. Caí na asneira de comprar um edredão e respectivas almofadas, tudo em seda, claro. Para além da soma que tive de pagar em euros (uma das moedas com cotação internacional mais desejadas), tive de passar a carregar, durante o resto da viagem, o embrulho, que, não sendo muito pesado e estando bem ajeitado e comprimido, em saco de nylon com asas, veio juntar-se incomodativamente ao resto da bagagem e originar penosidades de transporte e arrelias nas estações ferroviárias, nos autocarros e nos aeroportos, contribuindo para complicar as já de si ensarilhadas formalidades de controle. Ninguém me mandou ser parvo turista e, por isso, tive a sanção merecida.
Depois do agradável almoço em restaurante, fomos para a cidade velha. É um dédalo de ruas estreitas, a engurgitar de gente, com prédios de construção chinesa tradicional, telhados em forma de quilha de barco, contrastando com a cidade moderna dos arranha-céus e movimento frenético. Aqui não há carros, há pessoas a pé, deambulando descontraídamente, entrando e saindo dos estabelecimentos, que são aos milhares, juntando-se nas pequenas praças, em amena convivência. Tudo tem um aspecto íntimo e aconchegado, pese embora o amontoado de pessoas, para o que contribui a estreiteza das ruas, a disposição das casas, estas aqui encavalitadas sobre o lago serpenteante, conferindo ao ambiente um ar de cascata, o ar familiar que perpassa por todo o conjunto humano. Passeia-se por estas ruelas gostosamente, por entre o formigueiro de pessoas, metendo o nariz em cada entrada de loja, e são de todo o estilo as lojas – mercearias, casas de chã, estabelecimentos de roupas, de electrónica, lojecas de bugigangas, quiosques, restaurantes e stands de comida de rua – admirando o belo cenário que se nos depara a cada esquina. Mas não podemos ficar aqui a morar, que o tempo de que dispomos está medido ao minuto.
E assim vamos para um passeio de barco pelo rio Huangtsu. Com o cair da noite, os grandes edifícios da cidade moderna iluminam-se, e isso é um espectáculo digno de se ver. Os barcos carregam-se de turistas, como em Nova Iorque. Um a um, os arranha-céus vão acendendo as suas luzes, caprichando em exibicionismos luminotécnicos. Luzes de todas as cores, espiralando pelos edifícios, subindo até aos pináculos e descendo por eles abaixo, tremelicando, piscando, mudando de cor e de feitio, formando um arco-íris ao longo de todo o percurso. É a grande cidade a anunciar a noite. No barco vai um corrupio, uma algaraviada de vozes, um tal disparar de máquinas fotográficas, de telemóveis e de tablets, turistas onde há vozes estrídulas de asiáticos sobrepondo-se uns aos outros, acotovelando-se, “roubando” as vistas ao parceiro do lado ou de trás, no afã de filmarem a cena em vídeo.
No trajecto para o jantar, o patusco Júlio voltou a arranjar ensejo para falar do seu catolicismo, mas parte da malta protestou vivamente e houve quem lhe dissesse que guardasse a sua religiosidade para outras ocasiões e que se limitasse a falar de temas ligados à viagem. Ele, porém, não pareceu molestar-se, mas deixou efectivamente de falar na religião. O jantar num restaurante fora do hotel é que veio animar toda a gente e conferir unanimidade relativamente à qualidade dos pratos, que eram servidos em regime de self service. Até as sobremesas, de ordinário sofríveis nos sítios por onde tínhamos andado, eram acima da mediania, com vários tipos de gelado e bolos e, a coroar tudo, chã ou café (grande maravilha).
A noite terminou com uma passeata livre pela célebre Rua Nanquim, uma rua interminável mesmo ao lado do hotel, pejada de pessoas e de lojas de todo o tipo, grandes armazéns, mercearias, restaurantes, comida de rua, casas de chã, tendas de roupa e de fruta, enfim uma gigantesca área comercial, animada de luzes e de movimento, nesta noite de sábado para domingo. Uma boa estafadela, depois de uma jornada intensa, parando aqui, parando acolá, embasbacando diante de certos estabelecimentos, pois alguns companheiros de viagem o que querem é farejar coisas para comprar. É a praga do turista.
Às tantas, apanho a boleia de um casal que vai já retrocedendo rumo ao hotel. No alto do 20.º andar, ainda me chegam ecos do bulício na rua, sobretudo ecos musicais. Espreito pela janela, antes de me deitar, e ainda há pessoas a formigar lá em baixo, as quais parecem mesmo formigas.
Domingo. A rua Nanquim, vista de cá de cima, está sem movimento a estas horas da manhã. Após o pequeno-almoço no hotel, aí vamos nós no autocarro, levando na frente o infalível Júlio, não sei se depois de ter assistido à missa dominical. Foi coisa que não lhe perguntei, por um lado porque a fé é do foro íntimo de cada um; segundo, porque poderia despertar uma daquelas suas divagações místicas e provocar uma tempestade no autocarro. Assim, vamos tranquilos a caminho do Museu Nacional de Shangai, com ele a elucidar o que se vai deparando a um lado e outro da cidade.
Shangai é uma metrópole com 20.000.000 de habitantes, parecida com as grandes cidades europeias, exceptuando a parte velha (aliás, foi submetida a grande influência e até administração de potências europeias, após o Tratado de Nanquim de 1842, no seguimento da Guerra do Ópio) e parece emular a cidade de Nova Yorque. Tenho dificuldade, nesta correria pelas grandes avenidas atravessando florestas de arranha-céus em autocarro de turismo, em imaginar o cenário onde decorreu a acção do grande romance de André Malraux – A Condição Humana – que eu li pela terceira vez, pensando nesta viagem. Leitura perfeitamente inútil desse ponto de vista. O cenário do romance permanece-me tão abstracto como antes. Estas viagens de agora são viagens-relâmpago; não dão para tomar o gosto às coisas, para nos envolvermos na atmosfera de um local, para pesquisarmos algo ou, ao menos, darmos substracto a um capricho de imaginação, que é muitas vezes de onde vem o impulso para irmos ao encontro do desconhecido. Fica então sem um referente material esse território imaginário onde decorreram os trágicos acontecimentos que se desenrolaram num espaço de tempo concentrado e densíssimo, entre 27 de Março e 12 de Abril de 1927, de enfrentamento entre revolucionários do Partido Comunista Chinês (PCC), tentando liderar o movimento de trabalhadores em insurreição, e as tropas de Chiang-Kay-Chek, de cujo partido – o Kuomitang – o PCC era aliado, obedecendo a orientações estratégicas de Stalin e do Komintern. O enfrentamento desembocou no massacre dos comunistas em 12 de Abril e na prisão e tortura até à morte de muitos dos seus revolucionários. Os acontecimentos descritos por André Malraux adquirem, para além da expressão de uma tragédia colectiva, uma dimensão trágico-individual com ressonâncias existenciais fundíssimas, que justificam o título da obra – A Condição Humana. Kyo e a sua namorada May, Gisors (pai de Kio), Katow, o revolucionário que cedera a sua dose de cianeto a dois outros prisioneiros, expondo-se, assim, ele próprio à tortura, Tchen, o revolucionário que se transformou em terrorista-suicida, todas essas personagens têm uma espécie de desmesura que as aproxima do sobre-humano, ou seja, da vontade “de escapar à condição humana”, como Gisors sentencia a dado passo.
