07 agosto 2020

 

China VIII


De regresso a Hong Kong, reatamos a ligação com Ken, o guia que deixámos na partida para Macau. Vamos a um passeio na baía de Hong Kong e ao porto de Aberdeen, uma vila piscatória. De barco, percorremos a baía, por entre juncos, yates, traineiras e as célebres casas flutuantes, onde vivem muitas famílias com seus animais, roupas estendidas a secar ao sol, antenas de televisão a ligarem-nas ao mundo exterior.
De novo em terra, vamos em demanda do pico Vitória. No início da subida que vai caracolando em curva e contracurva até ao cimo, paramos numa praia magnífica, uma estância balnear no oceano Pacífico, bem servida de adequadas instalações. Praia deserta neste quase fim-de-tarde, mas banhada em doce tranquilidade, sol a esmorecer por cima da água em repouso, uma ilhota erguendo-se no mar em majestosa melancolia, colinas diluindo-se ao fundo em esfumada distância. Apetecia dar um mergulho e umas braçadas valentes, mas não é ocasião de praia. Há quem se contente em ir até à borda de água para molhar os pés, atravessando o vasto areal.
Seguimos em frente, na ascensão ao Victoria Peak, 550 m. de altitude. É um local de muito turismo. Do alto, obtém-se uma vista soberba sobre Hong Kong, o casario com seus arranha-céus avultando, a baía, as montanhas que rodeiam a cidade. É ao escurecer, as luzes começam a acender-se. Restaurantes e dois centros comerciais povoam o alto. Junto a um dos centros comerciais tem paragem final o funicular. Porém, não é aqui que tem lugar o nosso jantar. Este ocorre num restaurante na baixa da cidade, para onde vamos no autocarro, sempre encaminhados pelo Ken. Por sinal, um jantar muito agradável, com muitos pratos, como é típico na China, dos melhores que temos saboreado. Comida cantonesa.
Instalados no hotel, saio para a rua antes de dormir. Não há por aqui grandes coisas para observar, nem grandes vistas. Como já referi, o hotel fica num alto, que é ocupado praticamente pelo complexo que inclui o centro comercial Metropolis. Ao fundo, vêem-se estradas alcatroadas cruzando-se em vários níveis. Porém, saio para contemplar, pelo menos, a grande fachada do hotel, que se desenvolve em harmónio, o grande átrio buliçoso, onde os funcionários do câmbio trocam divisas estrangeiras pelos dólares de Hong Kong. Fora, há um espaço ajardinado bastante agradável, iluminado durante a noite, com pequenos lagos e chafarizes e bancos para as pessoas se sentarem. Há uma escadaria para descer a colina e que, por baixo de uma das estradas acima referidas, conduz os peões ao outro lado, onde parece haver uma estação de Metro. Este local onde está situado o hotel não olha para a cidade, o casario, o movimento das pessoas; em contrapartida, está muito perto das vias de acesso e saída da cidade, nomeadamente da estrada que conduz ao grande túnel subaquático, no termo do qual está o cais onde se apanham os barcos para Macau, como já referido.


Eis um novo dia cheio de sol – um sol companheirão que não nos tem largado nestes dias de viagem. Ele entra pelo quarto em jorros, mal corrida a cortina, proclamando estridentemente o seu carácter festivo.
Esta é uma manhã livre em que cada qual pode dispor do tempo como lhe aprouver. Tomado o pequeno-almoço nas calmas na sala de aspecto muio íntimo com mesinhas de duas ou quatro pessoas devidamente atoalhadas e onde se detectam hóspedes de várias proveniências, atestando o ar cosmopolita do hotel, pondero entre sair para o centro da cidade num dos pequenos autocarros a isso destinados, ou ficar por aqui na sorna. Hoje é o último dia útil de viagem; os dias gastos nas viagens de ida e volta não os incluo no tempo útil de fruição. Estes são consumidos a andar de avião em que se vai atarracado em bancos sem espaço para cruzar as pernas, numa total ausência de paisagem, fingindo dormir quando o sono aperta, ansiando pelo dia ou hora de chegada.
Opto por ficar no hotel. Por volta do meio-dia, há que pôr as malas à porta do quarto, a fim de que os funcionários a isso destinados as carreguem em carrinhos próprios e as levem para o autocarro que nos há-de transportar durante todo o longo dia que temos pela frente, até à hora de avançarmos para o aeroporto. Se fosse para o centro da cidade, teria que sujeitar-me às horas dos autocarros que levam e trazem os hóspedes, embora com frequência de 20 em 20 minutos e, preocupado com a hora das malas, pouco disfrutaria da cidade. Não seria assim, se me tivesse levantado muito cedo. Fico, pois, e vou lendo, de meu vagar, os guias que trouxe comigo, escritos em inglês. Antes, porém, vou dar um curto passeio a pé, descendo a rampa que vai do hotel a uma das estradas asfaltadas, lá em baixo. É uma forma de quebrar o mistério: saber o que há para esses lados. E há prédios altos na continuação do hotel, grandes armazéns ou empresas de largas portas, algumas escancaradas, mostrando largos pátios interiores onde se movimenta um ou outro trabalhador e se divisa um carro pesado; no fundo, apenas confluência de estradas e avenidas. Nada que mostre a malha urbana.
Após o almoço, já no autocarro, paramos no Mercado de Jade. Ocasião para umas compras, como não podia deixar de ser e oportunidade para gastar os últimos dólares de Hong Kong (também aceites em Macau, onde a moeda própria é a célebre pataca, de cotação inferior). Há entre nós alguns que têm muito jeito para marralhar e correm num repente todas as bancas. Em toda a China, pelo menos neste tipo de comércio, começa-se por pedir alto e oferecer baixo, muito baixo, com um longo marralhanço pelo meio, fingindo-se desprezar a peça que se pretende e os mais avezados a este tipo de mercadejo abandonando mesmo o local, em sinal de desapego ou desinteresse, à espera que o vendedor vá no seu encalço. Não é teatro para mim. Apesar de que acabei por comprar, mas sem marralhar muito (apenas um tímido questionar o preço) um pequeno buda.
Seguimos para o famoso templo Wong Tai Sin, também situado no Kowloon. É um templo apresentado como taoísta, mas onde confluem o taoísmo, o confucionismo e o budismo. Ocupando uma vasta área com seus pavilhões construídos na tradicional arquitectura chinesa de telhados de bordos revirados, dispõe de zonas ajardinadas (O Jardim dos Bons Desejos), ampla escadaria ascendente e descendente, esculturas, um lago e um fontanário de belo efeito cénico, passadiços e uma ponte sobre a água. Rodeada pelos típicos arranha-céus de Hong Kong, a levantarem os seus topos sobre o arvoredo que circunda o templo ou a mostrarem-se na sua inteireza através dos espaços sem árvores, diz-se que nesta área de culto confluem os cinco elementos: metal no Pavilhão de Bronze, madeira no Salão de Arquivo, água no fontanário Yuc Yic, fogo no santuário Yue Heung, onde arde a lanterna de Buda, terra na Parede de Terra.
O templo honra a memória do monge Wong Tai Sin, nascido no século IV e venerado como divindade. O seu retrato está exposto no templo e foi trazido por um padre taoísta do sul da China em 1915, mas, como vimos, o culto estende-se a Buda e ao confucionismo, patente no Salão confucionista.
São muitos os fiéis que acorrem a este local, munindo-se dos tradicionais pauzinhos de incenso, que acendem num queimador colocado à entrada e apagam de seguida, deixando evolar-se o fumo – pauzinhos esses que depositam num dispositivo próprio perto do altar principal. Como são muitos os fiéis e cada qual transporta uma mão cheia de pauzinhos de incenso, o fumo que se evola é muito e o cheiro que se espalha é intenso.
No recinto onde os fiéis se ajoelham em almofadas, há um contínuo batuque produzido pelo barulho de cilindros ou caixas de bambú contendo pequenas pedras numeradas que os crentes agitam, como se estivessem a tanger um instrumento. A dada altura, uma dessas pedrinhas sai da caixa e cai no chão. O número que lhe corresponde é depois decifrado através de um rolo de papel com o mesmo número, que os crentes obtêm dirigindo-se ao sítio onde se encontra um monge encarregado de tal tarefa. O desejo que os fiéis formulam ou em que pensam no momento em que abanam o cilindro é ou não satisfeito consoante a resposta obtida, que se encontra escrita no papel.
Uma das atracções deste recinto de culto é o conjunto de avantajadas esculturas de animais que simbolizam os doze signos do zodíaco chinês. Numerosos chineses e estrangeiros circulam pelo meio dessas figuras, tentando encontrar o animal do seu signo e tirando fotos junto dele. “Como cada signo no horóscopo chinês rege para um ano e são doze: o Ano do Porco, do Tigre, do Dragão, da Serpente, etc… é só saber qual o signo deste ano e andar para trás até encontrar o ano do nascimento e o signo que lhe corresponde”, diz-me um dos companheiros de viagem que já tinha descoberto o seu signo. Mas não será bem assim, porque o ano chinês não coincide com o ano do calendário ocidental, o que torna mais complexas essas contas. Quem for à internet, pode descobrir facilmente o seu signo, escrevendo o ano e a data do nascimento.
Como o dia é longo e a tarde ainda é comprida, vamos de visita ao Jardim de Nan Lian, um recanto paradisíaco com belos arruamentos, esplanadas e pequenos declives, povoado de bonsai, árvores de todos os estilos, algumas delas de madeira que ardeu e que aqui se conservam como relíquias ao alto, mas de efeito singular, pedras de vários formatos, construções de arquitectura chinesa entalhadas no arvoredo, lagos, uma azenha movendo-se num cenário rústico, pontes, canteiros, miríades de nenúfares boiando na água em variegadas cores. Logo à entrada do jardim, o visitante é surpreendido com uma série de pavilhões onde se abrigam magníficas peças em madeira, reproduzindo diversos objectos e construções representando mosteiros em miniatura, mas de complexa factura e cobrindo áreas assinaláveis. Uma visita reconfortante a um lugar não muito frequentado por turistas.
Ainda sobrou tempo para uma surtida ao centro da cidade. Ruas compridíssimas (duas ou três paralelas umas às outras, que nos foram indicadas pelo Ken como nevrálgicas em termos comerciais), cruzadas por outras de través, correndo entre arranha-céus e parecendo, por isso, estreitas. Uma corrida de fim de tarde, vistoriando estabelecimentos e farejando mais qualquer coisa para comprar, pois que outra coisa sabem fazer os turistas nos intervalos dos programas de visitas? Muitos dos nossos companheiros de viagem regressam ao autocarro afobados da corrida às compras, exibindo com alvoroço o objecto que adquiriram ou enaltecendo a pechincha que conseguiram. E com isto são horas de jantar, pelo que vamos em direcção ao restaurante situado também no centro e com uma particularidade que mencionarei. É a nossa última refeição em solo chinês.
Um jantar digno de um fim-de-festa. Foi um belo repasto composto de vários pratos chineses, colocados na placa giratória que existe no centro das mesas chinesas: os convivas vão-se servindo disto e daquilo, fazendo rodar a placa de modo a acederem ao prato desejado. Houve direito a vinho (raro nos sítios por onde passámos), cerveja ou água, para além, claro!, do chã que sempre faz parte de qualquer refeição chinesa. Havia bons bolos para sobremesa, para além de fruta. Café – nicles. Mas a derradeira surpresa estava para vir: um espectáculo de luminotecnia observado de uma grande esplanada que havia na parte de trás do restaurante e se debruçava sobre a água, ali em corrente como um rio, onde de vez em quando um barco passava, talvez transportando turistas. Do outro lado postavam-se os edifícios iluminados, acompanhando o monte. A dada altura, o espectáculo começou com um singular jogo de luzes que se projectavam do outro lado e vinham reflectir-se nas águas num cromatismo variado e de belo efeito, não só cénico, como coreográfico e sinfónico, ao mesmo tempo que trechos de música, criteriosamente seleccionados, acompanhavam em acordes condizentes o bailado luminotécnico. Isto durante uns 20 minutos a meia hora. Uma noite de S. João no Oriente. “Todos os dias isto?”, perguntei. “Sim, todos os dias”, respondeu Ken. Uma festa todas as noites é obra. Porventura, mais com vista nos turistas, do que nos residentes, para os quais isto será a rotina diária. A festa pressupõe a raridade, segundo penso. Não me refiro, evidentemente, à falsa festa permanente das nossas sociedades de consumo, dos hipermercados, dos shopping centers, etc. - que essa é a festa da sociedade do espectáculo [da mercadoria], de Guy Debord.
Bem, mas assim entrando em filosofices, já vamos a caminho do aeroporto, onde é preciso estar umas horas antes do embarque para as muito demoradas e penosas formalidades de controle. Ken ajudou-nos a ultrapassar algumas das vicissitudes surgidas no decurso dessas operações. A mim, sobretudo, que, para além das malas – a mala grande, de rodinhas, uma mochila grande e outra pequena - tinha o empecilho do edredon, causando desconfianças. Tive que abrir o saco onde vinha metido, mas passou, felizmente. Agora, ia ter uma longa noite para pensar na viagem e ordenar ideias sobre o país que me preparava para deixar – um dos países que ardentemente aspirava conhecer desde há muitos anos. Mas, primeiro, vou à procura de um café verdadeiro num desses estabelecimentos do aeroporto. E, sim, encontro um sítio onde posso tomar um café expresso e, por cima do café, tenho o desejo dum cigarro, talvez também pela enorme descompressão que sinto por ver-me livre do stress do controle (actualmente só fumo de tempos a tempos). Andando a pé metros e metros, acabo por encontrar um recinto fechado com aspiradores de fumo onde se pode fumar, mas não tenho isqueiro para acender o cigarro, pois tive que o deitar fora para poder passar no controle. Peço lume a um dos fumadores, que deve ter arranjado isqueiro algures dentro do aeroporto, ou então teve artes de o subtrair à vigilância dos funcionários.