E com isto chegamos ao museu de Shangai. Muito à vol d’oiseau, aqui vai uma referência ao que se nos depara nas várias galerias, a começar no rés-do-chão e subindo pelos seus três andares:
Rés-dochão: bronzes, alguns muito antigos, do 13.º ao 11.º séculos a. C. Objectos e instrumentos já bastante notáveis, quer do ponto de vista da execução, quer da forma artística: talhas e vasos de vinho, potes para comida, instrumentos de trabalho (pás, facas, espadas, etc.), instrumentos musicais (os mais perfeitos datam dos séculos VII e VI a.C.); um espelho em bronze transparente da dinastia Han (206 a.C. - 220 d. C.) Escultura chinesa antiga.
Nos pisos superiores:
Galeria das cerâmicas. Peças muito interessantes, sobretudo das dinastias Ming e Kim.
Galeria das pinturas e caligrafias. Pouco vi de pintura, que me pareceu consistente, na maior parte, em painéis compridos, de forma rectangular, com paisagens típicamente chinesas. Caligrafias efectuadas de cima para baixo em grandes tiras de papel dispostas verticalmente.
Galeria dos objectos de jade. Esta galeria abrange várias épocas, desde a Antiguidade até tempos mais recentes, contendo peças de adorno, estatuetas, etc., muitas delas admiráveis, sem dúvida, sendo a galeria do museu de longe mais concorrida, não só por turistas internos, mas também externos à China, formando grupos diante das vitrinas e obrigando a tempos de espera.
Galeria de selos e numismática. Passei de largo pelos selos, retendo-me diante de alguma espécie mais fora do vulgar, nomeadamente os primitivos selos do império. Quanto à numismática, dei uma espreitadela ao conjunto, por não me interessar particularmente e, ante a limitação de tempo, ter que escolher.
Galeria do mobiliário chinês das dinastias Ming e Kim. Aqui, sim, detive-me diante de peças esplêndidas, nomeadamente uma mobília de quarto imperial, mas também de outros mobiliários de uso doméstico.
Á saída do museu, enganei-me na porta que devia usar para me reunir com os companheiros de viagem; uma vez lá fora e dando pelo erro, pensei em retroceder pela mesma porta pela qual tinha saído uns dez minutos antes, mas não era permitida a entrada por ali. Usando o meu escasso inglês e gestos, falei com um dos funcionários que estava à porta e disse-lhe, mostrando-lhe o bilhete de entrada no museu que ainda conservava comigo, que me tinha enganado e que tinha os companheiros de viagem do outro lado. Ele permitiu-me a entrada, mas obrigou-me a passar novamente pelo controle, e tive que colocar na máquina o saco de viagem, a máquina fotográfica e o casaco para serem radiografados e sujeitar-me àquela fiscalização pessoal que é de uso, com aparelho electrónico de mão. Estava a passar a porta giratória e o infalível Júlio a entrar por ela, com intuito de me procurar.
Almoçámos em restaurante já previamente contratado, como tem sucedido sempre.
Enquanto seguíamos de autocarro, travou-se inesperadamente um diálogo com o Júlio a propósito da situação que se tem vivido em Hong-Kong (manifestações de protesto que duram há meses em prol da plenitude dos direitos, liberdades e garantias democráticos, conforme o compromisso das autoridades chinesas com os antigos colonos ingleses, no acto da restituição do território à China em 1997. Curiosamente, o Júlio pôs-se a expender o mesmo ponto de vista das autoridades de Pequim, ou seja, do Comité Central do Partido Comunista da China, ele que confessou não ser filiado nesse partido e ter demonstrado durante a viagem uma visão e hábitos culturais pouco conformes com a ortodoxia chinesa. E afirmava acaloradamente que os distúrbios que estavam a ocorrer naquele território eram inspirados pelos Estados Unidos da América e por outras potências ocidentais, interessadas em fomentar a desordem. Eu disse “curiosamente” e daí talvez não, porquanto a atitude de Júlio era, ao fim e ao cabo, demonstrativa de uma rigidez em matéria política, que tem na generalidade dos cidadãos chineses uma câmara de eco da propaganda governamental, ao passo que o seu catolicismo, conquanto bacoco e reaccionário, é sinal da abertura que os actuais líderes do Partido Comunista instauraram em matéria económica, religiosa e a nível de certa vivência comunitária, como decorrência da abertura da economia ao mercado.
Após o almoço, embarcámos no célebre comboio magnético, a caminho do aeroporto, onde iríamos tomar o avião para Guilin. O percurso, de cerca de 30 kms., fez-se em cerca de 8 minutos, com uma ou duas paragens pelo meio. O comboio não teve tempo para atingir os 400 kms. horários que pode atingir, mas passou dos 300 kms. por hora, marcados no visor por cima da porta da carruagem. O comboio circula dentro de uma plataforma, mas não tem carris; é impelido pela força magnética.
No aeroporto de Shangai, despedimo-nos do Júlio, após as formalidades, que foram muito demoradas – um tormento que já vem sendo habitual e que desafia a proverbial paciência chinesa, mas lá consegui passar com toda a bagagem, incluindo o volume do edredão e travesseiras, um empecilho que passei a ter de suportar e que me obriga a andar com ele na mão até à entrada do avião, para além da bagagem que vai comigo no assento, pois o mesmo não me cabe na mala que vai no porão.
O voo até Guilin durou 02h30m. Chegámos mesmo ao fim da tarde. À nossa espera já lá estava o guia local, que disse chamar-se José, na tradução do seu nome chinês. É um jovem muito simpático; fala excelentemente bem o castelhano e é dotado de um formidável sentido de humor. Acompanhava-o um outro amigo, que também arranhava uma palavras na mesma língua. Enquanto viajávamos de autocarro até ao hotel, elucidou-nos sobre as características da terra.
O hotel onde ficámos, de 4 estrelas, como sempre tem sucedido, chama-se Lijian Waterfull Hotel; fiquei no 8.º andar, quarto n.º 68. Consegui telefonar para casa pelo WatsApp. Tenho tido sorte nos meus telefonemas diários, apesar de me terem advertido que na China essa rede social é proibida. Jantámos num restaurante fora do hotel. Após, quem quis passeou pelo centro comercial ao ar livre, estendendo-se por várias ruas, mesmo perto do hotel. Chuviscava. O clima, aqui, parece ser um pouco mais húmido, por força das montanhas que rodeiam a cidade, conferindo ao local um ar bucólico, que o rio, com suas margens arborizadas e ajardinadas e rústicos caminhos de terra, acentua.
18 março 2020
China IV
Manhã
cedo, quando a circulação de trânsito é ainda escassa, já
estamos a rodar no autocarro em direcção à estação dos
caminhos-de-ferro. É uma cidade ainda estremunhada esta, com raros
trauseuntes, um ou outro autocarro, carros de limpeza. A Praça
Tiananmen aparece de relance, ainda deserta, apenas povoada por meia
dúzia de pessoas, talvez operários nas limpezas matinais,
preparando o recinto para a multidão de turistas que a hão-de
encher e animar de movimento.
Caminhamos
por grandes avenidas; esta por onde circulamos chama-se Avenida da
Paz Eterna (estes nomes chineses são uma delícia, transportando-nos
para um mundo que não é deste mundo). É uma avenida inerminável,
que praticamente vai dar à estação e ao longo da qual se pode
dormir um bom bocado ao ritmo monótono do rodado do autocarro, uma
soneca tão repousante e compensatória da forçada madrugada, que
parece ter o sabor de uma paz, se não eterna, pelo menos abençoada.
A grande chatice são as malas no termo da viagem, pois trazemos
connosco toda a bagagem, enfileirando em bichas, passando com esforço
portas automáticas e controles complicados, como nos aeroportos, a
voz de Zhao Naipu chamando-nos à ordem e procurando juntar-nos com
os braços abertos: Olá! Olá!…, correndo para aqui e para acolá:
Olá! Olá!…, num curioso vocativo que me fez lembrar o barqueiro
de Gil Vicente no Auto da Barca do Inferno: “À barca, à barca,
hou lá!”
Entrámos
para a plataforma quando, no painel electrónico surgiu a hora do
embarque e passada mais uma porta que se accionava com a introdução
do bilhete. Despedimo-nos de Zhai Naipu e tomámos os nossos lugares
numa carruagem confortável. A distância que iríamos percorrer até
Chian cifrava-se em 1200 quilometros. Vencêmo-los em seis horas
exactas. Isto, porque o comboio parou em, para aí, uma dezena de
estações ou mais, que serviam outros tantos centros urbanos. O
certo é que perdia tempo a reduzir a velocidade antes da paragem, na
estação e novamente no arranque. De resto, a velocidade a que
normalmente circulava era de 300 quilómetros por hora. O serviço de
bar é que não achei famoso, pelo menos em termos de refeições.
Nem sequer serviam chá, que tão bem me teria sabido, em vez do café
a que estou habituado.
Durante
a viagem, houve sempre sol e podiam observar-se com nitidez as
paisagens que se iam desenrolando diante dos nossos olhos. Poucas
zonas montanhosas e planícies a perder de vista. Os povoados que
surgiam pareceram-me desolados, com os seus prédios tipo caixote,
uniformizados, sucedendo-se em filas, com espaços entre eles pouco
desafogados. Áreas cultivadas, sim, mas onde não se divisavam nem
pessoas, nem animais, assim como não se viam casas rurais, que
emprestam sempre às paisagens campesinas um carácter especial.
Enfim,
chegámos a Xian e já tínhamos à nossa espera a guia chinesa que
iria conduzir-nos durante o tempo que lá estivéssemos. Falava
castelhano muito bem e disse chamar-se Sílvia. É claro que era a
tradução do seu nome chinês. Quando lhe pedi para me escrever o
seu nome original, fez um gatafunho no caderno, que me deixou
perplexo. Durante o trajecto de autocarro até ao hotel, foi-nos
expondo, de um modo geral, um pouco da história da China, da sua
indústria e das suas populações e, em especial, da história da
cidade. Xian tem 3.000 anos de existência e foi a capital durante
metade das dinastias do império. O nome Xian significa Paz do Oeste
(Xi – Paz; An – Oeste). A cidade situa-se no Norte, perto da
Mongólia Interior e tem 10 milhões de habitantes. Ainda se vêem
trechos das muralhas que a cercavam.
A
chegada ao hotel – Grand Noble Hotel, onde me coube o quarto 1205 –
foi só para descarregar as malas, que o tempo nestas viagens tem de
ser aproveitado até ao segundo. De volta ao autocarro, visita ao
Pagode do Grande Ganso Selvagem, dos finais do século VII. É uma
construção em pirâmide, escalonada em andares que se vão
estreitando até ao vértice. Fica no alto de uma pequena elevação
à qual se ascende por uma ampla escadaria. Espaço de lazer
envolvente, interessante, com árvores. Havia função à hora a que
lá chegámos. Viam-se os monges budistas e os fiéis, através da
larga porta, salmodiando numa toada repetitiva, ritmada por um tambor
e um pequeno sino. Era vedada a entrada, evidentemente, e a tentativa
de disparar as máquinas fotográficas para o interior era
imediatamente sustada por vigilantes. Em redor, várias dependências
com figuras de jade representando a vida de Buda.
Actualmente,
após o degelo maoísta, conforme foi salientado pela Guia, existe
liberdade de culto na China. Mao queria acabar com a religião.
De
seguida, partimos para um outro templo, desta feita, da religião
muçulmana - a Grande Mesquita de Xian, cujas origens remontam ao
século VIII (dinasstia Tang), segundo o que foi posto a circular na
altura da visita, mas o templo terá sido construído bastante mais
tarde, durante a dinastia Ming (1368-1644), segundo o que leio num
velho guia da Baedecker (1996), que adquiri com vista a uma frustrada
viagem a Macau antes da retirada de Portugal do território, onde
iria participar num seminário sobre liberdade de expressão e de
imprensa. É possível, no entanto, que antes deste tenha exisitido
um outro templo para prestar serviço religioso à comunidade
muçulmana, que desde cedo se fixou nesta cidade integrada na Rota
da Seda. O actual dispõe de uma entrada comprida com jardins e
várias construções. O templo propriamente dito está construído
no estilo das construções chinesas e não no estilo tradicional
muçulmano, não dispondo de cúpula e minaretes. Porém, a decoração
é muçulmana.
À
hora em que por lá andávamos, os fiéis eram convocados para a
oração por meio de aparelhagem sonora, naquele estilo de cantoria
monótona.
Percorremos
depois o exótico bairro muçulmano, muito concorrido, com uma
imensidade de lojas e barracas e uma grande variedade de comidas, que
enchiam o ambiente de desencontrados odores.
Após
o jantar, fora do hotel, em local previamente combinado, saímos para
uma visita nocturna à cidade, em autocarro, acompanhados pela guia,
que jantou connosco. Por força, queria trazer-nos para esta visita,
tendo-se fartado de elogiar o encanto da cidade à noite, com o
espectáculo das suas luzes. E, de facto, o cenário é magnífico.
Fizemos várias paragens pelo caminho para admirarmos o efeito
cromático das luzes, em que se distinguiam cores variegadas
combinando-se em fantásticas composições, em particular numa zona
ribeirinha dominada por uma elevação, com os prédios e a vegetação
em cascata. Também no centro, numa das principais praças, onde
avultavam vários edifícios nobres, com trechos da muralha a
surdirem por entre as luzes, havia espectáculos de luminotecnia e
animação com bonecos, movendo-se num bailado nas varandas de um
desses edifícios, ao som de música ambiente.
Esta
animação prosseguia por outros sítios. Transportados para outro
local, fomos dar a um centro com variadas ruas, uma delas muito
comprida, pedonal, uma espécie de rua mágica (acho que era
designada mesmo assim), cheia de iluminações de variada coloração
e composição. Numerosas pessoas passeavam por ali, em grupo,
descontraídamente, ao som de música ambiente. Havia uma parte da
rua onde actuavam grupos musicais de jovens, que tocavam uma música
mais frenética e mais consonante com as novas modas. Passeámos
longamente por ali, antes de recolhermos ao autocarro, para
regressarmos ao hotel. Perguntei à guia se aquele ambiente festivo
se devia a alguma comemoração (estava-se em Outubro, em que é
tradicional celebrar-se durante o mês o aniversário da revolução
socialista) ou se era habitual. Ela respondeu que era sempre assim.
Caso para estranhar.
O
mais importante, porém, estava para vir: a visita ao museu que
guarda os célebres guerreiros de terracota. Foi para essa visita,
fundamentalmente, que Xian foi incluída no roteiro da China. Logo de
manhã cedo foi para lá que nos dirigimos.
Que
espectáculo mais fora do comum! Não há ninguém que, em face do
que lhe é exposto, não fique boquiaberto. Trata-se, efectivamente,
de um local imperdível, ao menos para quem vai à China. Ir lá de
visita e não se deslocar a Xian é como ir à Índia e privar-se de
ver o Taj Mahal. Multidões de turistas circundam demoradamente este
recinto, debruçando-se sobre a balaustrada de ferro que lhe serve de
resguardo e disparando as suas máquinas fotográficas. Abaixo do
solo, alinhadas em trincheiras escavadas na terra, milhares de
figuras em terracota compõem um exército completo, com soldados,
generais, carros de combate e cavalos. Tudo em tamanho natural. As
duas trincheiras da direita estão repletas de soldados e carros de
combate com cavalos, uma delas com maior número de figuras (cerca
de 6.000), ao passo que a outra tem cerca de 1.300; a terceira, com
menor número de figuras (umas dezenas) , está ocupada apenas por
oficiais de várias patentes e um carro de combate puxado por quatro
cavalos. As armas - arcos, lanças e espadas de bronze – eram reais
e terão sido utilizadas na guerra. Uma coisa espantosa é o realismo
e o detalhe com que estas figuras, do século III a.C., foram
concebidas: as figuras humanas, os animais, os carros de combate,
assim como as indumentárias e os apetrechos. E mais curioso ainda: a
individualidade de cada figura, como se cada uma delas representasse
um estilo e uma personalidade própria.