Às primeiras horas da madrugada embarcámos na aeronave da Emirates com destino a Dubai. Aqui, apanharemos outro avião com destino a Lisboa. Longas horas, grande parte delas de noite, as cortinas opacas das minúsculas janelas totalmente descidas, aumentando a sensação de imobilidade, nave suspensa no ar, cercada de escuridão, os motores ronronando monotonamente. A mim, que viajo solitariamente, calha-me o lugar da janela, como quase sempre tem sucedido, obrigando-me a ter de pedir licença aos dois viajantes que ocupam os lugares à minha esquerda, se quiser ir à casa de banho ou libertar as pernas da prisão onde se encontram. Mas nada de azar. Trata-se de um casal que me tem acompanhado durante a viagem e, durante o voo, que durará 8 horas e 20 minutos, segundo as previsões, há intervalos para as refeições: uma maior (ceia) e outra mais pequena, equivalente ao pequeno-almoço. Durante elas, as pessoas sempre palram e mexem-se de um lado para o outro. Entre Dubai e Lisboa, outras 8 horas e tal, mas já com sol entrando pelas vigias, haverá mais duas refeições; outro pequeno-almoço e almoço. A chegada está prevista para as 12 horas. Com as formalidades e recolha de malas, só pelas 13 horas estaremos a sair do aeroporto para tomarmos (os viajantes do Norte) assento no autocarro que nos levará ao Porto. Mais 4 horas de viagem.
Muito tempo para dormitar e reflectir sobre várias coisas, principalmente sobre a excursão à China. Uma viva impressão que me ficou foi o desenvolvimento económico. Trata-se, sem dúvida, de um país altamente desenvolvido, ao nível dos países capitalistas mais avançados. Pode-se dizer que, se há benefício que a revolução trouxesse para tão vasto território foi no tocante ao desenvolvimento das forças produtivas, que sofreram um incremento notável num país atrasado da Ásia, onde dominava o campesinato e mesmo o feudalismo. Tal incremento, a meu ver, deve-se sobretudo ao regime político, que é ditatorial, regime de ditadura de um partido – o Partido Comunista -, que não é a mesma coisa que a célebre ditadura do proletariado, e não sei se será mesmo ditadura do Partido propriamente dito, ou apenas de uma clique – a sua fracção dirigente.
Foi essa ditadura, a meu ver, que permitiu a gigantesca acumulação de capital e o desenvolvimento acelerado das forças produtivas durante alguns decénios em que a total ausência de direitos fundamentais, como a liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e de comunicação social, os direitos de reunião e manifestação, o direito de livre sindicalismo, o direito de greve, etc. e ainda um sistema sufocante de controle no trabalho e em outras esferas da sociedade, principalmente durante o maoísmo, aplanaram o caminho para esse desenvolvimento, eliminando todos os obstáculos que se lhe poderiam opor. Tudo em nome da diabolização da democracia burguesa e das virtudes inquestionáveis da democracia popular, ou do Estado Socialista, ou como lhe queiram chamar.
Do ponto de vista económico, é, pois, visível a abertura da China ao mundo exterior e ao entrosamento do país na trama das relações económicas mundiais, às leis do mercado, à concorrência do capital estrangeiro, permitindo a entrada das grandes empresas que dominam o mercado mundial, cuja presença é palpável em todo o território, abertura, enfim, às seduções múltiplas do consumo (dos centros comerciais, à comida de fast food, à moda, etc...). Nada diferencia as grandes cidades chinesas das metrópoles ocidentais, a começar pela intensidade do tráfego e pelos incómodos correspondentes. Carros e carros particulares, em competição com os transportes públicos, dando azo a engarrafamentos de trânsito e grandes delongas na chegada aos locais. Carros de marcas sonantes no Ocidente, como Mercedes, Volkswagen, BMW, Porshe, a par de marcas dos países asiáticos, como Mitshubichi, Toyota, Nissan, Honda, Kia, etc. Grande parte dessas marcas têm sede na própria China, sendo os carros lá fabricados e montados.
A China abriu largos sectores da economia à iniciativa privada, continuando, porém, o Estado a controlar grandes empresas estratégicas e o sector financeiro, segundo deduzi das respostas que os guias, sobretudo Zhao Naipu, o guia de Pequim (para mim o de maior arcaboiço), deram às questões que lhes foram formuladas por alguns. É, assim, possível encontrar gente muito rica na China, donos de meios de produção consideráveis. Por exemplo, donos de empresas de transporte, como as que fazem excursões turísticas de barco em Xangai e Guilin, se estão correctas as informações fornecidas pelos guias locais, a quem fiz a pergunta. Aliás, estes guias faziam alusões frequentes a compatriotas com muito dinheiro.
Na cidade de Xian, passámos numa avenida com vivendas e a senhora que nos acompanhava fez referência aos donos delas, dizendo que eram chineses com posses, encarecendo o seu estatuto social. Os chineses podem ser proprietários de imóveis, mas, de um modo geral vivem em casas mais modestas, possuídas no regime de propriedade horizontal. O terreno onde as casas estão implantadas pertence ao Estado, que cede o direito de superfície por 70 anos, se bem entendi, como em qualquer país ocidental. Os proprietários podem vender as casas e deixá-las em herança aos familiares que gozam do direito de sucessão. Porém, com a condição de o direito transmitido ficar sujeito ao limite dos tais 70 anos, o que não será muito distinto do que se passa entre nós. Setenta anos será presumivlmente o tempo de duração da própria construção.
Pelo exposto, será fácil de concluir que a liberalização económica, iniciada no tempo de Deng Xiaoping, trouxe uma certa liberalização de costumes e mesmo algumas liberdades, como a liberdade religiosa e a liberdade de deslocação. Jung Chang, a autora de Cisnes Selvagens que já citei, a viver em Londres, onde se doutorou e ficou a leccionar no ensino superior, diz que, entre 1983 e 1989, regressou à China todos os anos para ver a mãe e que, na primavera de 1989, viajou por todo o território para fazer pesquisa para aquele seu livro. Sem entraves, num país que ela tinha conhecido peado de movimentos e onde os pais, militantes comunistas de certa envergadura, não tinham escapado à repressão maoísta, mais tarde tendo sido reabilitados, o pai já falecido.
Ela reconhece, no final dessa obra, que muita coisa mudou na China nos anos 80 ao nível das reformas económicas, com a abertura ao comércio e ao investimento estrangeiros e à autorização de um sector privado, ao nível das comunicações com o exterior, nos contactos interpessoais, na facilidade de deslocação e mobilidade, nos noticiários da TV, embora filtrados e, consequentemente, numa maior liberdade de expressão e de informação e mesmo de crítica, reconhecendo, todavia, que o caso de Tiananmen, parecia fazer regressar o medo que uma grande parte dos cidadãos incautamente tinha esquecido.
Os chineses podem inclusive emigrar para tentarem obter outros meios de fortuna e, segundo o que apurei, recebem mesmo auxílio material do Estado para o efeito, se necessitarem. A condição é a de, quando regressarem ao país, darem ao Estado uma contrapartida, não sei em que termos.
Outra das conclusões que é fácil de extrair do exposto até aqui é que a referida liberalização reforçou os traços capitalistas do regime, criando uma classe capitalista de vulto, como se tem visto entre nós com a história dos vistos gold, em que chineses particulares são dos maiores investidores no nosso país. Há, assim, uma estrutura de classes na China, em que uma burguesia construída à sombra do Estado desempenha um papel fundamental na dinamização económica, cabendo, no entanto, ao Estado a detenção de importantes e estratégicos meios de produção e a primordial função de controle, direcção e estímulo de todo o sistema económico, sob uma férrea disciplina autoritária.
Isto constituirá, então, o capitalismo de Estado chinês? Um capitalismo que, sob a ditadura do Partido Comunista, visa o desenvolvimento mais rápido das forças produtivas como via para atingir o almejado socialismo? E beneficiando, entretanto, as elites dirigentes do Partido, constituídas como uma classe burguesa dominante? Que seria dissolvida como? Por meio de outra revolução?
Eis questões que fui formulando insistentemente durante esta viagem. Em Pequim, ganhei confiança com Zhao Naipu e confrontei-o com uma questão fundamental tratada por Lenine em O Estado e a Revolução. O Estado é sempre um instrumento especial de repressão de uma classe sobre outra. Se o socialismo, na sua fase superior ou comunismo, pressupõe o desaparecimento das classes sociais, mesmo do proletariado, erigido transitoriamente em classe dominante, como é possível falar em Estados Comunistas? Não há Estados Comunistas.
Zhao Naipu não se desmanchou, nem perdeu a sua fleuma habitual. Respondeu-me ele: “Sim. Não há Estados Comunistas. O Comunismo só é possível a nível mundial, quando houver condições para isso.” Ou seja, esta teoria corresponderá ao cerne da doutrina marxista clássica, segundo a qual o comunismo só é possível numa perspectiva internacionalista, em que os países mais desenvolvidos fazem a revolução, arrastando para ela os países dependentes.
Penso, então, nestas incomensuráveis horas de voo: Quererão os dirigentes chineses levar a China a ser a primeira potência mundial e ir ganhando preponderância no aparelho produtivo global pelo assenhoreamento de importantes sectores de produção? Há uma frase de Deng Xiaoping, o principal obreiro da abertura da China e também o chefe de Estado que ordenou o massacre de Tiananmen, que me vem bailando no espírito: “Escondei a vossa força, ganhai tempo, não desanimeis”.