Esta
fantástica armada de terracota será um monumento funerário,
formando provavelmente um conjunto com outros objectos que foram
encontrados junto do mausoléu do primeiro imperador da China – Qin
Shihuang – situado ali perto, e carecendo ainda de uma cabal ou,
pelo menos, mais completa explicitação da sua simbologia. O
conjunto, que representaria o exército e a guarda de honra do
referido imperador, velando-o poderosamente na outra vida ou dando
continuidade à sua missão guerreira, pois que os soldados estão em
posição de combate, foi descoberto em 1974 por camponeses, quando
procediam à perfuração de uma parede que estava soterrada. Desde
então para cá, tem-se desenvolvido um intenso trabalho arqueológico
de desenterramento das figuras (visto que terão sido originalment
enterradas) e de restauro das mesmas, o que obriga a mil cuidados, um
restauro que não é integral, pelo menos no que se refere à pintura
das esculturas, que em algumas figuras expostas é evidenciada por
alguns vestígios que permaneceram ao longo do tempo.
Por
conseguinte, este museu singular é o próprio local arqueológico
onde têm sido desenterradas e recuperadas as figuras.
O
resto do tempo até ao almoço foi preenchido com a visita a uma
oficina de terracota e de móveis pintados e com incrustações em
jade e madrepérola. Uma oportunidade, evidentemente, para as compras
turísticas, pese embora o facto de a visita ter realmente interesse
pela qualidade e beleza de muitos objectos expostos.
Após
o almoço num restaurante situado no mesmo edifício, marchámos para
o aeroporto, onde, após as demoradas formalidades, apanhámos o
avião para Shangai. Duas horas e meia de viagem, entre as 18,00h e
as 20,30h. À nossa espera, lá estava o guia, um patusco gordinho e baixote, com curso
superior de português. Durante a viagem, expendeu longamente o seu
gosto pela nossa língua e cultura e deu mostras da sua erudição
citando Camões e alguns autores mais. E não só pela nossa língua
e cultura, mas também pela religião tradicional do nosso país,
confessando-se católico, apostólico, romano, menino de coro e
defensor da vertente mais conservadora da Igreja, incluindo a missa
em latim.
09 março 2020
China III
Transposta
a majestosa Porta Meridional, cá estamos na Cidade Proibida. Um
ampla esplanada ou praça é atravessada pela Ribeira Dourada,
cavalgada por cinco pontes em mármore, ricamente decoradas com
esculturas. É uma ribeira cujo nome é auspicioso; ao contrário
dos rios que levavam ao Inferno, com nomes escuros como Letes,
Estige, Aqueronte, etc., esta ribeira, uma vez atravessada,
conduz-nos ao fabuloso conjunto de galerias e palácios imperiais com
denominações evocadoras de um mundo harmonioso e perfeito, que se
devia parecer com o Olimpo. Uma cidade dentro da cidade, celestial,
que o não seria tanto para a multidão de serventuários, ocupando
uma extensão vastíssima, que assim o exigia a magnificência da
corte imperial. Rezam as crónicas que mais de um milhão de metros
quadrados, comportando cerca de 800 edifícios e 9.000 aposentos.
Este conjunto de imóveis, que foi declarado pela UNESCO como
Património Mundial da Humanidade, constitui um belo e singular
acervo da arquitectura palaciana chinesa. Escapou por pouco à fúria
arrasadora da Revolução Cultural.
Os
diversos pavilhões e palácios que se sucedem uns a seguir aos
outros dispõem-se ao centro, ao longo de um eixo, que divide
simetricamente a cidade em duas (aos lados, Este e Oeste, outros
palácios menos importantes se perfilam).
O
Pavilhão da Harmonia
Suprema é o primeiro
que se nos depara, transposta a grandiosa porta do mesmo nome,
flanqueada por dois enormes dragões em bronze. No vasto recinto que
o antecede, onde, pelos vistos, havia lugar para 100.000 pessoas,
decorriam as cerimónias importantes, como a coroação, os
casamentos imperiais, as celebrações do Ano Novo, etc. O imperador
era transportado numa liteira e colocado no seu luxuoso trono,
designado por Trono do
Dragão, ao centro do
pavilhão, em face do público. Tal o espectáculo que era necessário
montar para que o poder aparecesse em todo o seu esplendor. Dezoito
queimadores de incenso, em bronze, simbolizando as dezoito províncias
da China, ardiam no último dos três escalonados terraços, ornados
de ricas balaustradas de mármore, que ascendiam até à entrada onde
estava o trono.
A
parte da frente do recinto era ocupada pelos funcionários (cerca de
9.000, segundo diz o guia Zhao Naipu
pelo walkie
talkie;
segundo o guia em forma de livro
escrito em inglês que tenho comigo, o pessoal tinha que saudar o
imperador curvando a cabeça até ao solo, por nove vezes). As
bancadas laterais eram destinadas aos músicos, tangendo os seus
instrumentos.
Há
uma enorme massa de turistas vagueando por aqui, subindo ao terraço
e rondando o pavilhão. Acotovelam-se junto do sítio onde o
imperador aparecia no seu trono. Parece que o trono está lá, mas eu
não o vi. Não tive paciência para tolerar aquelas cabeças
apinhadas, espreitar por cima delas e fazer a ginástica que toda a
gente fazia de levantar os braços com a máquina em punho e tirar
uma foto. Aliás, para a maior parte dos turistas, incluindo os do
grupo onde me integro, o importante parece ser dar ao gatilho da
máquina e disparar. Atingir o alvo. Alguns, mal acabam de entrar num
determinado local, já estão a metralhar, antes mesmo de se
aperceberem da realidade do objecto ou do sítio. Pior: a sua
voracidade de imagens, a sua azáfama de caça vai ao ponto de nem
sequer escutarem o que diz o guia, tolhendo a vida a quem quer
prestar atenção. Também fui um pouco apanhado por esse vício, mas
não me deixei possuir de todo e algumas vezes resisti. Como desta
vez em relação ao trono do imperador. Por causa dele e da mania da
fotografia, uma professora de inglês na reforma perdeu-se do grupo.
Foi necessário os dois guias – a portuguesa e o chinês – irem
no seu encalço, agitando a bandeirinha portuguesa, porque pelo
telemóvel não se conseguiu falar com ela, fosse por causa do
barulho, fosse por outra razão. Felizmente, com a sua experiência
de viagens, deixou-se ficar onde estava e, daí a pouco, regressava
ao nosso seio, gingando o corpo nas pernas trôpegas, que todavia não
a tolhiam de acompanhar o grupo, mesmo quando era preciso andar mais
depressa. Era uma mulher afável, de olhos azuis, viúva de um
advogado que falecera vitimado por um cancro do pulmão, devido ao
abuso do tabaco, e por quem os olhos dela se lhe aguavam, quando
falava dele.
Assim
se passou ao Pavilhão
da Harmonia Central,
ou do Meio,
ou ainda, creio, Pavilhão
da Harmonia Perfeita
(os dois primeiros são designações que encontro nos guias
impressos; o último foi o que recolhi no meu caderno de
apontamentos, a partir do que o guia Zhao Naipu nos ia transmitindo).