10 julho 2020

 

China VII




De manhã cedo atravessámos, de autocarro, um comprido túnel que, por baixo do mar, liga a cidade de Hong Kong ao cais onde se apanham os ferries para Macau. Fomos acompanhados pelo guia chinês, que, no seu fluente castelhano, nos foi ministrando conhecimentos sobre as construções subaquáticas na região da península do Caulum, onde se encontra Hong Kong. Actualmente existe uma ponte que liga os dois territórios e que tem uma extensão total de 55 kms. (a maior ponte do mundo?), inaugurada em Outubro de 2018.
Munidos dos respectivos bilhetes, pré-comprados, embarcámos num agradável turbo-jet, que fez a travessia do grande delta do rio das Pérolas em apenas 1 hora (num ferry tradicional levar-nos-ia pelo menos três horas). Estava um belo dia de sol, como tem estado sempre nesta viagem, pelo que pudemos desfrutar plenamente o prazer de navegar a uma velocidade considerável, contemplando a vastidão do delta, através dos vidros das janelas, que a água, arremessada com a força da deslocação, vinha borrifar de gotículas, deparando-se-nos, de quando em quando, as arribas cobertas de verdura de alguma ilhota. Antigamente, estas águas estariam enxameadas de arrojadíssimos piratas, que assaltavam com perícia e ferocidade as embarcações que passavam. Segundo uma versão que se conta, os portugueses que andavam pelos mares desta parte da Ásia, ajudaram os chineses a combater os piratas e a vencê-los, ao cabo de três anos de porfiados esforços, o que fez com que as autoridades chinesas tivessem premiado Portugal com a doação de Macau.
Aqui, uma vez desembarcados, esperava-nos a guia que nos iria acompanhar durante o tempo da nossa permanência. Chamava-se Maria Eugénia, uma senhora de origem portuguesa, com uns ligeiros traços achinesados. A língua em que se exprime é o português, com uma ou outra palavra em castelhano. Diz que não percebe os chineses, porque não fala o mandarim, mas o cantonês. É uma mulher desembaraçada e cheia de bom humor, alegre, muito expressiva e satisfeita da vida. Aparenta mais de sessenta anos, mas diz que não chegou aos cinquenta com uma tal graça, que põe toda a gente a rir. É esta mulher que, de microfone em punho no interior do autocarro, nos vai dando indicações sobre Macau, as pontes que fazem a ligação às ilhas da Taipa e de Coloane, a Hong Kong e à China continental. Fala com entusiasmo dos progressos do território, da religião cristã que é a sua e do seu conforto em viver neste canto do mundo, onde não a parece incomodar a integração na vasta China dita comunista. Ah!… e também fala de Sun Ya Tsen. Como poderia não falar desse homem, fundador da República da China em 1911 e seu primeiro presidente, que varreu do mapa o regime dos imperadores, esse médico natural de Cantão, que viveu e exerceu em Macau? “Sabem que foi ele que acabou com o enfaixamento dos pés, esse bárbaro costume que vitimava as mulheres? Uma coisa horrível que obrigava as mulheres a andarem com os pés amarrados, encolhendo os dedos e fazendo feridas. E sabem que o Dr. Sun Ya Tsen trouxe a medicina ocidental para Macau?”
Eis que, levados pela loquacidade e a boa disposição da D. Eugénia, chegamos à Porta do Cerco. Uma porta que não tem nada de imponente, é até relativamente modesta, ao menos em comparação com aquilo que nos pintava o nosso imaginário, que nos inculcava uma porta muito mais avantajada para servir de fronteira entre Macau e o vasto território da China continental. A verdadeira fronteira, aliás, seria mais acima. D. Eugénia narra um pouco da história desta porta e fala de um governador português – Ferreira do Amaral, que teve um final trágico: os chineses assassinaram-no e decapitaram-no. D. Eugénia fala da abertura de uma estrada ordenada pelo governador, que ia de Macau até às designadas portas do cerco (isto é, até à fronteira com a China) e que, para o efeito, foram escavados cemitérios chineses que para ali existiam, dando origem a que os camponeses se revoltassem e o matassem. Insatisfeito com a explicação, procurei mais informações, designadamente na internet. Sumariando o que investiguei, aqui vai algo mais:
Ferreira do Amaral foi governador de Macau no tempo de D. Maria II. Distinguiu-se por reforçar a soberania da colónia, aliás, em consonância com os desígnios políticos manifestados pela rainha, acabando com certas dependências chinesas em termos alfandegários e direitos correlacionados, pagamento de rendas anuais, etc..., declarando Macau como um porto franco e ordenando a expulsão dos mandarins.
Por outro lado, teve a pretensão de estender o seu domínio sobre toda a comunidade macaense, estabelecendo impostos que oneravam também a comunidade chinesa e acabando com o seu estatuto especial, isto para compensar a perda de receitas provocada pelo facto de Macau passar a ser um porto franco. A comunidade chinesa reagiu revoltando-se e a revolta foi sufocada pelas forças militares portuguesas. Dias depois, em 22 de Agosto de 1849, Ferreira do Amaral foi assassinado, tendo sido decapitado e tendo-lhe sido decepado o braço direito. Quanto à abertura da estrada, encontrei efectivamente alusão a esse facto, mas não vi nada que se relacionasse com a escavação de cemitérios.
Esta cena deu origem a um confronto entre os militares portugueses e as tropas imperiais chinesas, refugiadas num forte que se situava do lado chinês. Um oficial macaense, chamado Vicente Nicolau de Mesquita, reuniu umas dezenas de soldados, os quais atacaram o forte, acertando-lhe com um único tiro disparado por uma peça de artilharia e espalhando a confusão no forte, que depois assaltaram, expulsando os cerca de 500 chineses que lá se encontravam. Como represália, trouxeram a cabeça e a mão de um mandarim.
Os dois acontecimentos – a morte do governador e o assalto ao forte, conhecido como Passaleão -, ficaram registados a um lado e outro da porta do cerco, cujo arco foi mandado erigir em 1871 para comemorar esses feitos. A porta não data dessa altura, mas anteriormente seria em madeira. Do lado esquerdo está gravada a data da morte de Ferreira do Amaral – 22 de Agosto de 1849 – e do lado direito, a da btalha de Passaleão – 25 de Agosto de 1849. Na barra por cima do arco, a inscrição: A Pária Honrai Que A Pátria Vos Contempla.
De autocarro, seguimos para outra paragem. Desta feita, vamos visitar alguns monumentos do centro histórico, fazendo parte do património mundial classificado pela UNESCO em 2005. Há um conjunto de igrejas situadas próximo umas das outras, as quais vamos percorrendo, entrando nesta ou naquela: igrejas de Santo António, Santo Agostinho, S. Lourenço, S. Domingos, esta com uma fachada mais imponente, de estilo barroco, mas nenhuma delas com uma riqueza digna de uma menção especial, quer pelo que toca ao exterior, quer no respeitante ao interior. A igreja efectivamente mais relevante é uma ruína, de que apenas se conserva a grandiosa fachada, barroca, mas com outros estilos à mistura, ostentando uma profusão de imagens. É a igreja de S. Paulo, aliás, da Madre de Deus, que é praticamente um ex libris de Macau.
Construída pelos jesuítas no século XVI (1565), sofreu um incêndio no final do século. Sujeita a reparação, esta veio a ficar concluída em 1602, mas um novo incêndio, em 1735, veio a destruir a igreja por completo, assim como o colégio anexo, esse, sim, denominado Colégio de S. Paulo, uma espécie de instituto universitário, onde faziam estudos superiores os aspirantes a missionários, que depois iam evangelizar para diversas paragens da Ásia. Elevada no cimo de vasta escadaria, a fachada é o testemunho sobrevivente de uma das maiores, senão a maior igreja católica do Oriente. Está construída em vários níveis, terminando num frontão triangular; cada nível e o frontão encerram uma determinada simbologia.
A célebre Gruta de Camões não podia deixar de estar inscrita no cardápio de visitas obrigatórias. É talvez daqueles lugares míticos que o viajante português almeja com mais ardor. Talvez por isso o confronto com a realidade deixe um certo sabor de decepção. Já se sabe que realidade alguma preenche as dimensões de um mito, seja ele de que natureza for. Porém, esta gruta resume-se a três calhaus, dois ao alto e um de través, em cima daqueles. O viajante pergunta, incrédulo: «Foi aqui que o nosso épico se refugiou a urdir a gesta dos descobrimentos?» A lembrá-lo lá está a inscrição numa lápide da primeira estrofe d’Os Lusíadas.
Os pedregulhos sugerirão a possível rudeza, mas não certamente a beleza primitiva do lugar, hoje inserido num belo e cuidado parque urbano com vegetação tropical, que ascende pelo outeiro, dispondo de uma ampla escadaria de pedra; o local que se diz ter sido a gruta fica sensivelmente a meio do escadório, num recanto pavimentado, como aliás todo o recinto. Ajustadas serão as palavras que Ferreira de Castro escreveu sobre o local:
«É um admirável parque, cheio de amáveis recantos, de árvores seculares, de flores, de chineses que meditam sobre os bancos, de pares que buscam as sombras e de crianças que brincam nas clareiras. Situado junto ao porto interior, o outeiro oferece belas perspectivas sobre os juncos ancorados, a Ilha Verde no flanco da península, e as distantes montanhas de Chung Shan. A única coisa feia é, justamente, a gruta onde o épico teria escrito parte d´”Os Lusíadas”. Dois penedos verticais, sobre eles um penedo horizontal, eis o sítio que se julga eleito por Camões para nele trabalhar.» (A Volta Ao Mundo, edição monumental, Empresa Nacional de Publicidade, 1942, p. 480).
A propósito da gruta de Camões, um pensamento que me ocorre é como foi ele um profundo renovador da língua portuguesa e um exímio estilista, que abriu caminho ao português moderno, e ao mesmo tempo um vastíssimo conhecedor da mitologia e da cultura da Antiguidade Clássica, da literatura, da cosmografia, da história e de várias outras ciências do seu tempo, de que deu provas sobejas de erudição n’Os Lusíadas e também na sua obra lírica, tendo levado a vida que levou. Como foi ele um tal portento, tendo sido um boémio brigão, um viajante de largo espectro e um aventureiro como Fernão Mendes Pinto, em suma, um homem de vida instável e acidentada, sobretudo no Oriente, escrevendo em lugares silvestres como terá sido este e noutros locais precários e não podendo transportar consigo grande bagagem, principalmente em apoio bibliográfico. É certo que terá adquirido vasta soma de conhecimentos em Coimbra, pelo menos através de um tio que era prior do Mosteiro de Santa Cruz e chanceler da Universidade, que a frequência da Corte lhe alargou os horizontes culturais e que a enorme experiência do mundo e da vida que acumulou nas suas andanças lhe proporcionou uma visão das coisas assente no real vivido, como lembram certos dos seus biógrafos, como Hernâni Cidade na sua obra Camões, mas tudo isso não explica a sua capacidade para suprir a falta dos referidos apoios no acto da criação. Era, certamente um homem dotado de uma craveira excepcional.