Este
era o local onde o imperador recebia cumprimentos ou vassalagem dos
seus funcionários mais próximos, e dava os últimos retoques antes
de passar ao Pavilhão da Harmonia Suprema, onde decorriam, como
vimos, as cerimónias oficiais.
O
terceiro Pavilhão que vem a seguir tem a designação de Pavilhão
da Harmonia Preservada.
Era o local dos banquetes imperiais, onde, de facto, conviria
preservar alguma harmonia.
Este
conjunto de edifícios enquadrava-se no chamado Pátio
Exterior e era
destinado às representações do poder, exteriorizado por
cerimoniais, fausto e grandiosidade e pela criação de uma atmosfera
de transcendência, em que o imperador aparecia revestido de uma
espécie de magnificência celeste.
Para
além desse Pátio Exterior, seguindo a ordem da sucessão de
edifícios que se nos depara após a entrada pela Porta Meridional
ou Porta Tiananmen, mas inversa à disposição construtiva, que é
Norte/Sul, fica o Pátio Interior, um espaço exclusivamente
reservado ao imperador e demais membros da sua corte e onde era
proibida a entrada de qualquer estranho, sob pena de execução
sumária.
Esta
face interior era formada por três palácios: o Palácio
da Pureza Celestial, o
Palácio da União
entre o Céu e a Terra
e o Palácio da
Tranquilidade Terrena.
Nomes que, só por si, dizem muito da concepção da vida imperial e
da ancestral cultura chinesa. Rezam as crónicas que era no último
dos palácios citados que as imperatrizes viviam e dormiam e, além
disso, era lá que era passada a noite de núpcias. As outras noites
ficariam à discrição dos imperadores, segundo penso, pois tinham à
sua disposição uma gama variável, mas no geral muito diversificada
e vasta de concubinas, que viviam em palácios próprios, situados na
área imperial. Através das vidraças das janelas, os turistas
curiosos tentam imaginar como seria o seu dia-a-dia, coscuvilhando
móveis, utensílios vários e objectos de adorno, que se divisam no
interior.
Por
trás destes palácios, ou seja, a seguir a eles, segundo a
orientação que vamos seguindo, situa-se o Jardim
Imperial, um belo e
aprazível espaço que é um modelo da arquitectura paisagística
chinesa. Pequenos recantos, montículos arrelvados e variadas
espécies arbóreas, onde se distinguem velhos pinheiros, bambus,
ciprestes. Entre o arvoredo, outras construções com nomes
igualmente magnânimos, como o Pavilhão
da Paz Imperial. Num
destes edifícios, se bem escutei Zhao Naipu, foi que o último
imperador, o protagonista do filme de Bertolucci, fez a sua
aprendizagem escolar.
E
assim vamos fruindo o espaço neste dia de sol, imaginando as
delícias de um piquenique em qualquer destes recantos, enquanto nos
vamos encaminhando para a porta de saída, situada do lado Norte.
Após
o repasto chinês num restaurante de Pequim e um cafèzinho expresso
tomado numa cafetaria ao lado, da cadeia Starbucks,
que é uma multinacional (já o vimos noutras partes do planeta,
nomeadamente na Índia, no Dubai e em Manhattan), pois os
restaurantes chineses apenas servem chá, de ordinário durante a
refeição, já vamos de largada para outra visita. Desta feita, o
alvo da nossa viagem é o célebre Templo
do Céu.
Mal
descemos do autocarro num largo situado na vizinhança,
deparou-se-nos, no cimo de uma elevação, um curioso monumento, que
tenho a impressão que se avista de muitas partes da cidade, dada a
sua localização altaneira. A área circundante é um amplo espaço
de lazer com esplanadas arborizadas e mesas para piquenique. Muitos
chineses por aqui passeiam e se divertem, com destaque para os
reformados (homens e mulheres), que, em grande número, sentados em
bancadas e muros baixos, pincipalmente a todo o comprimento de um
Longo Corredor,
semelhante ao que já encontrámos no Palácio de Verão, se dedicam
ao jogo de cartas com entusiasmo e e grande arruído. Pelos vistos,
segundo informação do guia, que interpelei, é um jogo muito comum
na China e o principal divertimento dos reformados (a reforma é aos
60 anos), depois da obrigação de cuidarem dos netos.
“Dos
netos?”, reagi espantado.
“Sim,
reafirmou ele.”
“Então
não são as creches?, os infantários? Não é o Estado que se
encarrega obrigatoriamente da ocupação e educação das crianças?”
“Não
é obrigatório que as crianças vão para as creches e os
infantários. Depende da vontade dos pais, respondeu”.
Este
é mais um exemplo da viragem da China. É claro que não se tratará
apenas de uma maior liberdade educativa em benefício dos parentes da
criança e da consequente abdicação, por parte do Estado, do
monopólio da educação e ensino a todos os níveis, mas também (e
principalmente?), da libertação estadual do correspondente ónus
financeiro.
Mas
retornemos ao Templo
do Céu,
que se avista mesmo na nossa frente, como estava dizendo. O monumento
que ressalta na sua beleza invulgar é o principal de três templos
taoístas. O taoísmo é uma religião
baseada em grane medida nos ensinamentos e na filosofia de Lao Tse,
um poeta que viveu no século VI a.C. a quem é atribuído o livro de
poemas Tao
Te King,
que significa “livro da Via e da Virtude”, um
livro que, sob muitos aspectos, é admirável pelo esforço que faz
na conciliação dos contrários, na exaltação do fraco em vez do
forte, da suavidade em vez da rudeza, do simples em vez do complexo,
do humilde em vez do poderoso, como via ou o caminho para atingir a
perfeição, a paz e a tranquilidade, a sublimidade celestial, mas
que também é descoroçoante no exaltar a quietação, a inacção,
por vezes até a ignorância e o nada [“Rejeita a sabedoria e o
conhecimento,/o povo tirará assim cem vezes mais proveito” (…) e
noutro poema: “Quem pouco sabe terá o conhecimento seguro, Quem
muito sabe ficará na dúvida (…)”], (Tao
Te King,
Editorial Estampa, 2ª edição, 1977)
Uma
escadaria majestosa em três lanços, com uma tríplice balaustrada
em mármore, conduz ao principal dos templos a que me vinha
referindo. Tem uma forma cónica e está coberto por um triplo tecto,
cujos círculos se vão estreitando para cima e terminando por um
pináculo com uma bola dourada. Telhas de um azul purpúreo cobrem o
triplo tecto, conferindo-lhe um aspecto gracioso. Estamos em face da
denominada Sala
da Oração pelas Boas Colheitas.
Era aqui que o imperador vinha rezar, todos os anos, pelas boas
colheitas, no início da Primavera, e pelos frutos e cereais obtidos,
no Outono.
O
espaço em redor é um vasto círculo, de chão marmóreo, cercado
pela referida balaustrada, interrompida no cimo pelos vários lanços
de escadas correspondentes aos vários acessos que conduzem ao
recinto – Norte, Sul, Este e Oeste. O que foi utilizado por nós
leva directamente à Sala de Oração pelas Boas Colheitas.
Os
outros templos situados na área são a Abóbada
Celestial Imperial
e o Altar
Circular, ligado
por um arruamento empedrado
à Sala da Oração pelas Boas Colheitas.
O primeiro apresenta uma construção similar à deste último
templo, embora de dimensão mais reduzida e tem como curiosidade o
muro que o cerca, conhecido pelo Muro
do Eco,
por permitir que uma voz emitida em qualquer parte dele seja ouvida
no lado oposto ou em qualquer outro ponto. O Altar
Circular
dispõe de uma simbologia especial à volta do número 9 e seus
múltiplos (9, 27, 81), patente no número de degraus da escadaria
que lhe dá acesso, na balaustrada e na decoração interior.
É
curioso constatar que a simbologia do número 9 e seus múltiplos
está ligada ao sagrado de várias religiões e ao ritual de certas
práticas iniciáticas, bem como transparece no simbolismo de certas
obras de arte, das quais A
Divina Comédia
de Dante é um exemplo flagrante. Nove é o número de círrculos
infernais; nove é um múltiplo de 3, sendo que o poema de Dante está
construído em tercetos.
Do
Templo do Céu partimos para outro local de Pequim, para um teatro,
onde assistimos a um espectáculo teatral de Kung Fu. Contava a
história de uma criança entregue aos cuidados de um monge de Kung
Fu, o qual, através de ilustrações e exercícios próprios desta
arte marcial, de uma incrível destreza e acrobática
espectacularidade, ia ministrando ensinamentos sobre o domínio do
corpo e da mente, sobre a arte de vencer resistências e
dificuldades e de se superar a si próprio, expondo toda uma
filosofia de vida.
Dali
fomos para o jantar, num restaurante situado numa das grandes
avenidas de Pequim. O jantar foi constituído por, entre outras
coisas, porque a comida chinesa consta de uma variedade de pratos,
como é sabido, pato à pequinense. Munidos de branquíssimos e
brunidos aventais e armados de facas afiadíssimas, lá estavam dois
empregados cortando aplicadamente as aves já cozinhadas em pequenas
lascas, como é de uso na comida chinesa, por causa da não
utilização da faca e do garfo. Faziam-no de forma extremamente
metódica e expondo-se ostensivamente à curiosidade dos turistas,
que, como é de prever, disparavam as suas máquinas fotográficas e
telemóveis com grande voracidade gastronómica.
O
mais curioso é este facto que nos foi contado pelo guia e que causa
consternação: os patos, enquanto vivos, são submetidos a uma
alimentação especial para crescerem rapidamente e para perderem a
gordura que vão acumulando, são metidos em capoeiras alongadas com
o chão forrado de tijolos aquecidos por meio de um qualquer sistema
térmico, de forma a obrigarem os pobres animais a moverem-se
constantemente de um lado para o outro. Cruel, não? E de sinistra
imaginação glutona.
29 janeiro 2020
China II
Manhã
cedo, bafejados por um sol outonal, vamos a caminho de um dos locais
de Pequim mais vibrantes de expectativa no imaginário do forasteiro
– a Praça Tiananmen, através da qual se acede à Cidade Proibida.
Por avenidas já pejadas de carros, o guia vai dissertando sobre
costumes antigos e factos da história chinesa, aproveitando a
lentidão do trânsito. Entre outras coisas sobre as quais divaga de
uma forma minuciosa, como o calendário tradicional chinês e
práticas rurais ancestrais, alude ao Palácio Imperial, na Cidade
Proibida, construído na dinastia Ming (1406-1420), após ter sido
derrubado o domínio Mongol, que se havia iniciado por meio de
conquistas paulatinas, onde pontificara o célebre Genghis Khan, e
fora ultimado pelo seu neto Kublis Khan, que inaugurou a dinastia
Yuan.
De
1420 a 1911, sucederam-se 11 imperadores chineses e duas dinastias –
a Ming e a Qin. Em 1911, a dinastia Qin foi destronada pelo movimento
nacionalista que estabeleceu a República da China, cujo primeiro
presidente foi Sun Yat Sen, figura cimeira daquele movimento e
fundador do Kuomitang. Teve aí origem a China moderna; não só o
regime imperial foi desmantelado e substituído pela República, como
tiveram fim muitas práticas sociais que ostentavam marcas de
servidão. Por exemplo, o costume de enfaixar os pés das mulheres
desde tenra idade, uma prática que sacrificava a comodidade do
andar, a saúde e a higiene femininas a um ideal de beleza e
submissão - o andar saltitante, aliado a graça e fragilidade das
mulheres, despertando nos homens impulsos protectores (veja-se o
retrato horrível que nos dá Jung Chang da sua avó e dos tormentos
que sofria por causa dessa prática em Cisnes
Selvagens, 14.ª
edição, Quetzal editores, p. 26).
Outra
prática ou instituição que foi abolida e a que o guia faz uma
mais demorada referência foi a dos eunucos. Normalmente estes homens
castrados, que estavam ao serviço do imperador, provinham de meios
pobres. Os pais escolhiam um dos filhos para eunuco, encontrando aí
uma forma de promoção social e de sustento desse membro da
família; era uma boca que deixava de ser alimentada pela família e
passava para a mesa farta do palácio imperial. Muitos dos eunucos
estavam muito próximos do imperador; eram guardas das esposas e
concubinas e desempenhavam outros serviçosn
de intimidade ou proximidade imperial. Daí possivelmente uma das
razões para a castração. A oportunidade para a escolha desse modo
de vida surgia entre os nove e os quinze anos. O candidato tinha que
se submeter a uma operação para lhe serem removidos os órgãos
genitais e havia grande percentagem de mortos. Tinham
dificuldade em urinar e, por vezes, o cheiro nos sítios onde dormiam
era nauseabundo.
Entretanto,
chegámos à muito aguardada Praça Tiananmen. Aí estava ela, na
manhã ensolarada, a regurgitar de turistas. Levas e levas de
turistas, circulando disciplinadamente, sob o olhar atento e o
acicate dos agentes de polícia, que espevitavam constantemente o
andamento dos passeantes, a fim de evitarem demoras e
engarrafamentos. Ali não se queriam basbaques. Era sempre a andar e
a ver os monumentos situados
nas partes laterais de
pescoço torcido.
O
guia já lá vai à frente, erguendo a bandeira portuguesa no meio de
dezenas de bandeiras de outras nacionalidades, incluindo a
inconfundível bandeira da China (vermelha com uma estrela rodeada de
quatro outras mais pequenas, todas amarelas, colocadas no canto
superior esquerdo); o grupo vai-se fragmentando, por efeito de
ligeiros atrasos de um ou outro membro que se demora a contemplar
este ou aquele monumento
ou que aproveita para sacar uma foto, ou ainda por se ter enleado em
desfiles de
outros grupos que cruzam o mesmo espaço e forcejam por passar
adiante, arremetendo contra quem passa, e o retardatário, sempre com
o olho fito na bandeira verde-rubra, lá vai estugando o passo para
reenfileirar no grupo.
Grande
espaço este, de quase um quilómetro de comprimento (880 metros) e
passante de meio quilómetro de largura (550 metros), repleto de
pessoas em movimento, orientando-se em várias direcções,
acentuando no turista que vai integrado num grupo o sentimento de
confusão e receio de se perder.
Lá
na frente, o guia, através do walkie
talkie, vai referindo
os monumentos que se vão perfilando à nossa esquerda e à nossa
direita (Leste e Oeste), considerando que entrámos pelo lado Sul,
onde se encontra a Torre Quiánmen e uma das portas mais antigas de
entrada no recinto, outrora amuralhado, do tempo da dinastia Ming.
Vamos, pois, em direcção ao Norte e lá está o mausoléu de Mao
Tse Tung, um monumento situado no centro da praça, para o qual se
encaminha uma interminável fila de turistas, de várias centenas de
metros, facto só por si desencorajador de uma visita, se outras
razões não houvesse para darmos ao desprezo a contemplação da
múmia. O que lá está é a carcaça de um homem extinto empalhada
por dentro. Ao diabo esta divinização estalinista dos chamados
heróis do povo! À frente da mastaba, lá está o monumento aos
Heróis do Povo, que mal se enxerga do sítio por onde vamos andando,
e onde, segundo informa o guia, se pode ler a inscrição Os
Heróis do Povo são imortais.
Nem sempre. Às vezes, o povo também acaba por os derrubar do
plinto onde os altearam. Qual glória
eterna, qual carapuça!