Aproveito para perguntar à D. Eugénia por outro grande poeta português, embora de escassa produção: Camilo Pessanha, que viveu e morreu em Macau. Não há nada que o lembre? D. Eugénia encolhe os ombros em sinal de vago conhecimento de tal personalidade. Por fim, diz que lhe parece que há em local que não identifica uma estátua. E com isso me fico, resignado a essas magríssimas referências, aliás, conformado também com o limitado tempo que nos é dado para conhecimentos mais pormenorizados e mais fora do habitual. Entretanto, seguindo em frente, perto da hora do almoço, dou-me conta de que outras coisas se vão perdendo mesmo entre monumentos normalmente enquadrados no rol turístico: a Sé Catedral, a Fortaleza do Monte e a Fortaleza de Nossa Senhora da Guia, todas incluídas no centro de Macau classificado pela Unesco em 2005. Apenas uma referência em andamento ao cemitério protestante, que fica ao lado do parque que acabámos de visitar e onde estão sepultadas algumas proeminentes personalidades britânicas que passaram por aqui.
A pé, vamos andando pelas ruas antigas, de sabor muito português e familiar, enfiamos por uma rua pedonal (qual o seu nome, em que não atentei?), animada à hora a que passamos, com lojas comerciais, restaurantes, cafés e pastelarias. À porta de duas delas, uns simpáticos jovens, com tabuleiros nos braços, vão oferecendo aos passantes biscoitos e pequenos bolos.
E já estamos no Largo do Senado. É uma bonita praça com o chão em calçada portuguesa formando desenhos ondulantes, um fontanário ao centro, ao fundo o icónico edifício que albergou o Leal Senado, que foi o centro do governo e administração colegial do território e depois e actualmente, de actividades ligadas com funções municipais. Bordejando a praça, edifícios seculares de boa arquitectura, entre os quais o da Santa Casa da Misericórdia.
O edifício que foi sede do Leal Senado é uma digna construção neoclássica, dividida em três corpos, com janelas de sacada em ferro forjado sobrepujadas por áticas, no piso nobre, e um frontão triangular na parte central a rematar o frontispício, e na parte de baixo, de um lado e outro da entrada principal aberta ao centro, janelas de peito, com resguardos de ferro forjado. Não visitámos o interior, onde se destaca o jardim, a sua, pelos vistos, bela biblioteca, a sala de reuniões do antigo Senado e seus tectos apainelados, os seus corredores dignos de nota. Tudo isso fica para outra encarnação.
Após o almoço, o autocarro deixou-nos junto da emblemática Torre de Macau, uma das maiores torres do mundo, com 338 metros de altura, construída em 2001. Não subimos ao cimo, onde há um restaurante giratório que deve ter vistas magníficas e onde se vêem alguns jovens a praticar desportos radicais (500 euros para saltar, diz a D. Eugénia).
Dali seguimos para o templo de A-Ma’, muito perto da Torre, também conhecido por Pagode da Barra, assim designado por se encontrar em frente à baía que forma o porto interior de Macau. A-Ma’Gao significa exactamente, em cantonês, “baía de A’Ma, de onde teria derivado o nome de Macau, como lhe chamaram os portugueses ali desembarcados pela primeira vez em 1554 ou 1557 (datas estas que colhi na Wikipédia).
A-Ma seria a Deusa do Céu, venerada no Sul da China e considerada protectora dos marinheiros e pescadores, que teriam erguido o templo que lhe é dedicado e que datará do século XIV ou XV (nenhum dos guias fornece uma data exacta). A-Ma é uma deusa taoísta, que, segundo a lenda, teria salvo pescadores no mar, a quem aparecera em espírito.
O templo é composto por vários pavilhões de várias épocas, que se estendem pela Colina da Barra acima, sendo o último um templo budista. Está incluído no património histórico de Macau classificado pela Unesco. O mais rico deles todos é, justamente, aquele que ostenta a imagem da deusa A-Ma. Todo o conjunto está impregnado do penetrante cheiro a incenso queimado pelos crentes que aqui acorrem. Pelos vistos, trata-se do maior monumento religioso de Macau e aquele que faz o cruzamento de várias culturas que estão na orgem da civilização chinesa: confucionismo, taoísmo, budismo.
Com isto, passa-se uma boa parte da tarde e é altura de irmos ao hotel para atribuição do quarto (a bagagem é reduzida, visto que as malas ficaram em Hong Kong, como já referi). Antes de lá chegarmos, percorremos a pé algumas ruas do centro, onde a D. Eugénia nos vai apontando este ou aquele edifício emblemático e dando outras indicações sobre a cidade e o seu ambiente: os seus casinos, que são numerosos (36), fazendo da cidade um dos principais centros de jogo na Ásia, conhecida por isso mesmo como a Las Vegas do Oriente, o seu circuito automobilístico da categoria Fórmula 3, sendo também conhecida por isso como a cidade Monte Carlo da Ásia, e D. Eugénia acentua essa característica com evidente orgulho.
O nosso hotel é um dos mais, se não mesmo o mais sonante de Macau, com uma arquitectura moderníssima e uma torre de arrojadas formas, que é uma das referências da cidade – o Hotel Lisboa, tendo ao lado o casino do mesmo nome, sedeado no mesmo edifício, da autoria de dois arquitectos de Hong Kong.
Depois de feita a instalação, ainda sobrou tempo para umas voltas pela cidade. Saindo sozinho do hotel, acabei por acamaradar com um médico e a sua mulher, que já me tinham acompanhado na excursão à muralha da China, exactamente a seguir ao incidente, que eles lamentaram comigo, de uma lufada de vento me ter levado o boné e me ter exposto a cabeça ao gélido frio da Mongólia.
Fomos até junto do porto interior, onde nos fotografámos mùtuamente; percorremos depois várias ruas e avenidas do centro, cheias de movimento, como se numa grande e buliçosa cidade, contemplando o colorido das numerosas luzes dos estabelecimentos, onde sobressaíam as das bizarras torres do Casino Lisboa e de outros casinos e hotéis, cada qual parecendo disputar a primazia do efeito cénico, mas não suplantando a daquele na sua singularidade.
Andámos pela Avenida Almeida Ribeiro para a qual dá parte da fachada do Leal Senado, agora com as janelas todas iluminadas, e voltámos a admirar o bonito largo em frente, com o fontanário também a resplender de luz (uma luz líquida); percorremos assim várias ruas e avenidas com sonoros nomes portugueses. Numa dessas avenidas, a Avenida do Infante D. Henrique, entrámos em vários estabelecimentos (eu comprei um boné para substituir o que o vento desabrido de Pequim me tinha levado) e encontrámos por mero acaso o edifício-sede da Escola Portuguesa, onde se leccionam em português as matérias do 1.º ao 12.º ano de escolaridade (inaugurado em 1998). Neste passeio descontraído, chegámos ao hotel a horas de jantar. Foi um bom e animado jantar, que a todos agradou.
No final, saí sozinho para a noite. Havia ainda grande movimento pelas ruas. Ao lado do hotel, uma vistosa fiada de riquexós, com os condutores aguardando qualquer cliente. A cidade resplandecia na sua féerie de luzes. É, sem dúvida, uma bonita cidade. Pena era que ali não permanecêssemos mais do que uma noite e pouco mais do que um dia e meio. Infelizmente, não dispúnhamos da faculdade soberana de Ferreira de Castro, quando andou a dar a sua volta ao mundo; era para lá ficar dois dias e acabou por decidir ficar duas semanas. Não será fácil voltar aqui com outra disponibilidade. Já estive para vir a Macau em 1998, convidado para um colóquio sobre liberdade de imprensa, mas acabei por desistir, por achar que fazer uma tão longa viagem de avião para cá permanecer apenas três ou quatro dias não valia o sacrifício.
Volteando por aqui e por ali, acabei por entrar no casino Lisboa, ao lado do hotel. A sala de jogo estava repleta e, entre os jogadores, encontravam-se muitos jovens. Não sei em que tipo de jogo se envolveriam, porque não percebo patavina do assunto. Andei em torno das mesas, observando sem nada entender: a roleta, o bacará e também o tradicional jogo chinês – o fantan? Estive assim que tempos. Por fim, saí e fui para o hotel. O quarto era magnífico, com uma casa-de-banho ultramoderna, mas não era muito amplo.
Levantámo-nos cedo para prosseguir na visita. Fomos então visitar as ilhas de Coloane e da Taipa, atravessando de autocarro as pontes que ligam o território àquelas ilhas. Dia magnífico, de sol. A D. Eugénia quis presentear-nos com uma oferta em Coloane (primeira paragem); levou-nos a um café simpático, com os donos do qual ela tinha familiaridade. Aí pudemos tomar um café expresso e comer um pastel de nata. Este último era a sua oferta. O pastel de nata associado ao café, uma imagem gastronómica de Portugal, muito recente, já chegou à China.
Passeámos a pé por bairros típicos de casas chinesas, com arruamentos estreitos, livres de trânsito e muito sossegados, com nomes portugueses. Numa praça, em frente da baía, a capela de S. Francisco Xavier, um humilde templo evocativo da passagem do missionário por Macau, a caminho da China e do Japão, sem grande interesse artístico. Em frente, um obelisco com canhões em ferro fixados no pavimento comemora o rechaçamento do último ataque de piratas, em 1910. Era nas grutas e falésias desta ilha, habitada por indígenas, que os piratas se acoitavam. Os portugueses chegaram aqui no século XIX e depois integraram a ilha no território de Macau.
A ilha de Coloane, conforme a fomos vendo de autocarro, está repleta de prédios altos, mansões, parques e resorts, sugerindo ambiente de lazer, a que a existência de praias dará o cenário adequado, embora com águas impróprias, segundo parece. Nesta ilha está a ser construída a que será a maior universidade de Macau, segundo informa a D. Eugénia, apontando para o lugar onde está a decorrer a construção. Através do istmo de Cotai, actualmente urbanizado graças ao alargamento do aterro, chegámos à ilha de Taipa.
Aqui parece existir uma maior abundância de arranha-céus e residências de luxo e é o sítio onde se localizam numerosos casinos. O complexo urbanístico dominante é o denominado Veneza de Macau, imitando o Veneza de Las Vegas; inclui hotel e casino com 40 andares, um edifíco que será um dos maiores do mundo, sendo o casino mesmo o maior a nível mundial, com 800 mesas de jogo, 3.400 máquinas também de jogo, uma vasta área para espectáculos, feiras e congressos, resorts na sua cintura, milhares de suites. Tudo lá dentro tem um ar de requinte, sobretudo a decoração da denominada Praça de S. Marcos, imitando essa praça veneziana com céu e tudo; este parece mesmo natural. A sensação que dá é que, naquele espaço interior, o tecto é mesmo o céu. Em toda a parte, patamares, corredores, salas, os tectos são um luxo, decorados com pinturas, e os lustres são peças de arte. A decoração ficou a cargo de artistas, arquitectos e decoradores italianos. Tenho nos meus apontamentos de viagem que esta construção durou apenas dois anos (condição imposta pelo governo chinês), tendo ocupado 30.000 trabalhadores 24 horas por dia. Trata-se, evidentemente, de uma maravilha ofuscante, de uma catedral moderna de comércio e consumo, diante da qual o turista não podia deixar de ficar embasbacado e nenhuma agência de viagens poderia deixar de incluir no seu cardápio de visitas. Por isso, foi aqui que se gastou o tempo praticamente todo dedicado a Coloane. É certo que esse tempo era escasso e que passámos pela pitoresca rua do Cunha, mas foi mesmo uma passagem fugaz que ficou obnubilada pela visita à “catedral”. Outras catedrais, como a de Macau, como já referi, ficaram no olvido.
A seguir ao almoço, à vontade de cada um no centro comercial do edifício Veneza, seguimos para Macau. Despedimo-nos da D. Eugénia e apanhámos o turbo jet para Hong Kong. Sulcando o vasto estuário do rio das Pérolas sob um sol magnífico, de que temos sido sempre bem servidos, eu transportava comigo uma sombra, que me coava os raios solares, por ser tão fugaz o encontro com a bela cidade que conserva tantos vestígios da nossa estadia de vários séculos nesta parte do Oriente.

02 junho 2020

 

Os grandes estadistas do nosso tempo










Nestes tempos conturbados de pandemia não podemos deixar de medir o pulso aos grandes estadistas contemporâneos. Com efeito, é em circunstâncias peculiares como estas que sobressaem os grandes chefes, os grandes condutores de povos, os verdadeiros líderes. Pois é de dois desses valorosos estadistas que me proponho falar hoje. São eles o Senhor Fake News e o Senhor Resfriadinho. Penso que toda a gente os tem em mente, quando se fala nos dois mais eminentes vultos destes dias. Por isso, acho que é inútil referi-los com outros sinais de identificação, bastando que diga o Senhor Fake News e o Senhor Resfriadinho para que logo toda a gente os reverencie no seu íntimo como duas figuras verdadeiramente exemplares que a história há-de perpetuar como marcos indeléveis.
Na verdade, eles são como as duas faces de uma mesma moeda (a face A e a face B); como que foram moldados na mesma liga, a ponto de se poder afirmar que pertencem à mesma progénie. Ambos estadistas de grandes países, de grandes uniões de Estados (United States A e United States B), eles têm-se distinguido pela firmeza e pela audácia das suas decisões. Aparentemente não são decisões de grande espectro, mas, passada a surpresa do primeiro impacto, logo começa a ganhar relevo a sua verdadeira dimensão, a sua grandiosa simplicidade, ou talvez mesmo simplismo, a sua expedita rudimentaridade, como já há tantas décadas, ou talvez mesmo centúrias, não se via.
Decisões dotadas de firmeza e audácia, repita-se. Firmeza pela força de pulso (de músculo) de que vêm animadas; audácia pelo destemor com que arrepiam caminho contra a opinião dos aparentemente mais circunspectos espíritos. Veja-se o caso por que temos vindo a passar desta pandemia originada por um vírus destruidor e avassalador. Ambos estes notáveis presidentes se têm disitnguido pela forma absolutamente soberana com que têm mandado às urtigas (permita-se aqui o plebeísmo) conselhos de peritos, médicos, epidemologistas, tanto nacionais, como estrangeiros, que têm recomendado, maioritariamente, contenção e prudência, recolhimento em casa e afastamento social.
Quando toda a gente, por esse mundo fora, se refugiava em casa, desertando das ruas e dos locais de trabalho, estes denodados chefes-de-estado riram-se das imprudentes recomendações dos “sábios” com a superioridade que os caracteriza e não se vergaram à ditadura do vírus. Era agora o que faltava que um insignificante inimigo, que nem se consegue enxergar à vista desarmada, um miserável vírus, virasse a sociedade do avesso! Homens verdadeiros, com a devida testosterona nos seus sítios, jámais o deveriam permitir, seguindo o exemplo destes líderes. Ambos eles mostraram a sua fibra de políticos enérgicos e independentes não só desprezando os melados conselhos da gente de ciência, como despedindo na hora certa os conselheiros e ministros da saúde que teimavam em contrariar ou franzir o nariz às suas decisões. Rua com eles! A política está acima da ciência, da arte, da moral e provavelmente da divindade.
O presidente Fake News veio a público mostrar que o remédio para o vírus era uma decisão política e não da medicina e que as pessoas podiam perfeitamente obter a imunidade se infiltrassem em si próprias desinfectante, ou se bebessem um xarope feito em casa com detergente para limparem as entranhas. O presidente Resfriadinho, por seu turno, não lhe ficando atrás,veio para a rua desafiar o vírus, num acto de impavidez digno de um antigo capitão de armas, e disse ao povo que podia vir para a rua e dansar o samba. São actos tão destemidos estes e tão demonstrativos de uma invulgar entrega à causa pública, que ambos os presidentes já provavelmente conquistaram a sua figuração icónica para a eternidade: o presidente Fake News numa estátua, no lugar mais central da capital do seu país, com uma seringa gigantesca a combater o vírus e o presidente Resfriadinho, em lugar destacado da sua moderníssima capital, a enfrentar o mesmo vírus com um passo de samba.
Apesar destas atitudes premonitórias, muita gente tem sucumbido aos ataques do vírus nos países dos dois estadistas aqui focados. Contudo, os mesmos não se deixam arrastar por essa onda de mortandade, nem mover pelas fragilidades da compaixão, agindo sempre com coragem e alto sentido de Estado. O presidente Resfriadinho, aliás, definiu como ninguém, numa frase sábia, a essência do que tem vindo a acontecer no seu país: “É a vida!” E rematou com esta modesta auto-apreciação, tão característica dos grandes homens, que medem sempre por baixo o seu valor: Eu não faço milagres.
A profissão de fé de ambos eles, quer face a esta pandemia, quer a outras lérias inventadas por falsos cientistas, como a das alterações climáticas, é esta: “Salve-se a economia e morra quem tem de morrer”. Ora aqui está o princípio salutar da vida humana.
Estes dois estadistas são aves rarae na história dos povos e será preciso recuar vários séculos para se encontrar alguma personalidade que se lhes equipare, pois os estadistas de envergadura são mesmo muito raros. O presidente Fake News com o seu gesto magnânimo de enviar, em nome pessoal, envelopes aos seus concidadãos com quantias de mil dólares para mitigarem os efeitos da pandemia faz, talvez, lembrar o imperador Calígula, o qual, segundo o biógrafo dos Doze Césares, o imortal Suetónio, distribuiu por duas vezes ao povo trezentos sestércios por cabeça, para além de ter mandado chover sobre o mesmo povo dinheiro em moedas, durante vários dias, ao passo que o presidente Resfriadinho talvez pudesse arremedar o imperador Nero a contemplar o incêndio sobre Roma que ele próprio mandara atear tocando cítara e cantando, figurando-se desta feita o presidente Resfriadinho a tocar violão, contemplando um incêndio na Amazónia.
É possível encontrar mais semelhanças nobilitantes entre os dois estadistas. Por exemplo: na forma como ambos reagem tão destemidamente aos jornalistas que não são capazes de perceber a excelência dos seus actos, não obstante a evidência do seu valor: o presidente Fake News vociferando: go out!; o presidente Resfriadinho: Cala a boca!
Acima de tudo o que vai exposto, há uma virtude raríssima que é preciso assinalar-se-lhes: a incrível leveza com que exercem os seus cargos, provando que a aparente complexidade da arte ou da ciência de governar está, afinal, ao alcance de qualquer um, e que não é preciso ter conhecimentos por aí além para governar países de grande dimensão e exigência. Formidável pedagogia que o cidadão comum universal daí pode colher!
Enfim, quase se poderia afirmar que os presidentes Fake News e Resfriadinho, se vivessem no mesmo país, poderiam formar um consórcio e serem o presidente e o vice-presidente um do outro, alternadamente, revezando-se nos respectivos cargos e perpetuando-se no poder, a bem do povo que tivesse a sorte de os merecer. Há exemplos, porventura mais toscos, por esse mundo fora, que lhes poderiam servir de modelo.
Estou certo de que há-de aparecer um novo Cervantes para fixar literariamente as aventuras épicas desta dupla de estadistas: o presidente Fake News no seu Rocinante a brandir uma grande seringa de desinfectantes, arremetendo contra o vírus e, a seu lado, o impagável Resfriadinho, cavalgando a sua alimária e ajudando-o com os alforges carregados de detergentes injectáveis.