Aí está também a Assembleia Popular
Segue-se
o Museu Nacional da China, do lado direito da praça, considerando o
sentido em que vamos e, lá ao fundo, depois de caminhada intensa, a
Porta da Paz Celestial,
onde finalmente repousamos. É ela que nos dá acesso ao paraíso, à
cidade dos eleitos ou à Cidade
Proibida. Proibida,
justamente porque não tinham direito de nela entrar as pessoas que
não pertenciam à corte do Imperador. Foi da Porta da Paz Celestial
que Mao Tse Tung proclamou a República Popular da China em 1 de
Outubro de 1949. O seu retrato lá está, bem ostensivo, no centro do
muro, por baixo do balcão onde teve lugar a referida proclamação.
Esta
foi uma das grandes efemérides da história da China moderna que se
desenrolou nesta grande praça. Uma outra mais recente acode, de
certeza, à memória de qualquer turista minimamente informado: o
massacre de 4 de Junho de 1989. Tanques e camiões do Exército
invadiram a praça ocupada por várias dezenas de milhar de
estudantes, operários e intelectuais, que se vinham manifestando
pacificamente, sob a liderança dos primeiros, em vários locais de
Pequim, exigindo mais democracia e a instauração de um regime que
respeitasse os direitos fundamentais acolhidos pela Declaração
Universal dos Direitos do Homem. Pois foram massacrados sem dó nem
piedade, durante a noite, nesta praça onde as luzes foram apagadas,
e trucidados pelas lagartas dos tanques, que rolaram por cima deles
com total indiferença, e alvejados pelas metralhadoras. Morreram
muitos, na ordem dos milhares, sem que nunca se soubesse o número
exacto. Mortos pelo Exército da República Popular da China,
exactamente quarenta anos passados sobre a proclamação de 1 de
Outubro, que anunciou a libertação do povo chinês.
Imaginar
o que seria o pandemónio e o terror dessa noite, com pessoas a
fugirem desorientadas à aproximação inexorável dos tanques,
esbarrando-se umas nas outras, gritando espavoridas, ficando umas
esmagadas e outras caídas no recinto, é tarefa quase impossível no
meio da multidão de turistas que cruza este espaço em rebanhos que
seguem atrás das bandeirinhas dos guias. Por sinal, o timoneiro que
comandava os destinos do povo chinês, nessa altura, era Deng
Xiaoping, um veterano comunista em projecção após a morte de Mao
que decisivamente contribuiu para pôr fim às atrocidades da
Revolução Cultural, ele próprio uma grande vítima dela, bem como
membros da sua família. A ele se devem as reformas profundas que
inauguraram na China um novo período (“uma segunda revolução”,
como lhe chamou), instaurando a designada “economia de mercado
socialista” e abrindo o país às relações internacionais (foi o
primeiro presidente a visitar os Estados Unidos). O impulso
reformista (outros chamar-lhe-ão revisionista) não lhe tolheu,
todavia, o velho reflexo comunista ou estalinista de reprimir
duramente qualquer manifestação cívica e política favorável aos
mais elementares direitos democráticos.
Jung
Chang, no livro já citado Cisnes
Selvagens, que se lê
como um romance e que é, simultaneamente, biografia de uma família,
atravessando várias gerações, autobiografia e história da China
contemporânea, diz que nem queria acreditar que o político que pôs
fim ao caos e à violência indiscriminada da Revolução Cultural,
que permitiu a reabilitação definitiva dos seus pais, militantes
comunistas desde a juventude, na década de 40, e a
saída dela
da China, beneficiando de
uma bolsa de estudos, por
ter sido a melhor aluna em
inglês na licenciatura,
para estudar numa universidade inglesa, foi o responsável por
aquele horrível massacre. “Teria aquilo verdadeiramente sido
ordenado pelo mesmo homem que aos meus olhos e aos de tantos outros
aparecera como um libertador?” (p. 516).
É
assim: o medo de perder o pé no poder leva, por vezes, aos actos
mais insanos. Abertura sim, mas sem destapar completamente a panela,
não vá a pressão que salta para fora tornar-se incontrolável
e levar tudo na frente, como sucedeu com Gorbachov.
Não
sei se era nisto que pensavam os meus ocasionais companheiros de
viagem, quando
atravessávamos a Praça Tiananmen.
Sei é que, chegados ao fundo, junto ao retrato de Mao Tse Tung, o
guia (em que pensaria ele,
que não referiu nada disto que escrevo?) propôs
que se tirasse uma fotografia em grupo, sob a imagem tutelar do
antigo timoneiro. O fotógrafo, evidentemente, já lá estava.
14 janeiro 2020
A sombra que perpassa sobre o mundo actual
Um dos aspectos mais chocantes
do assassinato do general iraniano Qasem Soleimani mandado executar
por Trump é a motivação que parece estar-lhe subjacente: o
objectivo de desviar as atenções do processo de impeachment
que presentemente está suspenso, antes de ser presente ao Senado
para julgamento, aguardando a possibilidade de se produzirem
testemunhos do pessoal da Casa Branca sabedor dos factos que
desencadearam a investigação e que o próprio Trump interditou de
depor, e a aproximação de eleições presidenciais, a realizarem-se
no mês de Novembro, que o actual presidente pretende disputar, com
vista a um segundo mandato. Foi, aliás, a pensar nelas que Trump se
envolveu nos factos, inquestionavelmente condenáveis e
suficientemente gravosos para merecerem uma destituição do cargo,
que deram origem ao processo. Note-se que um dos desabafos do
presidente logo a seguir ao assassinato, foi o de censurar a atitude
daqueles congressistas (os democratas, evidentemente) que
impulsionaram e pretendem prosseguir com o processo de impeachment:
« Vejam bem», disse mais ou menos, «andam a discutir no Congresso
uma coisa tão ridícula, e eu a braços com tão magno problema!».
Portanto, trata-se de uma
reiteração de processos condenáveis, criminosos, o relativo à
Ucrânia e este do assassinato, traduzido num verdadeiro acto de
guerra levado a cabo sem consentimento do Congresso e envolvendo, por
isso, a possibilidade de uma guerra de consequências incalculáveis,
que para já parece arredada, e, no mínimo, um agravamento das
condições explosivas que se vivem no Médio Oriente, tudo por
simples manobra calculista e profundamente egoísta – a ideia de
lançar uma nuvem sobre o processo de impeachment
e de obter vantagem nas próximas eleições.
Assim está o mundo entregue à
bicharada pelas mãos de homens pusilânimes e indecorosos como
Trump e outros, à frente de nações poderosas, que se lhe equiparam
nos lances criminosos e na falta de escrúpulos.
15 dezembro 2019
Viagem à China I
Visitar
a China é praticamente uma banalidade, nesta época em que o turismo
de massas devassa todos os cantos do mundo e não sabe que mais
inventar para satisfazer a curiosidade esquipática do turista mais
maluquinho de viagens. A China, por outro lado, abriu-se ao mundo,
através de uma ostensiva liberalização económica que a integra,
sem problemas, na trama das relações capitalistas mundiais,
incentivando o turismo em larga escala em moldes perfeitamente
idênticos aos do Ocidente e permitindo que os seus nacionais saiam
do país, quer em turismo, quer para fixação no estrangeiro. Por
isso, a China perdeu uma grande parte da sua aura de mistério,
sobretudo o que lhe vinha da sua singularidade dos tempos
revolucionários, que aguçava a curiosidade de muitos turistas de
querer descobri-la. Mesmo assim, a China é um país imenso do
Continente Asiático que conserva uma identidade própria, uma certa
impenetrabilidade do ponto de vista da sensibilidade do homem
ocidental e a pertença a um mundo outro que é (era) o distante e sonhado Oriente. Distância que, apesar de
tudo, é muito sensível mesmo para quem viaja de avião, nas suas 15
ou 16 horas cumpridas num daqueles acanhados espaços entre os bancos
da classe económica, pese embora o facto de a minha viagem ter sido
efectuada na excelente Companhia aérea dos Emirates em duas etapas,
com intervalo de cerca de 2 horas entre elas (Lisboa-Dubai;
Dubai-Pequim, na ida; Hong Kong-Dubai; Dubai-Lisboa, na volta).