Jonathan Swift (1665-1745)


21 maio 2020

 

China VI



Guilin
Hoje foi cedo o acordar: 06H30 locais.
Após o pequeno-almoço no hotel, eis que vamos a caminho do cais do rio Li para uma excursão de barco. O guia foi aproveitando a viagem de autocarro para nos continuar a fornecer indicações sobre a cidade de Guilin e a região. A cidade tem 800.000 habitantes (quatro milhões se se contarem as zonas contíguas) e é puro o ar que aqui se respira, límpidas as águas, que se podem beber directamente das fontes e correntes, dispondo de invejáveis condições de salubridade, graças à sua situação geográfica e condições naturais. O governo protege, por meio de medidas adequadas, o ecossistema deste espaço urbano e zonas envolventes. Por exemplo: retirou daqui as indústrias poluentes e deslocou-as para outros locais, nomeadamente a área de Cantão; preserva as tradições e impôs limites à construção imobiliária, não podendo os edifícios exceder determinada altura. Por isso, não se vêem por aqui arranha-céus.
É vulgar as pessoas atingirem idades provectas: mais de 100 anos. Há uma mulher com 110 anos e outra faleceu com 118 anos. A reforma, em toda a China, é aos 60 anos para os homens e 55 para as mulheres e muitos chineses, depois de reformados, querem fixar-se aqui para viverem outro tanto. Esta é a legenda da cidade, segundo o guia, o simpático José. Só mais uma nota: Na China há cinco regiões autónomas: Macau, Hong-Kong, Guanshi, Mongólia Interior e Tibete. Nas regiões autónomas pode ter-se mais do que um filho. Guilin pertence à região autónoma de Guanshi.
E com isto, depois de 1 hora de viagem, já estamos a apear-nos, cada qual com a caixinha do farnel que o hotel nos preparou, já atravessamos as guardas que dão acesso ao cais, munidos do bilhete que nos foi fornecido e por entre a vasta multidão de turistas, encaminhamo-nos para o nosso barco (há vários), transpondo a prancha de madeira que conduz ao portaló.
A viagem ao longo do rio é um deslumbarmanto, que se prolonga durante 4 horas. Uma sucessão interminável de colinas de formas arrojadas, mesmo inverosímeis, de vertentes muito abruptas e picos a furarem o céu, oferecendo perspectivas inesperadas a cada volta do rio, umas isoladas, outras agrupadas, em duetos como se fossem irmãs, ou em magotes, com os pináculos formando serrania, esta estrangulando a corrente, a outra mais além obstruindo ilusoriamente a passagem, aquelas duas estando dispostas de tal maneira nas curvas do rio que simulam uma garganta entre gigantes, como Sila e Caríbedes, as mais longínquas envoltas em neblina, esfumadas e como se estivessem grudadas ao céu. Muitas têm nomes que evocam as figuras que as formas sugerem, como a célebre colina da Tromba de Elefante. Este é o cenário de muitas pinturas clássicas evocativas das paisagens chinesas.
O almoço foi a bordo, cada qual extraindo o conteúdo da caixinha que, desde o hotel, o acompanhava, o que contribuiu para dar uma agradável sugestão de viagem campestre.
O regresso foi no autocarro que nos levou de manhã cedo. Já chegámos para lá do meio da tarde. O tempo até ao jantar foi ocupado como cada um quis. E havia onde passar esse bocado da tarde, nomeadamente nas margens rústicas do lago que se encontra mesmo perto do hotel do outro lado da rua. Já falei dos seus arruamentos em terra, por entre árvores, arbustos e plantas da mais variada espécie, conferindo ao local um resguardo protector para os dias de grande calor.

Após o jantar, fomos fazer uma excursão de barco pelos lagos do centro, denominados o lago Cedro (Shanhu) e o lago Figueira (Ronghu), ligados um ao outro e navegáveis como se fossem um rio. A embarcação tinha um aspecto de bar nocturno, com mesas e bancos, onde nos fomos sentando. Como a noite estava boa, muitos subiam à amurada para melhor desfrutarem da viagem. Ao longo da passeata, a cidade ia-se-nos revelando, iluminada e multicolorida (os chineses parecem apreciar muito as iluminações nocturnas das cidades e pôr nisso um brio especial). Zonas ribeirinhas, jardins, parques, pontes, casebres das margens iam desfilando a um lado e outro.
A pesca ncturna foi uma das atracções mais inéditas e bizarras que se nos deparou. Os pescadores postavam-se no meio do rio, de pé, em barquitos pequenos, quase pranchas de surf, cada qual em seu barquito, um aqui, outro lá adiante, trajados com fatos fosforescentes e iluminados por uma lanterna ou coisa parecida. Tinham como companheiros corvos marinhos e eram estes que, devidamente amestrados, mergulhavam nas águas a um sinal gutural dos pescadores. Quando regressavam ao barquito, depois de uns momentos em mergulho, não aparentavam trazer nada com eles. Porém, os pescadores apertavam-lhes o pescoço, num gesto sacudido que parecia de estrangulamento, e eles largavam, inteirinho, o peixe que tinham engolido. Disse-nos o guia (o tal José) que os corvos são recompensados e procuram os maiores peixes.
Outra das surpresas que a viagem nos porporcionou foi um bailado executado num terraço sobre o rio por um conjunto de jovens beldades pertencentes a uma minoria étnica. Não seria nada de especial, se não tivesse surgido como uma espécie de espectáculo onírico, deusas marinhas ou ninfas que tivessem surgido do fundo das águas para deslumbrarem o viajante.
Uma última curiosidade foram as torres octogonais dos dois pagodes conhecidos como o Sol e a Lua, erguendo-se no lago Shanhu (Cedro), cada qual delas trepando nas alturas em vários andares com os seus telhados típicos. A mais alta, a do Sol, está iluminada em tons dourados e a da Lua, um pouco inferior, em tons prateados. Ambas produzem um belíssimo efeito na noite de Guilin, que as toma como ex libris.
No regresso, o barco foi mesmo transformado em bar nocturno com uma jovem chinesa tocando piano chinês e difundindo aquelas sonoridades orientais tão delicadas e sonhadoras.
Como se intui do descrito, a viagem tem o seu quê de menu turístico, o que mais uma vez prova a actual capacidade demonstrada pela China para atrair o forasteiro, dando- lhe a comer as iguarias que são as preferidas de quase todo o turista, mas não deixa de ser interessante e reconfortante. Valeu a pena sobretudo para ver a cidade à noite no multicolorido das suas luzes e as torres dos pagodes, que têm outra beleza iluminadas.

Estamos num outro dia, mas ainda em Guilin. O acordar foi às 07h00. Saída de autocarro em direcção ao museu das pérolas, que de museu tem pouco. Uma visita dirigida ao turista consumidor e à promoção da produção e comércio locais.
A coisa começou num auditório, onde houve desfile de beldades exibindo as jóias com que adornavam o colo e os braços, movimentando-se no tablado para trás e para a frente, ao som de música, pondo em evidência os seus enfeites. De seguida, passou-se à sala da exposição das jóias, onde uma senhora fez uma parlenda sobre a cultura das pérolas. Estas são provenientes de ostras, as quais produzem nácar como forma de defesa contra objectos estranhos que entram nas suas conchas – processo esse que, demorando anos, dá origem às pérolas. Há-as de água salgada e de água doce, sendo as de água salgada de melhor qualidade. Exemplificou com a abertura de um ou outro molusco, que retirou de aquários onde se cultivavam. Também deu explicações sobre os tamanhos e os feitios (as de forma redonda é que são aproveitáveis para colares e pulseiras de qualidade) e sobre a maneira de distinguir as pérolas verdadeiras das falsas (aquelas, sendo friccionadas, largam umas particulazinhas quase imperceptíveis de pó, as outras, não).
Passou-se de seguida à venda, no fundo o acto mais importante para que tendiam todos os passos anteriores. E foi um corrupio à volta dos mostradores e balcões, um fervilhar de desejos e de pequenas explosões de entusiasmo, com os da casa incentivando à compra com acenos de aprovação e palavras de encarecimento (normalmente em inglês) dos objectos sobre que se detinham mais demoradamente os olhares ou sobre os quais incidiam as inclinações dos potenciais compradores. Foi assim que gastei os últimos yenes, confortando-me com a necessidade de gastar aquela moeda, dado que, daí para a frente, a mesma já não tinha cotação. Haveria de ser o dólar de Hong-Kong.
Em Guilin ainda fomos visitar a Gruta da Flauta de Cana. É uma das grutas maiores e mais célebres desta zona de rios, lagos, colinas e grutas. Trata-se de uma enorme galeria, na qual se desce em profundidade, com estalactites e estalagmites formando as mais fantásticas figuras: leão, homem da neve, queda de água e muitas outras figuras imaginárias. Um microcosmo com elementos naturais e artificiais, estes consistentes sobretudo nos arranjos de luzes e sonoridades, onde se percebiam chilreios de pássaros, que na realidade não existiam. Em tempos ancestrais, fluiria por aqui um rio. No final, junto de um dos lagos da gruta, houve espectáculo com alusão cosmogónica e bailado. Na verdade, não se pode dizer que os chineses não sabem explorar convenientemente os seus recursos também do ponto de vista da indústria turística.
Terminada a visita, metemo-nos no autocarro com destino à estação dos caminhos-de-ferro. Despedimo-nos do José (afinal, Dong, o seu nome chinês, soube-o nesta altura). Dirigimo-nos para o comboio, que acabara de parar na plataforma, à procura da carruagem que o bilhete designava. Num rápido, num rápido, que o tempo urgia. Com toda a bagagem (mala grande, uma mochila, o volume do edredon e ainda uma caixinha com o lanche ou almoço, que tinha sido preparada no hotel). Toda a gente se precipita para as portas, as pessoas demoram a subir, demoram a entrar, por causa dos engarrafamentos, uma aflição. Por fim, consegui subir com toda a tralha e arrastá-la lá para dentro. Na coxia, as pessoas permandeciam de pé, atarefadas a colocar a bagagem nas prateleiras, completamente repletas. Quando consegui mover-me lá para dentro, vi um espaço livre numa prateleira, por cima do lugar onde iam duas jovens. Atirei a mala grande para esse sítio e, por felicidade, ela coube lá, embora com um dos rodados ligeiramente de fora, o que não pareceu agradar às referidas jovens. Verifiquei as condições de segurança e mostrei-lhes que a mala estava segura. Entalei o volume do edredon, mais espalmado, num espaço que havia entre as costas do último banco da carruagem e a parede do compartimento, confiando em que ninguém me pegaria nele. Fui depois à procura do meu lugar. Acomodei a mochila aos pés e respirei fundo, já o comboio, tipo Alfa, rodava a boa velocidade. Embalado entre estações, atingia 300 kms. por hora.
Fui lendo uns contos maravilhosos de Gao Xinjiang, prémio Nobel da Literatura no ano 2000 (Uma Cana De Pesca Para O Meu Avô, publicações Dom Quixote) e espreitando a paisagem. Planícies a perder de vista, áreas cultivadas, relevos boleados, povoações aqui e acolá, centros urbanos, tudo incaracterístico, assim me pareceu. Sobretudo no que diz respeito aos edifícios, que a paisagem era agradável à vista, inundada de sol. O comboio parou em várias estações e, já perto de Hong Kong, parou em Cantão, uma grande mole urbana com prédios trepando para o céu, mas onde também não divisei nada que chamasse a atenção.
Ao cabo de três horas e meia de viagem estávamos em Hong Kong. Já estava o autocarro à nossa espera com o respectivo guia, que falava castelhano. Enquanto a viagem durou, foi-nos dando explicações sobre a cidade. No hotel – o Harbour Plaza Metropolis, de 4 estrelas – coube-me o quarto n.º 69 no 17.º andar. O hotel ficava num alto e dele se divisavam estradas rápidas, cruzadas, sobrepostas, passagens aéreas, carros circulando a alta velocidade. O centro ficava a uns 20 ou 30 minutos de distância. Pequenos autocarros do hotel transportavam quem quisesse para lá, de meia em meia hora, se não estou em erro. Nesse dia, porém, com o cansaço da viagem e a freima da instalação, mais o tempo gasto no câmbio (troca de euros pelos tais dólares de Hong Kong – os funcionários examinavam cada uma das notas minuciosamente, virando-as de um lado e outro), acho que ninguém saiu. Entretanto já eram horas de jantar, que não houve (o único dia em que tal aconteceu). Andando perdido pelo foyer do hotel, depois de arrumadas as malas, acabei por encontrar duas pessoas que também vagueavam pelo mesmo local (duas senhoras, que eram companheiras de viagem e partilhavam o mesmo quarto). Desprezamos o restaurante e o bar do hotel e fomos para o centro comercial contíguo (Metropolis), que comunicava com aquele. Circulámos por corredores vazios, com lojas praticamente desertas àquela hora, num cenário universalmente estereotipado. Acabámos por ir dar a um pequeno restaurante que não tinha ninguém – uma dessas manjedouras de centro comercial. Mandámos vir lasagna à bolonhesa para todos (não havia muito mais) e uma sopinha de tomate picante. Acompanhámos com chá. Foi um pouco desolador em termos gastronómicos, mas divertimo-nos com piadas ao que nos rodeava. No quarto, o mais acanhado em toda a viagem, telefonei para casa, mas o WatsApp não deu (finalmente experimentava a interdição que impendia sobre essa rede social). Tive que fazer chamada pelo Rooming só para dizer olá, porque o preço escalda. Dormi com as malas por desmanchar, porque no dia seguinte partiríamos para Macau, de onde regressaríamos dois dias depois a Hong Kong. O grosso da bagagem, contudo, ficaria nos arrumos do hotel.

25 abril 2020

 

Pensamentos de um político singular


(Para que o leitor se ocupe, em tempos de pandemia, a procurar a quem podem caber estes pensamentos)
Estamos confinados nas nossas casas, por via de um ser ínfimo e invisível, que é o coronavírus (do latim corona - “coroa”), ou seja, o vírus coroado em rei do nosso tempo. É ele quem manda no nosso destino por estes dias.
Este vírus faz jus ao seu nome: vira tudo ao contrário. Um rei que nos manda andar às avessas. Nunca se viu um ser tão minúsculo pôr toda a gente de quarentena, refugiada com medo dele. Na verdade, ele despacha muita gente para o cemitério e, para além disso, paralisa toda a economia.
Mas será que nós vamos ter que obedecer a um serzinho destes? Ter a indústria parada?, os transportes imobilizados?, as casas de comércio fechadas?, os restaurantes sem vivalma?, os cafés e botequins vazios?, as casas de espectáculos às moscas?, as escolas sem mestres e sem discípulos?,os céus livres de ruído e de fumarada?, as estradas libertas dos engarrafamentos e do rebuliço do quotidiano?, enfim, será que vamos abdicar de tudo aquilo que é sinal de vida e sangue e luta? Não. Não vamos ter essa atitude, senhores. Vamos enfrentar esse vírus e dar-lhe uma ensinadela. Enfrentá-lo como homens de barba rija e de peito feito. Dar cabo desse reizinho, desse bicharoquinho. Veja-se aquele presidente do país do samba. Ele tem muita razão, até porque ele é destemido e foi capitão da tropa. Ele não tem medo do vírus e veio cá para fora sem máscara nem viseira, pronto a pegar no vírus pelos cornos, como um touro no redondel (eh, vírus! eh...eh!), exortando o povo a seguir o seu exemplo.

Ora aí está! Temos de nos deixar de “mariquices” e voltar a encarar a vida com firmeza e fortaleza. A vida não é dos fracos, nem dos impotentes; a vida é sangue e luta; a vida é dos fortes e dos que arriscam, não dos timoratos, nem dos que ficam pelo caminho. Alguns cairão doentes, mas isso é próprio de quem vai à luta. Há perdedores e ganhadores; sempre assim foi e há-de ser.
Dizem que são os velhinhos os alvos preferenciais do vírus. Pois, se assim é, deixá-los ir, dando a vez aos jovens e saudáveis. Nestes reside a força, a coragem, o denodo. E talvez se possa dizer que o último tributo válido dos velhinhos à continuação da vida seja o de poderem contribuir para a imunidade geral, de que tanto se tem falado. Aliás, como disse um governador de um Estado, nos United States, “os velhos deviam voluntariar-se para morrer”. Isso, por paradoxal que pareça, é que seria um grande hino à vida, principalmente da vida daqueles de nós que ainda têm a esperança de muito tempo pela frente, como provavelmente será o caso do referido governador.
Por estes dias temos assistido a um espectáculo deplorável: perdão de penas e liberdade condicional para os reclusos, a pretexto do vírus. Isto é inqualificável e bem pode ficar com um nome para a história vergonhosa das nossas instituições: virulência. Veja-se o paradoxo: cidadãos honestos sem poderem sair, confinados em casa, e os criminosos fora das prisões. Bem certo que se diz deverem els ficar com igual obrigação de retenção em casa, mas mesmo isso é inadmissível, pois tal equivale a torná-los iguais a nós, ou seja, a equiparar-se a banditagem ao comportamento ordeiro dos restantes cidadãos. É este o perigoso igualitarismo que está em vigor no nosso país. Os nossos governantes aduzem que é por causa do vírus. Mas então o vírus é o tal reizinho que manda no país e os nossos governantes são os títeres manobrados pelo bicharoco, como num teatro de marionetes? Vergonhoso!

Querem estes cavalheiros celebrar o dia da liberdade! Mas que liberdade, quando está toda a gente metida de portas adentro? Só se for a liberdade que pôs os criminosos fora das prisões. A liberdade indiscriminada dos vendilhões do templo. Temos de nos livrar desta liberdade que mistura o crime com a vida honesta.
Soltem mas é a economia, abram o comércio e as indústrias, ponham cá fora a mão-de-obra, glorifiquem o trabalho. Arbeit macht frei.
Jonathan Swift (1667-1745)


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