Pequim
é uma cidade que me pareceu imensa, de grandes avenidas e prédios
ao alto, numa arquitectura que me pareceu bastante estandardizada,
mas que, nos prédios mais recentes, busca formas mais ousadas
esteticamente para fugir à vulgaridade e à uniformidade, avenidas
que sobretudo percorri de autocarro, uma que outra vez mergulhando,
quando assim calhava, em ruas mais tradicionais, de prédios baixos,
de aspecto popular, casas de traça antiga, dispostas interiormente
em quadrado, ruas mais buliçosas de pessoas deambulando,
atravancadas de veículos e pequenos comércios, as chamadas hutong
. Tive pena de não percorrer a pé estas e outras ruas semelhantes
que não vi, andar por certas avenidas e ter uma outra perspectiva
dos prédios, do movimento, ver as pessoas e senti-las no seu
quotidiano, mas em vez disso, vi quase sempre carros entupindo as
grandes avenidas, andando lentamente, como em qualquer grande
metrópole do Ocidente, multidões de carros de grandes marcas,
vendo-se em filas intermináveis, mesmo no dia em que cheguei, um
domingo ao fim da tarde, levando imenso tempo a percorrer a distância
do aeroporto ao hotel. Um dia perdido nas formalidades do
desembarque, no trânsito e no alojamento.
O
tempo que permaneci nesta grande capital foi para ter uma imagem dos
sítios turísticos mais emblemáticos: a muralha da China, claro!,
colossal, começada a construir no século V a.C. (informação do
guia que nos acompanhou) e continuada ao longo de séculos.
Inicialmente foram várias as muralhas edificadas (sete, nas
fronteiras de vários principados, para proteger o território dos
aguerridos vizinhos, principalmente dos Hunos, posteriormente
unificadas numa única muralha com a unificação da China no tempo
da dinastia Qin, no século III a.C. Actualmente abrange oito
províncias da China nos seus seis mil quilómetros de extensão.
Empinando-se pelas escarpadas encostas, é coroada por fortalezas nos
pináculos, cada cem metros, e dispõe de torres de vigia de dez em
dez quilómetros. Obra gigantesca, de quase inconcebível esforço
humano, actualmente qualificada como fazendo parte do Património
Mundial da Humanidade, nela pereceram milhares de trabalhadores ao longo de
centúrias.
Neste
dia ensolarado, batido por um forte vento enregelante que sopra da
Mongólia, a muralha está a ingurgitar de turistas, muitos deles
autóctones. Uma lufada apanhou-me desprevenido e arrancou-me o boné
da cabeça com tal rapidez, que mo levou sem que eu o pudesse
capturar, voando pelos ares e pousando no galho de uma árvore, na
ravina. Fiquei a contemplá-lo, desolado, até que ele voltou a
desprender-se no seu voo para locais ignotos, deixando-me à mercê
das navalhadas gélidas do vento. Adeus, boné, para sempre! Com uns
anos que levas de uso na minha cabeça, transportas um pouco de mim
para ficar na China.
A
muralha ficou para trás com o almoço num dos restaurantes locais, e
já vamos a caminho de outra preciosidade turística: o Palácio de
Verão do Imperador. Trata-se de um vasto complexo de edifícios
enquadrado pelo lago Kunming, em grande parte artificial, mas já
existente no século XII, e pela Colina da Longevidade, erguida com a
terra escavada para a construção do lago, em cujo topo se eleva um
elegante pagode budista – o Pagode
da Fragrância Budista,
que domina toda a paisagem em redor.
O palácio, como o nome indica,
era a residência de Verão da família imperial, datando de meados
do século XVIII e dispondo de vários pavilhões: do despacho, da
residência, da imperatriz, da concubina, etc. No pátio fronteiro ao
edifício principal, encontra-se uma estátua em bronze de um
estranho animal, a fazer lembrar certos bicharocos fantasmagóricos da
Rosa Ramalho, o qual, segundo a lenda, só aparecia na Terra nos
tempos de harmonia.
O
lago, de grandíssimas proporções, é atravessado por várias
pontes, das quais a mais grandiosa e de belo efeito cénico é a
Ponte dos Dezassete
Arcos, destacando-se
ainda, ao longe, em relação ao complexo de edifícios, a ponte
denominada Bossa de
Camelo, pedonal, de um
único arco a fazer lembrar a saliência do dromedário. É ainda de
mencionar o chamado Barco
de Mármore, uma
construção extravagante que repousa na água do lago e que foi
restaurada sob mando da imperatriz Cixi nos finais do século XIX,
quando ali estabeleceu residência, tendo usado para o efeito vastas
somas que eram destinadas à marinha naval chinesa.
Uma
das atracções do Palácio é o chamado Longo
Corredor – um
corredor enorme, de várias centenas de metros, situado no exterior.
Aberto dos lados, num sistema de colunas, sobre as quais repousa um
tecto em traves de madeira, ostenta pinturas com cenas da vida
chinesa na parte interior, recobrindo as colunas e as referidas
traves.
O
espaço exterior do palácio está actualmente afectado ao uso
público como espaço de lazer, estando a navegação no lago
acessível ao público entre os meses de Abril e Outubro. Nesse
período, há carreiras de barcos para percorrer toda a sua vasta
área, podendo também fretar-se barcos de recreio, com pedais.
Aliás, nesta altura do ano da nossa viagem, havia grande animação
turística no espaço exterior do palácio, alimentada sobretudo por
turistas internos, onde se destacavam grandes grupos de jovens, com
todo o ar de fazerem parte de excursões escolares. Fora da área do
palácio, em frente à porta de entrada, estendiam-se várias tendas
de comidas, também muito concorridas, nas quais avultavam petiscos
repulsivos à sensibilidade ocidental, como pequenas espetadas de
escorpiões, insectos, morcegos, etc. - um tipo de comércio de rua
muito vulgar na China, em locais de ajuntamento de pessoas.
Esta etapa da viagem finalizou com uma visita ao parque olímpico, uma área soberba
de construções de grande efeito, em que domina o célebre Ninho
de Pássaro, o
edifício do estádio onde decorreram as imponentes cerimónias de
recepção das delegações olímpicas e de encerramento dos jogos,
transmitidos pela televisão, em 2008 (Olimpíadas de Verão). Obra
de arquitectos suíços, com a colaboração de arquitectos
chineses, tem a forma de um ninho no seu intrincado entrançado
exterior de fios de aço.
O
guia chinês - Zhao Naipu (curso superior de línguas, com
predomínio do castelhano, aprendeu também português numa estadia
de dois anos em Moçambique; tratávamo-lo por Gustavo, que dizia ser
a tradução do seu nome em português) – atira números
mirabolantes: a construção do estádio importou em quatrocentas mil
toneladas de aço; o seu custo, em quatrocentos e oitenta milhões de
dólares; a sua capacidade estende-se a cem mil pessoas.
De
entre as construções no enorme recinto, avulta a da piscina, um
amplo quadrado azul, iluminado na noite, onde outras luzes emprestam
ao local uma variegada paleta de cores. Referindo-se à piscina e ao
estádio em forma de ninho, o guia elucida que simbolizam,
respectivamente, a terra e o céu. Uma obra que sobretudo é um símbolo das altíssimas aspirações chinesas a destacar-se como primeira potência mundial.